Batatas fritas online

BatataNão era um pacote de batatas fritas qualquer. Aliás, quando o vi até pensei que fosse matéria de outro ramo alimentar. A enorme embalagem dizia “salgadas” e eu li “saladas”, confundindo o tubérculo em fatias com hortaliça pré-lavada.

E que embalagem aquela! Não resisti a medi-la: 50 centímetros de comprimento por 30 de largura. Como eram duas, somavam um metro linear de polipropileno – um extenso tributo ao plástico. E mais: dentro de cada mega-saco de batatas havia 12 saquinhos menores contendo resumidas porções do aperitivo, por vezes erroneamente chamado de alimento.

Não, minha mulher jamais teria comprado aquilo. Certamente era um engano, um erro qualquer do supermercado. “Acho que isto não é nosso”, disse ao funcionário que trouxe as compras e iniciei o processo de conferência do material entregue com o que tinha sido encomendado.

Fazer compras online tem dessas. Foi uma grande invenção, ainda que, a bem da verdade, ninguém tenha inventado nada. Antes, telefonava-se ao talho e um entregador aparecia mais tarde, de bicicleta, com os bifes para o jantar. Entre esta modalidade e o comércio electrónico, o que mudou foi apenas o meio e a escala.

No mundo científico, onde as coisas mundanas normalmente se complicam, há alguma discussão sobre a bondade carbónica das compras pela Internet. Um camião a fazer várias entregas seguidas emite menos CO2 do que vários automóveis em viagens dedicadas atrás dos mesmos produtos. Mas se a ida às compras com carro individual for integrada num percurso com outras finalidades, as contas podem verter para o sentido oposto. A solução motorizada menos onerosa, em termos de emissões de carbono, é ir e vir de autocarro. Mas, estando aqui em causa a atmosfera, convém estar atento aos riscos sudoríparos nas horas de ponta.

A verdade é que um engano – do cliente ou do entregador – facilmente aniquila qualquer suposto benefício para o planeta. É mais uma viagem que se faz para buscar ou devolver o produto. E não é situação rara, sobretudo se levarmos em conta que a redução de qualquer objecto ou ser a uma imagem num ecrã de computador convida às mais embaraçosas confusões.

Foi por isso que, certo dia, aquilo que na Internet parecia ser uma latinha de chocolate em pó para bolos revelou-se antes um bloco compacto de cacau puro, da cor do carvão e dureza diamantina, que agora usamos como martelo. Ou a massa chinesa estaladiça para toda a família que afinal era uma micro-dose individual pré-cozida, ideal para estômagos modestos – equívoco que ia provocando uma revolta ucraniana na fracção adolescente da família. Também houve o caso da manteiga gigante, em embalagem tamanho bovino, que no catálogo online parecia normalíssima.

O saco de batatas fritas foi protagonista da mesma ordem de desacerto. Tinha mesmo sido encomendado, o entregador tinha razão. A ideia era comprar dois pacotinhos mas a foto era enganadora e chegaram 24. Não foram devolvidos, para bem da temperatura global. Agora, o coração que aguente.

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