Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

9 de Agosto de 2014, 10:30

Por

Adivinhe onde está o luxo

china luxuryFala-se de crise, mas qual crise? Esqueça a banca, deixe-se disso, dessas intrigas sobre os Vistos Gold e dessas invejas sobre as compras de casas no Estoril, a coisa é muito mais séria. É a sua oportunidade, enriquecer, qual crise?

É um mercado, meus amigos, é um esplendor, é uma promessa: o luxo é o futuro, o luxo vai-nos levar pela senda da glória, o luxo é que se vende. Sapatos de stiletto na Avenida da Liberdade, malas de crocodilo nas lojas fashion dos resorts, canetas de ouro, relógios de astronauta, produtos gourmet importados do Cazaquistão, casacos de cetim e smokings justos, porsches e lamborguinis, ele é de tudo e ele são levas de angolanos, de general para cima, e de chineses, do comité central para cima, o luxo é o futuro.

O futuro é para a frente. Siga um bom conselho, veja como evoluiu o mercado global de bens de luxo (o gráfico mostra o presente que é o futuro: clique na imagem para a ampliar e veja as contas do The Economist sobre os compradores de bens de luxo no mundo… e num comércio perto de si e que pode ser seu), descubra as suas oportunidades e deixe-se de carpir a sorte. Mundo, aqui vamos nós, abram alas!

Comentários

  1. «produtos gourmet importados do Cazaquistão»
    esses de preferência, não. o Cazaquistão era o local escolhido para testes nucleares da ex-URSS

  2. A produção mundial de bens, está cada vez mais na mão de alguns, devido ao sistema capitalista selvagem sem controle em que vivemos. Há quem defenda que a solução, é criar um imposto sobre as fortunas. que na minha opinião não resolve o problema. A solução para o problema é simples, passa por serem criados salários dinâmicos. Salários que funcionam em % de: para “trabalhadores”, “accionistas”, “administradores”. Salários dinâmicos teriam grandes vantagens, como o aumento produtivo e consequentemente o consumo.
    O aumento dos salários mínimos ia acelerar a curva ascendente do gráfico.

  3. Caro Doutor Francisco Louçã, um bom mote para iniciar um comentário ao seu post, será lembrar, aqui, um clássico do pensamento económico: «Amor, Luxo e Capitalismo» (Liebe, Luxus undo Kapitalismus) de Werner Sombart(1913). Nesta obra, o autor alemão detem-se nos processos que transformaram uma economia, baseada nas exigências do consumo de bens de luxo por parte de uma certa classe social. Sombart coloca em destaque a transformação da relação entre géneros(sexos), que terá como resultado o nascimento de novas estruturas sociais. Enquanto na Idade Média a riqueza assentava na propriedade fundiária, no Renascimento (Sécs XV-XVI) inicia-se a circulação de quantidades apreciáveis de metais preciosos, sob forma amoedada, bem como ouro e prata provenientes das Américas e de África. Multiplicam-se os títulos nobiliárquicos e a mobilidade social, de elementos vindos da burguesia, em muitos casos alheios ao estilo de vida da nobreza guerreira. Porém, a mercancia, o mercantilismo e a conceção mercantilista do mundo vai abarcando todos os estratos sociais. Até a reforma protestante, como nos veio demonstrar Max Weber, dará um impulso decisivo ao capitalismo, pois a riqueza deixa de ser vista como um pecado, como defendia a reflexão económica medieval por via da Igreja.
    O problema que é aqui aflorado, relativamente ao consumo de produtos de luxo, ao nível global, leva-nos inevitavelmente à reflexão de Thomas Piketty sobre a repartição da riqueza, as rendas, e a forma como os rendimentos do trabalho têm caído por oposição ao retorno do capital vindo do investimento no próprio capital. Qual a forma de resolver esta discrepância? Através de uma taxa sobre as fortunas nos offshores e nos paraísos fiscais? Então teremos de nos colocar de acordo ao nível global! Por enquanto, conviremos, isto é um sonho, infelizmente!

    1. Agradeço imenso a referência. Receber uma citação de Sombart já justifica este post, por si só. Quanto às dificuldades tem razão, e Piketty, que retomou a tese – tanto que a defendi desde há tanto tempo – de um imposto sobre as fortunas, reforça essa atitude de indignação perante a desigualdade. Não concordo com ele, no entanto, na questão da dívida, cuja reestruturação defendo, (e a que ele se opõe). Também me custa aceitar a tese de que nada se pode fazer sem acordos globais, porque conduz à impotência: se tivesemos controlo sobre as transferências internacionais de capitais, os escândalos BCP, BPN, BPP e BES nunca tinha ocorrido.

    2. Sombart é sem duvida uma referencia de excepção
      merecia por si um só curso. e falo mesmo de uma cadeira própria . um semestrão
      grandes mestres da filosofia , da sociologia compósita … tudo em lingua alemã

  4. Num dos últimos “Nouvel Observateur” há um artigo em que revela que o PC chinês está a apertar as regras de tal maneira que o comércio de luxo está (lá) a diminuir.

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