Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

10 de Agosto de 2014, 15:25

Por

Foi assim há tanto tempo que Renzi imitou Berlusconi?

Tem feito furor, em Itália, o vídeo de uma paródia televisiva de há quase vinte anos, em que Renzi, actual primeiro-ministro, imitava Berlusconi. O vídeo tem sido retirado e reposto, anda a fugir aos assessores e é apanhado, mas ainda assim consegue-se encontrar: é um breve sketch em que Renzi/Berlusconi promete duplicar o salário ao vizinho, promete o Papado a um cardeal, insulta os sindicalistas e ainda canta no final.

É uma anedota, uma historieta, não é mais do que isso. Mas foi lembrado quando o primeiro-ministro, coqueluche momentânea dos partidários do centro, que ficaram órfãos de Hollande, anunciou que uma das suas medidas na rotativa presidência italiana da União era consagrar o inglês como língua oficial dos seus trabalhos, esquecendo a sua própria língua (e as outras). Um gesto apreciado nas chancelarias mas criticado pelo povo. E que deixa uma pequena interrogação: se, quando tudo é fácil, tudo se promete, o que resta então, quando se ignora a realidade da Europa, que é a diversidade de países, de culturas e de línguas? Ou, por outras palavras, a pergunta mais radical é esta: pode haver democracia na Europa sem as democracias realmente existentes?

Portugal é a língua portuguesa, adivinhava Pessoa. A Itália é a língua italiana, escrevia Umberto Eco. Sem saber quem somos, não somos nada. Nem a Europa nem na Europa. E, sem nada nem ninguém, o poder pode-se chamar como quiser, mas não é democracia.

Comentários

  1. O meu comentário não tem a ver com este artigo. O meu pedido vai no sentido de um comentário sobre a notícia desta noite mais uma vez sobre o BES. É que francamente não entendo como um comentador de referência como o Prof Marcelo possa cair no imenso disparate de se referir ao financiamento concedido pelo BCE ao sistema bancário português como se fosse um favor feito a Portugal.

    Pergunto: não devia o Prof. Marcelo saber que esse financiamento constitui uma estrita obrigação do BCE que, como qualquer banco central, tem de actuar como o que se costuma chamar o credor de última instância? Nunca ouviu o referido Prof. falar do chamado Target 2, sistema de pagamentos e de compensações entre os bancos centrais da zona euro, que permite que os bancos não sejam ultimados a compensar os adiantamentos de liquidez que lhes são feitos pelo BCE? Como é possível que um comentador de referência se refira aos adiantamentos feitos pelo BCE aos bancos portugueses como se fossem um favor? Não sabe o Prof. que foi através deste sistema – mas numa escala muito mais ampla – que o BCE impediu o colapso da banca espanhola? Nunca ouviu o Prof. Marcelo falar das duras críticas que são dirigidas ao BCE por fazer muito menos para combater a estagnação da economia do que fazem os principais bancos centrais do mundo: Reserva Federal dos EUA, Banco de Inglaterra, Banco do Japão? Como se pode enganar as pessoas desta forma?

    Note-se que este comentário não significa qualquer indulgência em relação aos responsáveis pelo desastre do GES/BES.

    1. Também creio que Marcelo desvaloriza os erros do BCE e, sobretudo, a estrutura deficiente do euro e deste modo de financiamento de liquidez dos bancos. De facto, um banco central deve ser um fnanciador de último recurso e não um financiador corrente, porque isso quer dizer que os bancos não são robustos nem geram o seu próprio negócio. Isto não vai correr bem, como se tem visto aliás.

    2. Ataíde: yes
      a forma com o target funciona com emissao de moeda central que nao está prevista na letra dos tratados podia ter permitido que uma pool de bancos nacionais obtivessem refinanciamento no banco central para descontar obrigações dos governos
      mas tambem dependeria da extensão dos leilões do bce. mas de facto com o bce refinanciou os passivos obrigacionistas dos pp bancos, também podia ter refinanciado o passivo do estado via os bancos
      mas primeiro. o euro é mal entendido
      segundo. a economia politica da alemanha do euro quer ver sangue nas periferias
      a realidade é composta de idiotas ; o mundo foi criado de uma chuva de átomos na antiguidade. é ainda lá que estamos; antes era o vaziio . o nada.

    3. Simplificando muito, o mecanismo TARGET2 permitiria ao governo português pagar a sua dívida ao exterior – desde que o governo “convença” (tem muitos meios de pressão para o fazer) os bancos comerciais portugueses a financiá-lo, comprando sistematicamente os seus títulos, em emissões primárias idealmente de médio ou de longo prazo.

      O governo usaria depois esses novos depósitos nos bancos (resultantes dos empréstimos) para pagar os credores externos. Os bancos ganhariam somas vultosas no “spread” entre a taxa dos empréstimos e a taxa próxima de zero por cento a que se financiam automaticamente junto do BCE/Banco de Portugal.

      Portugal precisa urgentemente aproveitar as regras do euro para escapar ao abraço mortal da dívida ao exterior.

      E, se os bancos comerciais fossem entretanto capitalizados com injeções de capital por parte dos fundos de pensão públicos, parte desse “spread” serviria para pagar as reformas dos pensionistas portugueses.

      No final do processo, o governo teria pago a dívida ao exterior com euros criados (no ato de concessão dos empréstimos) pela banca portuguesa. Aumentaria a dívida acumulada no Banco de Portugal na rubrica TARGET2, mas essa dívida só pagaria os juros à taxa definida pelo BCE (hoje, próxima dos zero por cento), não tendo nunca que ser pago o valor nominal acumulado dessa dívida TARGET2 (esta é uma das regras do sistema de pagamentos entre bancos centrais da zona euro).

      Portugal poderia assim transformar a dívida externa em dívida interna (dívida do governo aos bancos nacionais) – e o país ficaria assim livre da sua atual dependência face aos credores do exterior, pois teria pago a dívida em vez de pedir humildemente a sua reestruturação (esta depende da boa vontade de credores que já provaram não ter nenhuma boa vontade, pelo que será na prática impossível de concretizar).

      E Portugal estaria, então sim, livre para sair do euro (se assim quisesse) pois iria sair livre de dívidas denominadas em euro – dívidas essas que aumentariam exponencialmente, em termos de percentual do PIB, se o país adotasse um novo escudo desvalorizado, mantendo passivos ao exterior denominados em euro.

      É esta a ideia, que se baseia nas regras de funcionamento do euro – designadamente, na obrigação de o BCE adiantar sem limite reservas aos bancos portugueses, de forma a garantir que as transferências em euros para o exterior do país se podem sempre realizar. No dia em que não pudessem se realizar, o país estaria fora do euro, o que o BCE não pode deixar que aconteça, dadas as obrigações que tem de garante da moeda única, por virtude dos Tratados europeus.

    4. pois é.
      mas para isso o estado tambem tem q ter mão nos primary dealers
      o target tem todas as potencialidades para salvar o euro !!!

    5. O Estado já tem “na mão” os Primary Dealers do Banco de Investimento da CGD.
      E pode ter também os outros, acenando-lhes com uma operação que seria altamente lucrativa para os bancos comerciais.
      A atual intervenção no BES com a criação do Novo Banco poderia ser, aliás, o momento oportuno para lançar a operação “pagamento da dívida externa”.
      Neste cenário, o Novo Banco seria vendido a uma entidade privada com quem o governo mantenha boas relações (por exemplo, uma entidade com origem em Angola, país que tem capitais mais que suficientes para se lançar numa iniciativa deste porte) e a entrada no capital seria alargada também a fundos de pensão públicos – de forma a que os aposentados portugueses possam ser também beneficiados com o “spread” entre as taxas de empréstimo ao governo e a taxa de juro quase zero por cento a que a banca comercial pode se financiar no Sistema Europeu de Bancos Centrais.
      Recordemos que, por cada euro de capital colocado no Novo Banco, esta entidade poderá emprestar dez ou mais euros ao governo.
      Depois da venda, o banco emprestaria os biliões de euros necessários para que o governo vá pagando, rapidamente, a dívida externa. Capturando o referido spread, o banco teria altas taxas de Return on Equity, os seus acionistas (incluindo os fundos de pensão que pagam aos aposentados portugueses) enriqueceriam e o país ficaria livre dos credores externos, que lhes têm imposto duríssimas políticas de austeridade.
      Como se diria nos USA, acerca de um cenário deste tipo: “What´s not to like?”
      Let´s just do it!

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