Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

7 de Agosto de 2014, 13:15

Por

Notícias do manicómio, ao estilo inimitável de Vasco Pulido Valente

salgadoNa piolheira em que se arrasta este desconjuntado edifício que é Portugal, um escândalo só sobrevive na maledicência indígena se mobilizar a imaginação, o ódio ou o sexo. Imaginação, este caso não tem nenhuma: uns tostões surripiados pelo Zé das Medalhas para algures, um presente de um empresário que vai ao barbeiro de Mercedes, um banqueiro que se consolava com a ideia imaginária de poder e uma pandilha de governantes a girar à sua volta, exibindo a arrogância vácua de quem não tem mais nada na cabeça. Nada. De ódio, pouco, de sexo, menos que nada.

Este escândalo, que ferveu nos telejornais, já foi enterrado pela decisão do tribunal da Madeira sobre a atribuição do poder paternal no caso Daniel. Ou pelas derrotas do Benfica. Do escândalo nada sobrevive, nem merece. Não houve ajuntamentos conspirativos nas arcadas do Terreiro do Paço, entregue às fotos dos turistas, que a plebe prefere ser comboiada para os centros comerciais, onde não constam escândalos e de finanças não se sabe nada nem se quer saber.

Na verdade, este país abomina qualquer caso que incomode uma noite de domingo. Matreiros, os indígenas desconfiam que tudo isto é sempre uma frivolidade. Uma caleche ofertada a Costa Cabral, ao que consta de má qualidade, os ballets rose durante a ditadura sorumbática, agora a queda de uma dinastia de todos os regimes, cada época tem os escândalos que merece, mas a turba nunca se comoveu excessivamente com estas mundanidades. Bastou um comunicado lido tropegamente pelo governador, em prosa duvidosa e sintaxe sofrível, para acalmar a excitação das massas e todos voltarem para a cama.

É claro que, na política, como se isso interessasse aos provincianos deslumbrados que ainda votam, o insulto espanta, formam-se bandos como cogumelos, que a plebe manifestamente ignora senão desprezaria, pois que se dispersam com velocidade embasbacante. Entretanto, o país tem de sofrer pontualmente as orações de sapiência de Marco António Costa e Eurico Brilhante Dias, que fingem solenemente que estão a par da coisa. O Presidente, empertigado e sisudo, que costuma fazer de estátua ali para os lados dos Jerónimos, onde coze pacificamente a sua miséria à beira rio, lá partiu para o Algarve com o Jeep carregado de leis e de arrelias, a que vai dar despacho como manda o governo. O Tribunal Constitucional, na vã glória de dias passageiros e imerso na sua confusão de critérios, nem nota que o patego da rua, na sua espessa estupidez, não descortina o sonambulismo das leis e da respectiva mansa e mole jurisprudência. A classe média vive cretinizada pelos partidos, como a equipe de futebol que se arrasta vagarosamente à espera do apito final que nunca mais vem. Uns tristes deserdados lamuriam-se alegando terem críticas e soluções no seu refúgio em tudomenoseconomia. Não seria portanto de esperar outra coisa: exasperados com todas estas querelas, os indígenas fogem para a Costa, para a Figueira ou para Esposende. Um manicómio.

O escândalo, o escândalo insigne, é que feneceu a última esperança de uma boa vassourada, que era o FMI. Vieram céleres e foram embora mais depressa ainda, assustados por não conseguiram a defenestração da tropa fandanga que governa e sabendo que Portugal continua no seu sarilho de sempre. A choldra prossegue então alegremente, com mais um escândalo que o país suporta com a resignação e o menosprezo de sempre.

Por isso, sobrou a única atitude sensata, a do primeiro-ministro, que estava a banhos e a banhos ficou, deixando esta maçada entregue a Portas e a Albuquerque, que eram eles próprios os vértices do escândalo há um ano atrás, e aos correligionários europeus.

Medíocre e fugidio como todos os governantes sabidos, Coelho aprendeu nos idos das jotas que é sempre melhor fugir da confusão e que uma crise em Lisboa vale o tempo de um fósforo. Na verdade, o país inteiro anseia por imitá-lo e esquecer o caso. Tudo indigno, como de costume.

(Citações descaradamente avulsas a partir de inspiração literária liberalmente inspirada em VPV)

 

Comentários

  1. Os adjetivos são os do Vasco Pulido Valente e estão ótimos, só que ele os usa (e às outras palavras também) com muito mais economia. É isso que os torna poderosos e a sua prosa tão contundente, mesmo quando por dentro vamos buscar a substância e não há. Nisso o Francisco Louça não só não consegue imitar o Pulido Valente como se mantém muito fiel ao seu próprio estilo: podendo usar dois ou três adjetivos uns por cima dos outros, é isso que fará, rolando os erres para que fique tudo ainda mais barrrrrroco. Mas nenhum estilo é inimitável; só tem de praticar mais um pouco. Coragem. Não lhe faltarão escândalos para ir treinando.

  2. Certamente que haverá segmentos do povo que ainda se indignam, mas com que consequências? Quais são as respectivas opções nas urnas? Se não fosse um certo histerismo democrático não teríamos, em Portugal e na Europa, a recompensa eleitoral aos rostos do neoliberalismo: PPE em maioria no parlamento europeu e, em Portugal, os partidos da maioria bem melhor do que as soluções de esquerda. Mais dramático ainda é a ascensão da extrema direita que escala onde a social democracia desertou e onde a esquerda não consegue ser opção junto do «homem da rua».

    Quanto ao artigo, vem na sequência do brilhantismo que lhe é reconhecido.

    Cumprimentos.

  3. Gostei. Uma rábula de belo efeito VPV, isto é, azia e azedume permanente acopoladas com um “pouco” de soberba de boas famílias da classe alta lisboeta. Mas, enfim, acrescenta pouco no final das contas.

  4. Infelizmente, este texto retrata a nossa miserável realidade.
    O povo português perdeu definitivamente a capacidade de se indignar. Os escândalos sucedem-se e a impunidade é imensa. A descrença generalizada e a letargia tomaram conta da nossa sociedade. Somos um povo inculto que se contenta com pão e circo. Aceitamos a corrupção, os interesses obscuros e a promiscuidade entre os dirigentes políticos e o poder financeiro. Como exemplo, basta lembrar a presença do Dr. Ricardo Salgado nalguns Conselhos de Ministros, supostamente para discutir política de imigração.
    É justo reconhecer que algumas personalidades políticas da nossa praça, tentaram remar contra este estado de coisas, mas até essas se enredaram em lutas e interesses partidários e acabaram por desaparecer da cena política.
    Estou muito pessimista relativamente ao nosso futuro coletivo.

    1. Não creio que o povo tenha perdido a capacidade de se indignar, mas o retrato de uma certa elite sobre o povo e sobre si mesma desfigura o país com arrogância e superficialidade. Espero que esta paródia o tenha tornado claro.

  5. Belo artigo cheio de verdades: O estilo não tem nada a ver com o grande chato que era o chefe do Bloco de Esquerda.Para se parecer co Vasco Pulido Valente teria de ser capaz de escrever com um quinto das palavras.

    1. Fico feliz por saber que não eu, mas o Vasco Pulido Valente tem um admirador nesta nação de indígenas e pategos, como ele costuma escrever.

  6. Bem, se me é permitido, olhemos de frente para esta tragédia, sem melodramas ou queixumes. Estamos perante uma crise sistémica. Despareceram num espaço de duas semanas, um banco, um conjunto de holdings, e uma empresa de comunicações, com capitais, técnicas e gestores portugueses. A PT irá, de facto, desaparecer ou tornar-se subsidiária de uma outra empresa estrangeira. O BES será repartido entre a restante banca portuguesa. E vamos ser sinceros: o tecido capitalista e bancário português parece pequeno para comportar os bancos até aqui a operar no tecido económico. Alguns foram embora como o BBVA, mas o cadáver do novo banco será partilhado entre a restante banca. Um pequeno país que vê a falência efetiva de três bancos e dificuldades efetivas nos restantes, no espaço de três anos, é dose bastante para refletir na crise do «sistema». Por outro lado, há muito coisa por explicar na falência do BES. O Sr. Vitor Bento, que andou a dizer que os portugueses viveram a cima das suas possibilidades, gestor da SIBS, aparece como o economista académico exemplar, o messias que tudo vai resolver. No entanto, o seu desconforto é bem visível, nunca geriu um banco mas referiu ao jornalista que assumiu as funções por imperativo e desígnio nacional, imagine-se! Contudo, bem vistas as coisas mais parece que quis começar do zero, atirando para o lado, como lixo para debaixo do tapete, tudo o que recebeu. O resultado só podia ser, naturalmente, escavacar o resto da marca BES. Enfim, diz o povo, com a sua sabedoria espontânea, ainda a procissão vai no adro.

    1. Tem toda a razão, a procissão vai no adro, e é por isso que as lamúrias de gerações de Vencidos da Vida são tão fora de tempo.

  7. Sendo o Homem, na sua génese, uma fonte de onde brota, em todo o seu esplendor, a ganância, a cobiça, a cupidez, a vaidade, como aliás se vem reiterando, cada vez mais intensamente, nos últimos tempos, não entendo como pode a sociedade (ainda) não ter criado normas rígidas para se proteger – como se protege do simples indigente – onde o mal mais se agiganta, onde é mais atroz e devastador o seu resultado, que é no local onde o dinheiro se junta: na banca. Só consigo explicar tal fenómeno, por meio da dependência de quem supostamente governa às mãos desses seres corrompidos pela sua natureza. Será difícil fiscalizar um banqueiro, com o mesmo afinco, como se fiscaliza o RSI ou Subsídio Desemprego? Partir do princípio que o banqueiro é um ser puro por natureza é de per si é a maior estupides que se pode associar ao ser humano.

  8. Estilos literários à parte, espero que o escândalo BES perdure no tempo e sirva para iniciar algumas mudanças. Espero que episódios novos sejam revelados. Burlas, tráfico de influências, abuso de poder, de confiança, negócios obscuros entre a alta finança, financiamento de partidos, captura ou lançamento de “pontas de lança” políticos. Tudo com o maior requinte. Com todos os pormenores. Se puder ser, que se revelem também réplicas europeias. Sim porque BES, na Europa, não há só um…
    Não é que tenha prazer em ver desgraças mas sim porque confirmaria aquilo que todo o ser pensante desconfia. Poderia inspirar alterações no modelo de organização da sociedade económico-financeira e social. Mas aposto que, como refere Bagão Félix no seu texto de hoje, os agentes decisores (sejam eles quais forem) tomarão isto na lógica do “é preciso que mude alguma coisa para que tudo fique na mesma”.

  9. ausência de comentários.enfiamos os barretes. incomoda-nos.
    Nunca pensei estar tão de acordo com o articulista,seguramente pela imagem que absorvi do mesmo,enquanto leader do BE!.enfio o barrete.

  10. entao e aquela estoria dos passivos de crédito e controlo da economia
    está à espera que o Draghi acabe de falar por acaso
    Olhe- que isso é falho

  11. O Sr. Ricardo Salgado, ao que parece, “trabalhou” bastante a favor dos acionistas do BES. Onde é que está o dinheiro que desapareceu?

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