Viciados

É um livro, que acaba de sair, e foi já um grande artigo no The New York Times: Salt, Sugar, Fat: How the Food Giants Hooked Us é uma leitura recomendável, sobretudo numa altura em que se tem debatido tanto a questão da confiança que devemos ter (ou não) na indústria alimentar.

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O autor, Michael Moss, jornalista de investigação do The New York Times e vencedor de um Prémio Pulitzer, mergulhou a fundo no universo dos gigantes que fazem muita da nossa comida, e conseguiu acesso a documentos e fontes que geralmente estão longe do escrutínio público. E as notícias não são boas.

O princípio “quando tiverem dúvidas aumentem o açúcar” é seguido sem grandes estados de alma. Mas há limites para o açúcar que podemos, com prazer, ingerir. Por isso, a indústria põe especialistas a estudar, com o máximo rigor, o ponto exacto de açúcar que um produto deve ter para garantir que é um sucesso de vendas. O resultado é que, em snacks, refrigerantes e junk food de vários tipos, um americano médio consome por ano 31 quilos de açúcar e 15 quilos de queijo. A epidemia da obesidade tem uma explicação muito clara.

É certo que nada disto é totalmente novo, mas Moss descreve em pormenor as estratégias que vão fazer vender produtos e transformar os consumidores em viciados (aparentemente, a indústria não gosta da palavra). E cita especialistas segundo os quais os alimentos com elevados níveis de açúcar, sal e gordura são tão viciantes como os narcóticos. Outra conclusão a que Moss chega é que os grandes responsáveis das empresas que fazem a junk food que enche as prateleiras dos supermercados na América não comem os seus próprios produtos. “Conhecem-nos demasiado bem”.

O artigo do NYT começa, aliás, com um encontrou que reuniu várias empresas rivais, passando por exemplo pela Coca-Cola e a Mars. O objectivo era discutir como lidar com a epidemia de obesos que está a apavorar os Estados Unidos. Depois da apresentação inicial, o primeiro a falar foi o presidente da General Mills (que tinha lançado um novo iogurte Yoplait aumentando muito a quantidade de açúcar). “Não me falem em nutrição”, terá dito, segundo Moss. “Falem-me de sabor, e se isto sabe melhor não vale a pena tentarem-me convencer a vender coisas que não sabem bem.”

Li isto e lembrei-me de uma entrevista que fiz a uma médica americana especialista em obesidade e que falava também do vício que se instala em que desde bebé se habitua a beber bebidas açucaradas e que em adolescente bebe Coca-Coca ao acordar. “Estamos a falar de crianças com 150 ou 200 quilos, que tem 15 ou 16 anos. São os melhores anos das nossas vidas e eles vêem-se assim. Não há medicamentos, os que tínhamos estavam a provocar efeitos secundários, complicações cardíacas. O que é que eu tenho para lhes oferecer?”.   A luta é desigual.

(Texto publicado na revista 2 do PÚBLICO a 17 de Março de 2013)

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