Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

4 de Agosto de 2014, 12:45

Por

Outra vez as bombas de Israel contra escolas da ONU em Gaza

bernadotteO bombardeamento persistente de escolas da ONU em Gaza, pelo exército israelita, bem como de outros lugares de refúgio da população, não é um ocasional crime de guerra: é um padrão. Os comandos militares consideram que pode atacar qualquer alvo, em qualquer circunstância. Contei recentemente a história de uma conversa com o Embaixador de Israel, no seu gabinete em Lisboa, que me disse que estavam dispostos a executar extra-judicialmente qualquer líder palestiniano, em qualquer momento e em qualquer lugar do mundo. É um padrão.

Na verdade, esta lei de excepção pode atingir qualquer pessoa. A ONU deve recordar o assassinato de Folke Bernadotte, o diplomata sueco que fora indigitado pelo Conselho de Segurança para intermediário entre as duas partes da primeira guerra na Palestina (novembro 1947-maio 1948). Bernadotte era um negociador prestigiado, por ter conseguido a libertação de dezenas de milhares de pessoas dos campos nazis, incluindo, em abril de 1945, de centenas de judeus dinamarqueses presos em Theresienstadt. No exercício do mandato da ONU, apresentou propostas que procuravam aproximar os dois campos: uma União que representasse os dois povos ou dois Estados independentes, garantindo que Jerusalém tivesse o estatuto de cidade internacional aberta a todas as religiões.

Foi assassinado a 17 de setembro de 1948 pelo comando Lehi, por decisão de Yitzhak Shamir, que viria mais tarde a ser primeiro-ministro de Israel. A história é contada em todo o detalhe pelos historiadores, incluindo historiadores israelitas (ou, por exemplo, J. Bowyer Bell, 1996, Terror Out of Zion: The Fight for Israeli Independence, Transaction Publishers, pp. 336-340, ou aqui) e reconhecida pelos protagonistas.

Em nome de Israel, Shimon Peres pediu perdão em 1995 por este crime, numa sessão solene com a presença do primeiro-ministro da Suécia. Foi preciso que passassem 47 anos.

A ONU pode protestar. Pode denunciar o crime de guerra. Mas nunca pode dizer que não sabia.

Comentários

  1. Não ficará por aqui a “guerre sale” de Israel contra o povo palestiniano. O “colateral” é o alvo, a limpeza étnica o horizonte último. É hediondo.

  2. Não vou discutir os padrões que encontra na política militar e de defesa israelita.

    Apenas questiono a sua perspectiva e equanimidade diante de outros eventos militares.

    É que não o vejo comentar os bombardeamentos de alvos civis com origem em Gaza, seja pelo Hamas, seja pela Jihad Islâmica.

    Os bombardeamentos de alvos civis israelitas são alvos militares legítimos, na sua opinião?

    Alguma razão em especial para criticar os “padrões” militares israelitas e não os das organizações árabes?

    1. Desculpe intrometer-me na conversa “absurdos” mas o seu raciocínio parte de um vício argumentativo mais ou menos comum que é o de assentar a nossa argumentação num “nós e eles”/”bons e maus”. Isto é, “se ele protesta contra o genocídio em Gaza é porque defende os palestinianos e é contra os israelitas”. É uma argumentação simplória. O que está aqui em causa é o humanismo. Fazendo a analogia, seria igualmente condenável o assassinato de uma criança israelita pelo Hamas.

    2. Obrigado, Pastor da Alsácia, pelo seu comentário.

      Receio que tenha treslido o que escrevi.

      Não vejo o mundo a preto-e-branco, como quis ler do meu comentário.

      O que me intriga nalgumas pessoas, é a facilidade da eclosão de protestos quando existe movimentações militares israelitas e o silêncio quando se trata de movimentações contrárias.

      O bombardeio de Israel aumentou de frequência umas semanas antes da resposta militar israelita.

      Ouviu/leu algum protesto por aqui, Pastor da Alsácia?

      Não é razoável pensar porquê, o que motiva este padrão comportamental?

    3. Caro “absurdos” persiste no erro. Tente sistematizar o pensamento. Os padrões comportamentais refletem as nossas convicções políticas. Elas estão aqui presentes? Obviamente. Uns apoiarão, outros retorquirão como o “absurdos”. Mas o humanismo é um assunto maior, sabe? Quanto ao resto, recomendo reflexão sobre os factos históricos. Eu procuro fazer o mesmo. Sem dogmas.

    4. Pastor da Alsácia, o humanismo está fora das convicções políticas, é o que pretende dizer?

  3. Para um discurso no National Labor Committee for Palestine, New York, Abril de 1938, Albert Einstein escreveu:
    “A minha conceção da essência do judaísmo opõe-se à ideia de um Estado judaico, com fronteiras, um exército e uma qualquer forma de poder temporal, mesmo que limitado. Receio o desgaste interno que isso acarretará para o judaísmo – e sobretudo o crescimento de um nacionalismo estreito nas nossas próprias fileiras. […] Um regresso a uma nação, no sentido político do termo, equivale a afastarmo-nos da espiritualidade da nossa comunidade”

    1. Einstein foi convidado para ser o primeiro Presidente do Estado de Israel, e declinou. A sua posição sempre foi muito forte, como atesta a citação.

    2. A sua resposta levanta a questão de como deve ser lido: enquanto político ou académico?

      É que, como académico, teria necessariamente uma péssima nota.

      Não será má ideia ler um pouco mais, para poder ter uma ideia sobre Einstein e a evolução do seu pensamento sobre judaísmo, sionismo e Israel.

      Sim, porque, ao contrário de outros, Einstein permitia-se a evolução do seu pensamento sobre determinadas matérias, não cristalizando, subordinado a preconceitos ideológicos.

      A título de exemplo de pesquisa rápida:

      http://www.rense.com/general59/ein.htm

      http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Politics/einsteinlet.html

    3. Caro anónimo, não leve a mal que não comente a sua marceloribeirodesousice. É certo que Einstein evoluiu e nada do que eu escrevi o contraria. Aliás, os links que envia confirmam a citação do comentário anterior e, se possível, reforçam a evidência de como Einstein se distanciou do establishment sionista.

    4. Menachem Begin establishment em 1948?!

      Sério???

      ” I am deeply moved by the offer from our State of Israel [to serve as President], and at once saddened and ashamed that I cannot accept it. All my life I have dealt with objective matters, hence I lack both the natural aptitude and the experience to deal properly with people and to exercise official functions. For these reasons alone I should be unsuited to fulfill the duties of that high office, even if advancing age was not making increasing inroads on my strength.”

      Consegue ler aqui uma evidência do distanciamento do establishment sionista. Não vejo como.

    5. É. A citação é minha.

      A leitura “Aliás, os links que envia confirmam a citação do comentário anterior e, se possível, reforçam a evidência de como Einstein se distanciou do establishment sionista.” é sua.

      Como consegue ler isso é que me fascina, mas enfim. Todos nós temos constrangimentos ideológicos. Lamento que o seu, nesta matéria, tenha cristalizado tão fortemente.

      Uma boa tarde.

    6. Acusar o partido de Begin de “fascismo” é simplesmente uma leitura de Einstein e de outros, como Hannah Arendt, não é o meu “cristlizdo” constrangimento ideológico.

  4. Esta menina de 8 anos, ontem ou hoje assassinada, podia ser minha filha, podia ser filha do Professor, podia ser filha de qualquer um. Para muitos parece ser um “dano colateral”. Falta de humanismo. Era suposto estarmos num estágio de desenvolvimento civilizacional mais avançado que, a uma só voz, declarasse inaceitáveis estes ataques a Gaza, estes ignóbeis crimes. O mundo ocidental tem regredido. Algures no tempo perdeu-se a razão de existir. Não somos humanos. Somos uma cifra, uma rubrica. Um qualquer activo ou passivo financeiro.

  5. Existe uma total ausência de acções de política internacional por parte dos EUA (Obama, uma desilusão) e da Europa (conjunto de países outrora unidos e agora mergulhados na profunda escuridão) contra estes crimes de guerra. Também não tem havido reacções por parte dos partidos políticos em Portugal com uma (ainda assim pequena) ressalva para o BE.

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