Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

21 de Julho de 2014, 12:45

Por

O fiel do armazém e o guarda noturno

Das lonjuras da Coreia do Sul, o Presidente Cavaco Silva elogiou o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, pelo seu desempenho na crise do BES. É o que o Presidente tem a dizer sobre o assunto: está tudo bem entregue.

Estranha forma de vida, pois Costa evitou durante quase um ano qualquer consequência da informação que tinha em mãos: Queiroz Pereira dera-lhe um dossier escaldante sobre Ricardo Salgado e o contabilista da operação do Grupo no Luxemburgo prestara depoimento garantindo que desde 2008 as contas não batiam certo. Mais, há dois anos que se sabia da comissão angolana que Salgado se esqueceu de declarar no IRS (não era isso bastante para a ação da supervisão?). Foi preciso o colapso dos pagamentos e a zanga da família para que o Governador afastasse a administração e declarasse agora que nem renovaria a licença bancária a Salgado – pelos factos de que tem conhecimento há um ano.

Carlos Costa, escolhido para o Banco de Portugal por Sócrates, tem um passado ilustre na banca, que conhece como ninguém: foi diretor geral do BCP, responsável pela área internacional (2000-2004), precisamente quando se dançava o tango das offshores. Testemunha nesse processo judicial, Costa não respondeu ao Ministério Público quando lhe foi perguntado se não tinha sabido de nada ou se era como um fiel de armazém, que se limitava a assinar a encomenda. Agora, como guarda-noturno da banca, também não viu o crime e, quando ouviu o alarme, tardou em agir.

É essa forma de competência que merece o elogio de Cavaco Silva. O fiel de armazém e o guarda noturno fizeram o seu papel e por isso chegamos aqui onde estamos: a maior crise bancária europeia de 2014.

 

Comentários

  1. O que prevejo (um passarinho sussurrou me) com a liderança de José Honório e de Rato é que teremos um banco BQP ou melhor Banco Comercial de Lisboa.

  2. Dr Francisco Louçã: gostaria de o ouvir falar de algo que não economia. A sua experiência e vivência decerto será bastante enriquecedora para este blogue que é tudo menos economia.

    1. Não faltarão oportunidades: este blog é sobre tudo – tudomenoseconomia inclui economia, como se percebeu logo. Continuarei a escrever sobre livros e cultura e muitos outros temas e por aqui nos encontraremos…

  3. A forma como detentores de cargos públicos violam tão abertamente o seu dever é revoltante.
    A omissão, que se saiba, também é corrupção.
    A inação é conivência.
    Se sabia e não fez, é responsável.

    Mas Cavaco também nunca explicou bem aquilo das ações do SLN, e mantém-se no cargo.

    Temos uma justiça fraca, e temos um sistema que permite que os titulares ocupem os cargos até prova em contrário, quando deveria ser o oposto: que só poderiam ocupar o cargo quando não houvessem dúvidas. Todo o curriculum idóneo passaria à frente, e todos os cursos falsos e acções de amigos condenariam os políticos ao… desemprego.

    Já agora: podemos todos combinar que assim que a supervisão da banca passe para a Europa mandamos uma carta a exigir a investigação e responsabilização ao banco de Portugal? É que até hoje, o banco central mais generoso da europa ainda não apanhou sequer uma aldrabice antes do financial times, e portanto é quase de suspeitar que é muito pior do que incompetente: é conivente.

    O que não seria surpresa nenhuma.

    1. Inteiramente de acordo: se Portugal abdica da capacidade de supervisão bancária, a situação ainda fica pior. Uma coisa é termos o direito de substituir supervisores incompetentes ou coniventes, outra bem pior é não termos, como Estado, nenhhum poder para regular o sector mais poderosos da economia.

  4. Tudo isto é passado. Salgado, Cavaco, Barroso, Passos Coelho, Seguro e provavelmente até António Costa. Do presente precisamos urgentemente definir o futuro. E qual é a solução para esta “estranha forma de vida”? Respostas, daquelas a sério, exequíveis para começar, são necessárias. Por isso, por onde começamos?

    1. Boa pergunta, Pedro. Espero que ao longo do trabalho de argumentação e de conversa neste blog se possam ir estudando e explorando respostas consistentes.

Responder a Maria Almeida Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo