Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

7 de Agosto de 2014, 10:00

Por

O Leopardo

O Leopardo

Neste Agosto, volto a “O leopardo”. Ao livro de Lampedusa e ao filme de Visconti. Que li e vi vezes sem conta.

Continuo a não saber se gostei muito do livro (que, aliás, se prolonga para além do filme) por já ter visto o filme, se fiquei ainda a gostar mais deste por me ter enriquecido com a leitura do romance. Talvez ambos…

O filme é esteticamente sublime e amarguradamente existencial, como sempre foi com Visconti que deixou transparecer muito de autobiográfico e dos conflitos entre as suas raízes aristocráticas e a sua interpretação do devir histórico.

Sem os abomináveis efeitos especiais da técnica, Visconti oferece-nos a profundidade estética das cores, das sombras, dos sons da Sicília poeirenta do século XIX, a ambivalência da época turbulenta e da fractura social, a introspecção da decadência aristocrática e a impetuosidade idealista dos jovens rebeldes de Garibaldi.

Há cenas que são quadros de pintura inigualável. Logo a começar, a recitação quotidiana do rosário num salão rococó orientada pelo grotesco Padre Pirrone, com as cortinas quase abraçando, com o vento, a aridez do ocre da terra siciliana. Ou a chegada do Príncipe de Salina e da sua corte familiar a Donnafugata, a recepção na igreja da aldeia ressequida pelo calor, ao som de Verdi e das vénias farsantes que já prenunciavam a mudança da história e o colapso bourbónico face á nova burguesia triunfante. Momento sublime é também a passagem lenta da câmara pelas faces pálidas, distantes e maquilhadas de pó do Príncipe, da mulher já fora do mundo, da onírica filha Concetta, do revolucionário sobrinho Tancredo…

Um filme de 1963, ainda profundamente actual, agora, com outros protagonistas, com outros Dom Fabrício, Ciccio, Calogero ou Onófrio, mas com as mesmas buscas, as mesmas interrogações, as mesmas contradições, a mesma cupidez, a mesma necessidade de perceber a existência.

Por isso, talvez tanto se tenha celebrizado a frase do romance imortalizada no filme de que “é preciso que mude alguma coisa para que tudo fique na mesma”.

Comentários

  1. Obrigado! Pela milionésima vez vou voltar ao livro e ao filme, infelizmente em DVD. Quem me dera voltar vê-lo, como o vi, naquelas duas inesquecíveis sessões no Tivoli.

  2. Disse Tancredi ao Príncipe, seu tio: «Se nós não estivermos lá também, aqueles ainda se saem com a República. Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que mude tudo. Expliquei-me bem? (…) Até breve. Regressarei com a tricololor.»

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