Saco cheio

Bastaram dois dias depois de voltar de férias para ficar de saco cheio. Não, não é isto que vocês estão a pensar. Não se trata da lamúria recorrente pós-descanso estival, aquela que nos leva a franzir a testa e adotar um ar simulado de desalento quando dizemos que já regressámos ao trabalho. É curioso aliás que, a despeito da sua teatralidade, tal impostura seja socialmente aceite e até apreciada, usualmente através daquele gracejo anual entre duas pessoas que se reencontram:

– Então, como foram estas férias? – pergunta um.

– Boas, mas curtas – responde o outro, convicto da sua putativa originalidade, apesar de estar a dizer a mesma coisa pela n-ésima vez, sendo “n” o número de anos decorridos desde que o indivíduo estreou-se no mercado laboral.

Não é esta a única patologia do retorno à labuta. Há aqueles que ficam tão convencidos de que é no ambiente de praia que está a felicidade eterna, que se rebelam loucamente e decidem andar para sempre de bermudas e chinelos, pelo menos até perceberem, logo no dia inaugural do trabalho, que o patrão nunca anda de bermudas e chinelos.A nova indumentária, assim, só resiste à primeira ida ao supermercado – também sintomática de moléstias da época, pois, apesar da identificação da simplicidade litoral com o Éden, ninguém resiste a correr para as compras logo que volta para casa. E eis que o peixinho grelhado, a fruta e a cerveja – antes o trinómio básico do contentamento – dão lugar a carrinhos atulhados de latas de conserva, caixas de cereais, boiões de iogurte, sacos de batata frita, pacotes de bolachas, vidros de maionese, potes de geleia, garrafas de água, saquinhos de chá, caixinhas com tomates, travessinhas com cogumelos, redinhas com laranjas, tubos de cremes, embalagens de champôs, rolos de papel e uma infinidade de outros elementos agora sim indispensáveis, todos devidamente acondicionados nos seus invólucros.

Ei-lo…

Pois foi isso tudo – as latas, as caixas, os boiões, os sacos, os pacotes, os vidros, os potes, as garrafas, os saquinhos, as caixinhas, as travessinhas, as redinhas, os tubos, as embalagens, os rolos – o que me encheu o saco.Literalmente, tudo isso encheu, em apenas dois dias, o saco da reciclagem lá de casa.

Tenho de admitir que eu próprio facilitei as coisas. Há uns anos, adquirimos três recipientes próprios para a separação de materiais recicláveis. São grandes, quadrados e dão um certo colorido à cozinha, onde repousam, simetricamente empilhados, ao lado do frigorífico. Achei que estava a fazer um bem à humanidade, além de engordar a carteira do fabricante do produto, que custou uma pequena fortuna para aquilo o que é: um bocado de plástico.

…e o seu conteúdo.

Mas, enfim, naquela altura em que as vacas, embora magras, ainda não estavam esqueléticas, o espírito de missão sobrepôs-se às considerações fiduciárias. E a família, em uníssono ecológico, passou a contribuir de modo mais organizado para este desígnio nacional a que se chama reciclagem.Logo vieram, porém, os problemas. Um deles é o peso dos recipientes, quando estão cheios. Só em duplas é que se consegue carregar a caixa azul, dos papéis, e sobretudo a verde, das garrafas – neste último caso, com uma agravante de consciência quando se faz a conta mental daquilo que foi ingerido.

O contentor amarelo enferma de outro dilema. Para conter lixiviações – o óleo da lata de atum, o resto do boião de iogurte, as sobras do vidro maionese – é preciso forrá-lo, o que só se consegue com sacos plásticos pretos de 100 litros, cuja utilização única anula provavelmente o efeito da reciclagem do que vai lá dentro.

Foi por isso que, com o saco cheio no regresso das férias, senti-me vencido. O melhor seria simplesmente evitar enchê-lo, comprando produtos menos embalados. Mas não foi desta ainda.

4 comentários a Saco cheio

  1. Apesar de ser chato, é suposto passar as embalagens por água antes de as enviar para a reciclagem a fim de evitar gorduras, etc.. Assim, já não necessita do saco preto de 100ml ;)

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  2. Na minha opinião, mais que reciclar, hoje em dia o importante o grande desafio é reduzir a quantidade infinita de embalagens e plásticos. Porque é bem verdade que o saco se enche rápidamente.

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  3. Está certo o articulista, ainda que errado por apenas suspeitar do óbvio: a reciclagem é um conforto moral, o certo era evitar-se produtos embalados. Em minha casa também lido com o problema – talvez menos grave porque tenho terreno para depositar os os restos dos produtos frescos. Periodicamente lá vou eu carregado com um saco de 120l, a abarrotar, para tentar introduzir no recipiente amarelo do ecoponto, habitualmente cheio. Vistas bem as coisas o problema da reciclagem são os plásticos: quase nada se compra sem trazer plástico, muitas vezes de maior valor do que o produto que se pretende utilizar. Defendo que é no plástico que devemos centrar as nossas atenções no combate ao desperdício.

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