Economia, política, literatura? Não. Comida.

O que é que estão dois intelectuais como o americano Adam Gopnik e o britânico Simon Schama a fazer na capa do suplemento Life & Arts do Financial Times? É simples: estão a falar sobre comida. Nada de grandes discussões sobre a origem da crise financeira, a incapacidade dos políticos, o impasse da Europa. Não. Simplesmente coisas como “a minha mãe odeia bróculos”, ou “também cozinhavas para impressionar as raparigas?” ou (um tema um pouco mais intelectual) a importância do jejum judaico antes do Yom Kippur (a refeição que junta os dois homens acontece precisamente antes de Schama iniciar o seu jejum).

Simon Schama

 Quase no final da conversa, Gopnik e Schama comparam a “revolução alimentar” na América, e toda a moda de comer produtos locais, com as mesmas tendências na Europa. Gopnik acha que há algo de “puritano” na forma como os americanos lidam com a ideia de comer melhor para viver melhor. E Schama lembra como a linguagem é sempre reveladora – os empregados dos restaurantes americanos têm, diz ele, o hábito de perguntar: “Are you still working on that?”, como se a refeição fosse uma missão que tem que se levar a bom termo. Schama confessa que tem sempre vontade de lhes responder: “No, I’m not working on this, I’m f***ing eating it!”.

Tudo isto vem a propósito do livro que Gopnik acaba de lançar nos EUA e no Reino Unido: “The Table Cames First”. Com o promissor sub-título “Family, France and the Meaning of Food”. E aqui se vê como a comida pode ser o princípio de todas as histórias. O que, aliás, já se percebia também no livro “Scrible, Scrible, Scrible – Writings on Ice Cream, Obama, Churchill and My Mother”, de Simon Schama, onde encontrei uma das melhores crónicas que li até hoje sobre comida. “Cool as Ice” foi publicado inicialmente na Vogue em 2007, e nele Schama descreve a sua relação com os gelados, desde o Ninety-Nine que o Mr. Whippy vendia à porta da escola primária no Verão de 56, até à sua própria experiência de fazer um gelado. E nessa meia dúzia de páginas parte da história do mundo parece atravessar o creme de vários gelados e revelar-se através deles. Não é fácil escrever assim.

A história do mundo num gelado?

Começa assim (desculpem não traduzir, mas não é fácil): “Summer 1956. Anthony Eden is dreaming dangerous Egyptian dreams which, in the following autumm, will send what little remains of the British Empire right up the creek (aka the Suez Canal). But we don’t know about that and, if we did, we wouldn’t care. It’s the last day of school. We’ve seen off the eleven-plus, and out there in pebbledash London, beyond the gritty little playground of our primary school, beyond the black spiked railings hung with tendrils of bindweed, there’s a siren chiming. Bing-bong, bingety bongety bong. Mr. Whippy is calling and we, short-trousered, snake-belted, grimy-kneed, snot-nosed, want what he’s got, We want a Ninety-Nine.”

 

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