Escrever de longe e ilustrar de perto, em português

O pretexto foi o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se assinalou a 5 de Maio. Mas o resultado pode desfrutar-se em qualquer data ou continente.

Um conjunto de 16 histórias contadas por oito autoras de diferentes nacionalidades, mas tendo em comum a língua portuguesa. Aqui se exploram expressões que se equivalem, mas que são ditas de outro modo em função da origem de quem as profere. É o caso, por exemplo, de “quem canta seu mal espanta” (Portugal) / “Cantar é deitar o coração para longe” (São Tomé e Príncipe).

As autoras são Angelina Neves (Moçambique), Céu Lopes (Timor), Lurdes Breda (Portugal), Maria Celestina Fernandes (Angola), Mariana Ianelli (Brasil), Natacha Magalhães (Cabo Verde), Olinda Beja (São Tomé e Príncipe) e Kátia Casimiro (Guiné-Bissau). Quem ilustrou toda esta diversidade de ambientes foi Tânia Clímaco, professora de Expressão Artística e Educação pela Arte, mas também promotora de ateliers de desenho, pintura e cenografia.

Para Tânia Clímaco, este “é um livro maternal, que abriga o respeito pelos mais velhos e pretende manter viva a riqueza do importante legado colectivo de cada país participante”. Como o livro irá viajar para vários países, “é pensado para crianças do mundo inteiro. É um ‘livro partilha’, as histórias são subordinadas a expressões idiomáticas e expressões populares com origem nos países aqui representados”, descreve por email.

Ilustração para texto de Kátia Casimiro (Guiné-Bissau)
A  ilustradora conta como ao enviar à editora, moçambicana, uma primeira ilustração, recebeu como resposta: “Está muito europeu. Os meninos desse país não se vão identificar.” Naquele momento teve a noção de que tinha de se transportar até cada um daqueles países. “Fiz pesquisa exaustiva e isso proporcionou-me uma viagem incrível por cada país. Tive pessoas a partilharem fotografias pessoais, vídeos, histórias das histórias do livro…”

Tânia Clímaco sente que este livro trouxe mais maturidade ao seu trabalho, assim como a noção de responsabilidade quando ilustra. “Antes deste projecto, não tinha pensado que uma coisa tão simples como o padrão da roupa é um detalhe tão importante”, admite.

Também as suas memórias constam do relato que fez ao PÚBLICO: “Além da questão cultural, este é um livro que quer preservar memórias e, quando ilustrava, veio-me à memória uma recordação de infância. Quando era menina, o meu avô contou-me muitas histórias e dizia-me sempre que tinha pena que não fossem gravadas, guardadas essas histórias. Hoje tenho eu pena que elas não tenham sido guardadas. A preservação da memória é muito importante, conta a nossa história dá-nos colo em pequenos e sobretudo em adultos e ensina-nos tanto!”

No final do livro, há um pequeno glossário que ajuda a descodificar palavras e expressões de cada país. Saberá o leitor o que é zungar (Angola), tocaia (Brasil), txota (Cabo Verde), ulilé (Guiné Bissau), milando (Moçambique), peliça (Portugal), mina muê (São Tomé e Príncipe) e lulik (Timor-Leste)? Está lá tudo bem explicado, no capítulo “Trocando por miúdos”.

Contar Histórias com a Avó ao Colo tem como patrocinadores Camões – Centro Cultural Português em Maputo (para a edição em formato digital) e a Rede de Bibliotecas Escolares (para a edição impressa). Pode ser adquirido em Lisboa na livraria Snob e ser lido gratuitamente online em qualquer lugar.

Contar Histórias com a Avó ao Colo
Texto: várias autoras de diferentes países de língua portuguesa
Ilustração: Tânia Clímaco
Coordenação: Teresa Noronha
Edição: Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa

Texto divulgadona edição do Público de 15 de Maio de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques Sílvia Pereira. Viva a língua portuguesa!

Livros a Oeste no ecrã e fora dele

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                                              Foto de Mareena Metsmaa/Unsplash

Arrancou nesta terça-feira, 11 de Maio, mais uma edição do festival literário Livros a Oeste. Até aqui, assistia-se só na Lourinhã; agora, chega a qualquer lugar.

Depois de uma interrupção no ano passado, a 9.ª edição do Livros a Oeste começou nesta terça-feira, sob o mote “O Reencontro”. Sessões no ecrã e fora dele preenchem cinco dias que procuram dar resposta à pergunta: “Quantas histórias cabem numa história?”

Num total de perto de 40 autores, encontramos nomes como Adolfo Luxúria Canibal, Afonso Cruz, Amosse Mucavele, Manuel Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo M. Tavares, Isabel Zambujal, José Luís Peixoto, Mário Zambujal, Miguel Real, Ondjaki, Patrícia Portela, Rachel Caiano, Rui Zink e Sérgio Godinho, entre outros. Irão celebrar a escrita, os livros, a leitura e os leitores, havendo lugar ainda para a música, o teatro e a performance.

Por isso, há Histórias Musicadas, Histórias Partilhadas, Histórias ao Postigo, Histórias Ilustradas e até uma História de Vida, em homenagem a Isabel Mateus, fundadora do Museu da Lourinhã, que morreu recentemente.

Cartaz

Aposta no público jovem

“Se a transmissão online de várias destas sessões não permite absorver toda a energia que sentimos quando assistimos presencialmente a uma conversa ou uma actuação, por outro lado, a utilização do digital permite-nos ampliar o leque de convidados (contornando a distância geográfica) e criar novos formatos, tornando o próprio meio de transmissão e as suas possibilidades técnicas um aliado”, diz o jornalista João Morales, programador do festival, organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã desde 2012.

Para ler o texto na íntegra, é este o caminho.

A alegria e o encanto do quotidiano

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Levar a filha à escola num dia banal pode transformar-se num momento inesquecível. “Porque todos os dias deveriam ser especiais”, diz Pedro Seromenho.

“Nesta história, não há reino fantástico nem floresta mágica!”, diz o autor, Pedro Seromenho, ao PÚBLICO. “Não. Aqui, tudo se passa em casa, onde o encanto, a surpresa e a felicidade deveriam morar em cada (re)canto do quarto ou da sala”, acrescenta.

Escrito durante o período de confinamento, em que vimos a liberdade ser-nos temporariamente retirada e “passámos a viver a nossa família de um modo imprevisto e intenso, que nos obrigou a inúmeras mudanças e a sucessivas adaptações”, lembra o também organizador do Braga em Risco – Encontro de Ilustração.

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A pergunta há-de repetir-se ao longo de toda a história: “As rimas incómodas e a pergunta persistente são propositadamente repetidas: — Mia, o que tens na mão?! Poderá ser imediatamente notado e até sobejamente criticado, mas ninguém ficará indiferente. Sabia o risco que corria e fá-lo-ia de novo. De forma exagerada.
Porque, com imaginação, tudo pode caber numa mão: um sorriso, um carinho ou um segredo. Numa casa onde mora o amor, não há esconderijo para o medo.”

Diz que o livro “é um acto de amor e cumplicidade entre um pai e uma filha”. E descreve-o como “uma espécie de jogo de relaxamento, uma brincadeira criativa com o que de mais vulgar a vida tem: o nosso quotidiano”.

De modo bem-disposto e poético, vai contando as conversas de um dia banal: “Não há momentos sublimes, nem tragédias gregas com actos heróicos. Trata-se apenas de mais um dia normal em que saímos de casa, para levar a nossa filha até à escola. Podia ser aborrecido, mas não é.”

O escritor e ilustrador defende: “Todos os dias deveriam ser especiais e todos os pais deveriam ter mais tempo para brincar com os seus filhos. Desta forma, as tarefas mais básicas do dia-a-dia tornar-se-iam momentos inesquecíveis!

Conta ainda. “Como a narrativa se tratava de um diálogo entre nós, resolvi desafiar a minha filha a conversar comigo através da inocência pueril dos seus desenhos. Foi também a melhor forma de desconstruir os meus.” E lembrou-se de Picasso, “para quem a arte de uma criança é suprema e prevalece a tudo o resto”.

Para as ilustrações, usou grafite, lápis de cor, aguarelas e marcadores de pigmentos. Explica também como as guardas do livro (folhas que resguardam o princípio e o fim de uma obra encadernada) fazem parte da história: “Na inicial, estou com a Mia a decidir o que desenhar e o lápis rosa indica ao leitor que será a sua cor. Tudo o que estiver a rosa será da sua autoria. Nas guardas finais, como a Mia é mais jovem e mais enérgica, continua a desfrutar da cor e da liberdade, mesmo depois de o seu pai já ter desmaiado no meio do caos e da balbúrdia!”

As imagens exprimem movimento, alegria e serenidade, mergulhando o leitor na atmosfera fantástica que o autor diz não existir… no livro.

Pedro Seromenho, editor da Paleta de Letras, é presença habitual nas escolas enquanto promotor de leitura. Pretende agora trabalhar e explorar a ideia do livro “com os pequenos através de objectos escondidos nas mãos”. Certamente, irá resultar.

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texto: Pedro Seromenho
ilustração: Pedro Seromenho e Mia Flor Rocha
edição: Porto Editora
32 págs., 10,90€

Texto divulgado na edição do Público de 8 de Maio de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. Uma alegria!

A liberdade das férias grandes

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Há uma altura do ano em que tudo cresce: os dias, as horas, a erva, a sombra. E a liberdade. Disso nos fala Tudo tão Grande, do Planeta Tangerina.

A alegria de ver o tempo a passar e os pés dos filhos a crescer pode muito bem ser transformada num poema, que talvez venha a ser cantado. Pelo menos assim o deseja a autora, Isabel Minhós Martins, que assina o texto de Tudo tão Grande – Canção cada vez maior.

A editora e fundadora do Planeta Tangerina reconstitui ao PÚBLICO a origem deste livro: “Escrevi-o o ano passado, no final da Primavera/ início do Verão, quando a pandemia estava a abrandar e tínhamos um Verão pela frente. Parecia que tudo tinha passado e acho que fui movida por essa alegria: a de que o tempo passa (e nem sempre é mau), os miúdos crescem e nessa altura específica do ano parece que tudo cresce com eles: os dias, as horas, a erva, a sombra.”

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Do livro: “O dia grande/ A lua cheia// A maré alta/ a noite inteira.”

Fazendo mais um esforço de memória, acrescenta: “Começou com a ideia de dois pés descalços, fora dos sapatos, à sombra de uma árvore. E a constatação de que esses pés eram já bem maiores do que no ano anterior. (Estou naquela fase em que fico boquiaberta com o tamanho dos pés dos meus filhos! Deve ser isso.)”
Do livro: “O universo expande/ O ovo estala// O miúdo estica/ Rebenta a escala.”

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Isabel Minhós Martins diz que este texto é a sua “homenagem às férias grandes, a esse parêntesis onde o tempo se alarga e em que uma hora equivale a uma semana e uma semana pode equivaler a um ano, em termos de vivências e crescimento”.

Considera esse “tempo precioso, muito livre, em que temos mais oportunidades de estar mais próximos dos outros e também mais próximos da natureza”. Para concluir: “Nesse contacto, como quem vai atrás desse movimento muito livre, acontece muitas vezes crescermos imenso!”
Do livro: “As férias grandes/ O mergulho fundo// O ar tão livre dá a volta ao mundo.”

Sentir-se pequenino em espaços gigantes

Também o ilustrador, Bernardo P. Carvalho, explorou as dimensões, as proporções e o crescimento. “Adoro paisagens e espaços abertos, sentir-me pequenino em sítios gigantes que nos esmagam. Acho que este poema também é sobre o crescimento, o que vamos absorvendo, sejam palavras, livros ou paisagens incríveis, que nos fazem maiores, cada vez maiores”, disse ao PÚBLICO.

O vencedor do Prémio Nacional de Ilustração no ano passado, com Hei Big Bang! (Ninguém Disse Que Era Fácil), contou ainda que “não foi muito fácil encontrar o caminho que queria” para este Tudo tão Grande: “Para já, este poema é mesmo bonito e não o queria assassinar… com os meus desenhos e, depois, durante o processo ia falando com a Isabel e discutimos outros caminhos, que às vezes parecem uma boa ideia, mas depois não resultam muito bem e não vão dar a lado nenhum de especial, o que pode ser um bocadinho angustiante.” Mas chegaram a um resultado feliz, como sempre.

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Sobre a técnica, quando lhe perguntamos se o registo de manchas-paisagens é para ficar, descreve: “Comecei por fazer colagens, que depois se tornaram colagens digitais, papéis pintados, digitalizados e compostos no computador. Este registo é como todos os outros, uma fase do nosso trabalho que passa muito por isto: experimentar desenhar com outros meios.”

Na contracapa, sugere-se: “Inventa uma música para cantares este livro.” E convida-se os leitores a enviar as canções para a editora. Até agora, ainda não chegaram. Talvez nas férias grandes.

Texto divulgado na edição do Público de 24 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. Em total liberdade.

A feliz possibilidade de contrariar o destino

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O futuro a nós pertence. A atitude pessoal e o acaso disputam um jogo em que a vitória não está prometida. As personagens de O Retrato mostram-no. “É preciso brigar pela vida”, diz o autor, Clovis Levi.

O livro O Retrato (Aquilo Que Não se Vê)​ parte de uma foto que capta quatro crianças, um bebé, uma cadela e uma “pipa” — em português de Portugal, um papagaio de papel. Esclareçamos já que o autor do texto, Clovis Levi, é brasileiro, carioca, mas também tem nacionalidade portuguesa.

A descrição das características e temperamento de cada retratado conquistam imediatamente o leitor. Sem muita conversa… ficamos a conhecê-los no essencial: o inventor, a mandona, o leitor, a descabelada. Mais a cadela grávida e o bebé emprestado (só para compor a foto). E, claro, o papagaio de papel, que anseia por liberdade.

Será este que nos irá desvendar as misérias e sonhos de cada personagem. Será também o papagaio de papel que nos dará a conhecer o destino de cada uma delas e de si próprio. Aliás, dois destinos para cada. E não os únicos. Já que, como se diz no livro, “a vida tem muitas possibilidades”.

Um novo retrato, dez anos depois, traz-nos ausências, por fuga ou morte, e outras crianças, filhos. Mas haverá ainda um terceiro desfecho ou retrato possível.

Genilda vai para a capital e não tem filhos? Engravida logo aos 13 anos ou vai para os Estados Unidos?

Luan inventa uma máquina gigante para regar o Nordeste? Conserta brinquedos no quintal da sua casa? Ou continua a trabalhar na roça?

Uélinton torna-se escritor e cria uma biblioteca na escola? Trabalha numa fazenda e não lê um livro desde os 12 anos? Ou, aos 20, está a terminar o seu segundo romance de terror?

Chakira consegue ser “médica de todos os bichinhos” num zoo? Tem de cuidar de humanos numa enfermaria ou estuda Teatro no Rio de Janeiro?

Gugu morre aos 11 anos? Ou sobrevive e, aos dez, é considerado músico prodígio, mas a querer ser jogador de futebol?

E a cadela Jupira, que sonhava com sombra, alimento e água? Desaparece ou chega a ter cinco cachorrinhos, que ainda vagabundeiam pelo povoado?

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E o papagaio de papel (“pipa”)? Continuará a ser guiado pela mão de Uélinton? Será libertado pelo seu amor, o vento? Ou vai deixar-se apanhar pela tempestade, rasgar o celofane e morrer, perdendo o voo e a liberdade?

A origem condiciona mas não determina

Tudo isto nos é contado e perguntado cruamente. Se é sabido que os grandes escritores não fazem cerimónia com as palavras, Clovis Levis não faz cerimónia com nada nem coisa nenhuma.

Mostra a pobreza, o desgosto, a morte, o abandono, a sexualidade, a injustiça, sem infantilizar o leitor, mesmo sabendo que pode ser criança ou jovem. O mesmo para a alegria, a festa, a reconciliação com a vida. Escreve com honestidade.

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Sem ignorar que a geografia física e social das nossas origens condiciona o futuro de cada um de nós, lembra e reforça que esta não o determina. Daí os vários percursos possíveis das personagens. Em suma, o exercício do livre-arbítrio.

Tudo isto torna O Retrato um livro comovente e esperançoso. O texto teve uma primeira edição brasileira, da Abacatte, em que as ilustrações de Lelis ampliam o sentido do que é dito e reforçam a atmosfera sombria e triste, numa expressão plástica quente e envolvente.

Perante a edição portuguesa, com ilustrações de Ana Biscaia, espera-se mais um êxito desta dupla, depois da colectânea de contos A Cadeira Que Queria Ser Sofá (Prémio Nacional de Ilustração 2012).

A linguagem verbal de um e a visual de outra interagem de uma forma muito eficaz. O aspecto é o de um storyboard que podia destinar-se a um livro de banda desenhada ou a um guião para cinema.

E as ilustrações de Ana Biscaia, que gosta de usar grafite e tirar partido da sujidade que produz, sem elementos bonitinhos e assépticos, adequam-se à verdade das palavras de Clovis Levi. É por isso que, juntos, conseguem tão bem pôr à vista aquilo que não se vê.

“Em vez de ter sido assim, poderia ter sido assado”

O livro, que tem formato A3 (uma inovação da Xerefé, que até agora se dizia “uma pequena editora de livros pequeninos ilustrados”) e em que o texto surge manuscrito (também desenhado), foi apresentado a 5 de Março, em videoconferência, numa iniciativa do Centro Cultural Penedo da Saudade, do Instituto Politécnico de Coimbra, e em que o PÚBLICO teve uma breve participação no final.

Nessa altura, Clovis Levi contou que a história resultou do conhecimento que teve de uma visita oficial de Lula e do seu então ministro da Educação, Cristovam Buarque, ao Nordeste brasileiro, Sertão. Quatro crianças foram escolhidas e fotografadas para simbolizar aquele projecto de melhoria de vida. A expectativa era a de que muitas crianças tivessem agora a perspectiva de um futuro melhor. Mas… as políticas e os seus actores mudaram entretanto.

Cristovam Buarque há-de voltar ao local para saber do percurso dessas (já não) crianças. Os sonhos daquele primeiro encontro não se traduziram numa realidade feliz, pois esta manteve-se dura.

Este foi o ponto de partida de Clovis para escrever sobre os sonhos e as oportunidades que a vida nos dá. Por isso, diz: “A gente não pode aceitar o destino como uma coisa fechada. Temos possibilidades de mexer no nosso destino. A vida tem muitas possibilidades.

No entanto, não ignora que, “ao mesmo tempo, há casos em que não podemos interferir, coisas que acontecem e que não estão no nosso domínio”. Mas incita os jovens a perseverar: “É preciso brigar pela vida e pelos sonhos.”

O livro tem, portanto, várias partes, como explica o autor: “Primeira parte: os sonhos dessas crianças vão-se confrontando com a realidade miserável que elas estão vivendo. Segunda parte: dez anos depois, mostra-se o que aconteceu. E depois a gente fala: ‘Mas poderia ter sido diferente.’”

E surge outra parte ainda: “Em vez de ter sido assim, poderia ter sido assado. E aí a gente mostra como foi o assado… a gente mostra como as possibilidades são inúmeras e como cada leitor vai ter a oportunidade de propor um final para aquelas personagens.” E também para si próprio.

O Retrato (Aquilo Que Não se Vê)
Texto: Clovis Levi
Ilustração: Ana Biscaia
Edição: Xerefé Edições
45 págs., 20€

Texto divulgado na edição do Público de 17 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre MarquesSílvia Pereira. E é aquilo que se vê…

O ovo, o ninho e o voo. Depois, as nuvens

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Criado para a primeira infância, Aves — Trilogia para Bebés é uma viagem em três actos, com sons lá dentro. Palavras, música, palmas e duas línguas destravadas.

Um CD que começou por ser um espectáculo e que se apresenta como “um objecto sonoro para partilhar no casulo familiar”, brincando “com a sonoplastia e com as palavras para embalar a imaginação dos bebés e famílias”. Na certeza de que “tudo se inicia no ovo”.

São palavras de Dulce Moreira e Mariana Santos ao PÚBLICO, enquanto criadoras do projecto O Som do Algodão. E têm mais para dizer, quando se lhes pergunta porquê a escolha de aves: “Aves porque é um espaço de liberdade. A ideia de que tudo se inicia no ovo, no casulo primordial. Do ninho-casa e dos afectos que moldam os nossos sonhos e nos permitem ganhar asas para voar. Para nos reencontrarmos nesse espaço de liberdade, porque ‘sonhar é bom, é como voar suspensa por balões’, como escreveu Clarice Lispector.”

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Quando se passa para a segunda faixa, O ninho, é-se levado para a história do Urso Gaspar, da autoria de Inês Montalvão. Antes, já se experimentou a descoberta do ovo, “que é um bicho estranho”. E deparamo-nos com “essa estranheza de acontecer, de existir”.

O ninho somos nós que o fazemos

Gaspar “reúne os seus afectos, as suas conquistas e percebe que o ninho somos nós que o fazemos”. Mais: “O ninho é o lugar que escolhemos como nosso. Seja ele onde for.”

Depois, chega o momento de voar, a última parte da trilogia: “Uma viagem sonora e poética através do sonho, do desejo de voar, de subir no alto como um balão vermelho. De habitar ar. É a história de um apenas menino que ‘amou sempre a terra, viveu sobre as árvores e subiu para o céu’, nas palavras de Italo Calvino”, evocam as autoras.

Sobre a adesão das famílias ao espectáculo, recordam que a trilogia Aves teve a sua estreia no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, Porto, em 2017. Desde então “passou por palcos de todo o país, reunindo centenas de famílias”. Esteve no Teatro Municipal Constantino Nery (Matosinhos), na Reitoria da Universidade do Porto, no Festival i (Águeda) no Geão Mini Fest (Santo Tirso), no Festival Imaginário (Sintra) e em auditórios e bibliotecas na Guarda, Sever do Vouga, Albufeira, Macedo de Cavaleiros e Vila Nova de Cerveira. E passou ainda “por dezenas de instituições do ensino pré-escolar um pouco por todo o país”.

Internacionalmente, esteve “em destaque na edição de 2019 do Kolibrí Festivaali, em Helsínquia, um festival que celebra a multiculturalidade na Finlândia”. O trabalho foi apresentado a famílias em língua portuguesa. “Uma experiência que veio provar que a palavra existe para lá das fronteiras linguísticas e que nos permitiu partilhar o nosso trabalho artístico focado na primeira infância com famílias de portugueses, brasileiros, espanhóis, chilenos, argentinos ou finlandeses.”

Agora, O Som do Algodão alimenta o desejo de regressar aos espectáculos ao vivo o mais brevemente possível. “No imediato, o projecto mais próximo passa pela digressão que iremos realizar nos Açores com o apoio da Fundação GDA [Gestão dos Direitos dos Artistas]. Iremos levar até às ilhas do grupo central a estreia da nova trilogia para bebés – Cumulus –, cuja criação contou com o apoio do Fundo de Fomento Cultural do Ministério da Cultura”, descrevem.

Cumulus são nuvens. Dulce Moreira e Mariana Santos explicam a nova viagem sonora, visual, sensorial e performativa: “Começamos no ar, como que resgatando o voo final da trilogia Aves, com o desejo de regressar à terra. De nos voltarmos a mover com os pés no chão. Do ar passamos à terra. À cor, ao calor, ao toque e à pele. Para nos reconectarmos. Em família.”

Mais um momento (e espaço) para partilhar a liberdade e as emoções com as famílias e os bebés. Com música embrulhada.

Texto divulgado na edição do Público de 10 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.
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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. Altos voos…

Anda por aí um elefante a dar gelados às crianças

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Os autores não puseram o animal na tradicional loja de porcelanas, mas a passear pela cidade. E a distribuir gelados aqui e ali, onde houver crianças.

Estava um elefante tranquilo na sua vida estável, monótona e previsível que o jardim zoológico lhe facultava, quando um pequeno rapaz o desafiou a abandonar toda aquela paz e sossego.

Não foi muito difícil convencê-lo, já que a sua natureza rebelde ansiava em silêncio por uma oportunidade de se fazer ao mundo. A primeira paragem foi logo ali, no primeiro restaurante que avistou. “Pediu um bife com batatas fritas. Depois sentou-se à mesa e comeu tudo. E de sobremesa? Oh, comeu logo os pratos e os talheres.” Ainda houve tempo para outros estragos… entre muita água bebida, café, chávenas e pires ingeridos.

Certo é que, depois de algum receio dos pequenos (“as crianças começaram a ficar inquietas, porque não sabiam para onde voava o avião”) e do desejo de abraçarem os pais (“agarraram-se ao elefante mas não era a mesma coisa”), houve festa na cidade. Noutra.

Prevê-se que o futuro da chancela seja radioso e que passe por despertar nos jovens leitores a vontade de ver as outras cores que o mundo contém e que só os olhares mais atentos conseguem vislumbrar, como a cor de burro quando foge”, dizem-nos da editora, informando ainda que “o nome resultou de um divertido diálogo com a ilustradora”, Christina Casnellie.

O autor do livro é também o editor da chancela, assina com o pseudónimo Manuel Palaio, é natural de Ferreira do Zêzere, “sempre admirou a sabedoria das crianças e inspirou-se nelas para criar este livro”.

Christina Casnellie é ilustradora e designer gráfica. Trabalha em publicidade, impressão tipográfica, serigrafia, design de produto e design editorial. Na sua página, diz: “Fico entusiasmada com qualquer tipo de projecto em que possa sujar as mãos.” Na cidade ou não.

Um Elefante na Cidade
Texto: Manuel Palaio
Ilustração: Christina Casnellie
Edição: Cor de Burro Quando Foge
48 págs., 14€

Texto divulgado na edição do Público de 3 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira, que andam sempre à procura de actividades para a família. Ainda bem.

Monstros simpáticos que gostam de livros e de papas de aveia

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Uma história escrita para uma criança ainda por nascer conquistou o maior prémio de literatura infantil do país.

Monstros minúsculos vivem numa aldeia instalada nas molas do colchão de Olívia, mas o autor faz imediatamente saber que não é caso único: “Acontece em praticamente todas as casas, nas molas dos colchões daqueles que mais gostam de ler. Porque os monstros — e isso é que quase ninguém sabe — têm o vício das histórias.”

António Pedro Martins atribui-lhes nomes divertidos, Papa-Livros, Tira-Linhas, Tira-Teimas, Meia-Leca, Enche-a-Pança, Troca-Tintas, e características humanas, entre elas, a curiosidade. Por isso, ao descobrirem um livro de receitas, vão explorar os seus dotes culinários, enquanto toda a gente dorme.

Esta foi a história vencedora da 7.ª edição do Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce (em 2020), que vale 25 mil euros a quem a escreve. O autor, na altura da atribuição do prémio, explicou o que queria defender: “A importância de ler e aprender com o que os livros têm para nos ensinar, e a ideia de que não podemos dizer que não gostamos das coisas sem as conhecer.” Quando tinha acabado de saber que iria ser pai, esforçou-se por escrever algo para a filha por nascer, Olívia.

Querer ser publicado

Os outros 25 mil euros ficam para o ilustrador que se revelar com mais talento para transfigurar o texto em narrativa visual. No caso, foi Duarte Carolino, com quem o PÚBLICO falou por estes dias, nas vésperas de se encerrar a candidatura para a 8.ª edição (2 de Abril).

Diz-nos ainda que a motivação principal para concorrer foi “tentar ser publicado”, sem deixar de acrescentar: “Claro que o valor em causa é uma motivação extra.” No entanto, desculpando-se pelo cliché, “estava longe de pensar que ia ganhar”. Mas ganhou. E ainda bem. As figuras simpáticas que desenhou, não só enriquecem o texto, como lhe conferem mais humor e até serenidade para as crianças mais medrosas. Consegue transformar monstros em seres afáveis e bem-dispostos. Amigos com quem nos apetece tomar o pequeno-almoço.

A nosso pedido, descreve o processo de trabalho: “Comecei no papel, com muitos esboços, depois passei para o computador, onde incorporei texturas que produzi manualmente.”

As seis ilustrações apresentadas a concurso (que correspondem a seis planos, páginas duplas) foram uma amostra feliz e representativa, não só do registo escolhido, como da atmosfera pretendida, da diversidade de elementos, escalas, perspectivas e cores.

Tornar contemporânea a arte popular

Duarte Carolino, que foi tomando em consideração a opinião da filha de oito anos à medida que criava as novas ilustrações, diz que “genericamente ficou satisfeito com o produto final”: “Depois de saber que tinha ganho, o processo é muito rápido, os prazos para finalizar as restantes ilustrações são apertados (bem mais curtos do que num livro de ilustração editado de forma convencional) por isso era difícil fazer melhor.

Para chegar à estética dos monstros do colchão da Olívia, socorreu-se da arte popular portuguesa, sobretudo inspirando-se e investigando os trabalhos de Rosa e de Júlia Ramalho (Barcelos). Deu-lhes contemporaneidade e novos rostos.

Formado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, Duarte Carolino interessa-se por tipografia e, nos últimos anos, tem realizado vários projectos de serigrafia, na companhia de Matilde Beldroega.

Sete anos, 130 mil livros

O Prémio de Literatura do Pingo Doce teve a sua primeira edição em 2014 e já revelou 14 novos talentos na literatura para a infância e na ilustração e design gráfico. O total de sete obras publicadas traduz-se em mais de 130 mil livros disponíveis em mais de 400 lojas e a preços baixos.

Para Maria João Coelho, directora de Marketing do grupo, “o Prémio de Literatura Infantil Pingo Doce vem reforçar o compromisso de promoção da literacia infanto-juvenil, através da democratização do acesso aos livros infantis, estimulando os hábitos de leitura em família, desde cedo”.

As candidaturas para a fase de texto terminam a 2 de Abril (Dia do Livro Infantil). Depois de conhecido o vencedor, a 5 de Maio (Dia Mundial da Língua Portuguesa), será a vez de os ilustradores terem o privilégio de conhecer a história em primeira mão e de a tentarem transpor para linguagem visual. Poderão então concorrer a partir de 13 de Maio e até 1 de Julho (Dia Mundial das Bibliotecas).

Se o leitor tem uma história na gaveta, está na altura de a tirar de lá. Se só a tem na cabeça, ainda vai a tempo de a escrever e de concorrer. Com ou sem monstros.

Leituras e Papas de Aveia
Texto: António Pedro Martins
Ilustração: Duarte Carolino
Revisão: Alice Araújo
Design e edição: Livros Horizonte
Produção: Livros Horizonte, Lda para Pingo Doce — Distribuição Alimentar, SA
50 págs., 3,99€

Texto divulgado na edição do Público de 27 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta linda página foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda.

Uma homenagem feliz aos mais velhos

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A autora reencontra o avô através da memória do banco de madeira em que ele se sentava. A ilustradora vai aos “bolsos das recordações” e também dá de caras com os seus avós.

A Geração dos Bancos de Madeira foi escrita, segundo Sara Brandão, numa tentativa ingénua de reencontrar o avô nas coisas mais simples. “Recordo-o muitas vezes sentado na cozinha, num desses bancos em madeira, e foi a partir dessa imagem que a história fluiu num tom infantil e ficcional”, conta ao PÚBLICO.

Diz ainda: “Queria abordar a perda, carinhosa e indirectamente, sobretudo aquilo que permanece. Acho que, à medida que vamos crescendo, tudo nos pesa e perdemos uma certa facilidade em recordar aqueles que nos deixaram por aquilo que foram e centramo-nos, em excesso, na sua ausência física.”

Com uma escrita fluente e imaginativa, Sara Brandão consegue criar uma voz verosímil para uma criança de 12 anos. “Vivo numa casa que não é grande nem é pequena, em frente à casa dos meus avós, que mesmo sendo do mesmo tamanho da minha, é sempre muito maior. A minha casa é branca e sonolenta, porque a maioria do tempo que lá passo estou a dormir.”

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Os nomes dados aos capítulos são bem escolhidos. Desde “Aprender a comer” a “Aprender a lidar” ou a “Aprender a fugir”.

Para a ilustradora, Luísa Coelho, começou por ser difícil dar corpo à narrativa: “Honestamente, quando comecei, não conseguia ver onde a ilustração poderia caber na história, sendo já um texto tão descritivo e poético, não queria que a ilustração viesse dizer o mesmo que as palavras, parecia-me redundante.”

Por isso andou uns tempos com tudo às voltas na sua cabeça, a esboçar ideias, mas sem nunca gostar do que estava a fazer, conta ao PÚBLICO. “Até que um dia, no Verão, decidi desligar-me parcialmente do texto e pensar no imaginário da criança, desde os amigos imaginários da personagem principal às confusões de pensamentos e emoções que esta menina sentia. Acabei por mergulhar nesse universo.”

Valeu-lhe identificar-se com a protagonista: “Muito! Acho que qualquer neto/a que tenha tido a sorte de conhecer os avós e a oportunidade de usufruir disso se identificará com esta história. Eu tenho o prazer de ser neta e ter os bolsos cheios de recordações dos meus avós, facilmente revejo os meus ‘bancos de madeira’. Assim como esta noção de vermos o tempo a passar e sabermos o quão importante é guardar estes momentos na memória.”

Colagens e um dedo partido

Luísa Coelho não seguiu uma regra rígida na escolha dos momentos a ilustrar. “Depois de ter percebido onde é que a ilustração iria existir nesta história, foi simplesmente anotar tudo o que dizia respeito ao imaginário da menina, o cavalo cor de beringela Manel, as confusões de vocabulário, as aventuras pontuais que iam acontecendo paralelamente à história principal. E a partir daí, foi passar tudo para o papel e começar a ilustrar as situações que me pareciam mais engraçadas e dinâmicas. No fundo, até ter terminado o livro, não fazia ideia de quantas ilustrações iriam ser, sabia só que pelo menos uma por capítulo tinha de existir.”

Inicialmente, apresentou três ilustrações quase finalizadas à autora do texto, “para poder exemplificar o que andava a magicar e como o queria fazer”. Depois, Sara Brandão deu-lhe “total luz verde para fazer o que quisesse” e então criou “de rajada as outras todas”.

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Sobre a técnica, descreve: “As ilustrações são todas analógicas, numa mistura de acrílicos, pastel seco, marcadores e colagem (talvez haja um lápis de cor aqui ou acolá também).”

E conta, bem-humorada, as vicissitudes do processo: “Quando finalmente percebi como iria fazer as ilustrações e com que materiais, nessa mesma semana, parti o dedo anelar da mão esquerda a surfar.” Sendo canhota, ficou atrapalhada, pois não conseguia desenhar como queria. “Não conseguia arranjar posição para a mão a segurar o pincel. Então foi aí que surgiu a colagem, veio por necessidade e no final acabou por resultar bastante bem.”

Truz Truz já editou online Disse o Mário e O Baile, sendo A Geração dos Bancos de Madeira o primeiro livro materializado.

“Vou e venho a pé da escola, sozinha. Gosto especialmente das quartas e sextas-feiras. Por não ter aulas à tarde, regresso guiada pelos cheiros que voam da cozinha da minha avó. Sigo numa caminhada de narinas, até à mesa que tem preparada para mim. Um banquete requintado com o carinho do Natal. Até aos meus onze anos almocei todas as quartas e sextas-feiras com os meus avós, sentada num banco de madeira e empoleirada sobre a mesa. Era esta a única vida que conhecia. A única vida que conheço. Hoje tenho apenas doze e mais um ano é coisa pouca para se falar em viver.”

Os dois últimos capítulos são “Aprender a aceitar” e “Aprender a honrar”. Seja.

A Geração dos Bancos de Madeira
Texto: Sara Brandão
Ilustração: Luísa Coelho
Edição: Truz Truz
104 págs., 14€

Texto divulgado na edição do Público de 20 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda. Obrigada a todos. (E não se esqueçam de agradecer aos mais velhos. O que quer que seja.)

Zangada com o mar

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Uma criança deixa de falar quando perde os pais num naufrágio. Noa é uma história triste, mas também de superação e de reconciliação com a vida. A luz e calor das ilustrações atenuam o drama.

Uma tragédia entra pela vida adentro de uma criança. Foi o mar que a trouxe e o avô que a anunciou. E logo ali Noa perdeu a voz. “Eles mentiram-me. Abandonaram-me. Desistiram de mim. Será que me portei mal?

Um naufrágio de pesca leva-lhe os pais e a vontade de falar. Sobre a mãe: “Ela disse que eu não precisava de ter medo do escuro, porque nunca me deixaria sozinha. Mas agora está escuro, e ela não está aqui…” Sobre o pai: “Ele disse que vinha a correr, se eu chamasse. Mas eu estou farta de chamar, e ele não vem… Não deve ouvir a minha voz a tanta água de distância.”

A autora do texto, Susana Cardoso Ferreira, disse ao PÚBLICO, quando o livro foi publicado, no Verão de 2020: “Ter feito isto à Noa, matar-lhe os pais, foi dificílimo. Ela começou a sofrer e eu também. Não me apetecia usar palavras supérfluas, tal como Noa, apetecia-me ficar em silêncio.”

A menina foi viver com o avô, mas acabou por se ver rodeada de outras pessoas na “casa mais alta do que larga”, com jardim e de onde se avista o mar. Mas ela não quer olhar para ele.

Um corvo, uma ex-professora, um amigo do avô e uma miúda tagarela preenchem agora os dias de Noa. A pouco e pouco, a vida reformula-se. “Tenho esperança de ter passado a mensagem de que a vida continua e que é possível reconstruí-la, ter novas famílias. O mundo continua, é diferente, mas não é mau”, disse então a autora, que é também tradutora de literatura infanto-juvenil.

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Dar luz e calor à história

Agora, foi a vez de escutarmos a ilustradora, Raquel Costa, que nos diz: “Não queríamos que fosse um livro sombrio e triste. A ilustração funcionou como contraponto, com luz, calor e textura.” Formada em Artes Plásticas – Escultura, conta como a leitura do texto teve em si “uma ressonância emocional forte” e que o processo criativo foi muito “guiado pelo instinto”. Fala ainda “na sintonia feliz com a Susana”, já que ambas estavam “à procura de uma voz autoral genuína, espontânea e livre”.

Alguns pormenores das ilustrações não constam da história, “gosto de acrescentar elementos na transfiguração em narrativa visual”, mas Raquel Costa não quis criar imagens demasiado pormenorizadas. “Procurei desenhar sem excesso de detalhes. É preciso saber quando parar e evitar melhoramentos. Só estraga. Há que ser contida na metáfora visual.”

No início, foi preciso “partir muita pedra”, diz. “A fase inicial nunca é fácil. Demora a sentirmo-nos confortáveis dentro do desconforto das páginas em branco.” Depois de ambas se sentirem “alinhadas”, foi mais fácil e fluente.

À medida que ia desenhando, ia mostrando os esboços para aprovação. “O trabalho faz-se por avanços e recuos. Podemos aperceber-nos de que o fluxo tem de ser transformado e algumas ilustrações reconfiguradas ou mesmo excluídas”, descreve a também professora na Escola Superior de Design, do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave.

Noa foi desenhado “exclusivamente com técnicas digitais”. Uma opção que teve que ver com o confinamento e com a possibilidade de se “saltar passos, como digitalização e pormenores de artes finais”. Assim, foi mais rápido e prático.

Ainda que goste de “sentir o lápis a riscar a folha”, defende que o digital permite igualmente “criar camadas e simular a pintura e fluidez” das imagens. Já não consegue imaginar Noa criado de outra forma.

Com este livro, Raquel Costa integrou a lista de 303 ilustradores seleccionados pela Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha (de entre 3235 candidaturas de 68 países). Não passou ao escrutínio seguinte, em que foram escolhidos os 77 que irão expor na próxima edição da feira, em Junho.

“Estaria mais feliz se tivesse sido seleccionada para a fase seguinte, mas estou muito orgulhosa por estar tão bem acompanhada nesta lista”, disse ao PÚBLICO no dia em que se soube que os portugueses a integrar a mostra em Bolonha seriam Catarina Gomes e Tiago Galo.

Quanto a Noa, já não afasta o olhar da nesga de mar que avista do jardim da casa. Mas é preciso deixar o tempo fazer o seu trabalho.

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Texto: Susana Cardoso Ferreira
Ilustração: Raquel Costa
Edição: Oficina do Livro
112 págs., 12,50€

Texto divulgado na edição do Público de 13 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Sandra Silva. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo ainda online por causa do confinamento, que está quase a acabar…). Obrigada por se manterem aí e por nos visitarem.

A gritar é que a gente se desentende

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Discórdia é um livro que também pode ser entendido por crianças, mas que se destina a todos. Fala, sem palavras, da urgência de se criar pontes de entendimento. Com esperança.

Integrado na colecção Imagens Que Contam, esta narrativa visual, explica-nos a autora, brasileira, começou assim: “Achei intrigante brincar com a ideia de fazer um ‘livro silencioso’ bem barulhento. Nessa pesquisa, me dei conta de que uma das maiores ‘gritarias’ que me rondavam há um certo tempo era justamente quando a política entrava no meio. Por ser brasileira e ter morado recentemente nos EUA e Inglaterra, presenciei de perto as transições para o ‘Brexit’, Trump e Bolsonaro. Era impossível fugir de discussões e opiniões questionáveis, desde motoristas de Uber a posts intermináveis no Facebook e WhatsApp.”

Fica assim explicado o título: Discórdia.

O que começam por ser pequenas nuvens de desacordo passam a tempestades de conflito, algumas irreversíveis. Nani Brunini, natural de São Paulo, conta ao PÚBLICO: “Vi muitos amigos afastando-se de seus familiares e amigos porque, conversar, sobre qualquer assunto, tinha-se tornado intolerável. Essa angústia ficou ainda maior quando percebi que pessoas que respeito estavam do ‘outro lado’. Era uma situação incompreensível, inesperada, bizarra e parecia que não iria acabar bem.”

A ilustradora, que agora reside em Portugal, diz ainda: “Tenho a impressão de que desaprendemos a discutir – o que, aliás, é um terrível exemplo para as crianças. Aprendemos muito quando estamos perto de opiniões e experiências diferentes das nossas.”

Mas o livro acaba por trazer esperança, já que haverá alguém que conseguirá ajudar as personagens a encontrar “pontes de entendimento” e a relembrar “que é possível discordar de forma respeitosa e construtiva”.

Desafiámo-la a fazer uma legenda única no livro: o que escreveria e onde? “Acho que não colocaria legenda em qualquer lugar… Apesar de ter sido um desafio ter falado sobre um tema tão complexo sem ajuda de um texto, fez-me ver o assunto de uma forma diferente.”

Recorre à expressão, de que gosta muito: “Não entendeu? Quer que eu desenhe?” (o equivalente ao nosso “é preciso fazer um desenho?”) e esclarece: “Parece bobo, e muitas vezes diminuímos o papel das ilustrações, mas o facto de não termos um texto como suporte exige do leitor um esforço, na minha percepção, positivo, para que ele chegue a uma narrativa própria.”

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Escutar o outro

No livro, há uma espécie de salvador, um rapaz. Quisemos saber quem era: “A priori, não houve uma razão muito clara para escolher aquele personagem. Realmente poderia ter sido qualquer um deles. O engraçado é que só me dei conta depois de terminado o livro de que ele é o personagem que tem as orelhas grandes, ou seja, uma óptima metáfora/solução para um grupo de pessoas que precisam de parar de gritar e ouvir-se uns aos outros.”

O rapaz conta a ajuda de um cavalo para orientar os humanos a encontrar uma saída, mas podia até nem ser um animal, como explica a autora: “Ao serem engolidos pelo monstro, os personagens continuam o caos – alguns discutem, outros se desesperam. Um deles, no entanto, sai da bagunça e percebe que consegue moldar a sua fala em qualquer formato. Ele, então, cria um cavalo (poderia ter sido um skate, uma bicicleta, um dragão…) como uma maneira de procurar uma saída daquele lugar escuro e cavernoso.” Resultou.

Dos pincéis ao digital

Sobre a técnica usada, descreve: “A maioria dos desenhos começou à mão com pincel e tinta-da-china e depois passou por um vaivém entre Photoshop, Procreate e às vezes de volta para os pincéis.” Também nos dá conta do ambiente: “Escutei muita música clássica e voltei a desenhos da minha infância, como a Pantera Cor-de-Rosa e o Fantasia da Disney, para me ajudar a traduzir o que seriam manchas de fala mais ríspidas e outras mais calmas. Foi bastante desafiante, mas muito divertido.”

Na escolha das cores, Nani Brunini quis fugir às convenções cromáticas da política: “O azul e o laranja servem apenas para diferenciar um grupo do outro. No geral, procurei fugir de referências a grupos específicos, como vermelho para a esquerda e azul para a direita, por exemplo.”

Apesar de Discórdia ter nascido por observação e vivência de conflitos ligados à vida política, “não é necessariamente um livro sobre brigas entre grupos políticos”, esclarece. E acrescenta: “Como as falas são manchas abstractas e não ícones, não sabemos sobre o que exactamente estão contra ou a favor, nem de onde são ou mesmo que língua falam. Só sabemos que são dois grupos antagónicos e que estão muito zangados.” Vê-se. Aliás, quase se consegue escutar a gritaria que as imagens transpiram.

Querer ganhar pelo grito

Não tem dúvidas de que, “nos dias de hoje, há muita gente querendo ganhar no grito, tentando desesperadamente convencer o outro de que o seu lado está certo, geralmente com boas intenções. No entanto, esse caos barulhento só ajuda a aumentar o gap”.

A esperança que se vislumbra no livro não surgiu logo à partida, apareceu durante o processo criativo, como recorda a autora, que se estreia com este livro depois de um curso realizado na escola ArCo, leccionado por Catarina Sobral e Tiago Guerreiro, com a orientação de André Letria, editor da Pato Lógico. “Fazer o Discórdia, para mim, foi uma experiência extremamente catártica. Como eu estava vivendo aquela situação em tempo real, não tinha ideia de como o livro iria acabar. A história foi mudando junto comigo. Eu, na verdade, comecei bastante negativa. Não conseguia ver uma solução para um impasse tão grande.”

Com o avançar do tempo, Nani foi perdendo o pessimismo: “Aos poucos, lendo mais sobre empatia e conversando com mais pessoas, comecei a ver uma luz no fim do túnel – o que não quer dizer que o fim do livro foi algo estilo Hollywood, em que todos chegam a um ponto comum ou mesmo ao contrário, dizendo: ‘OK, não tem jeito mesmo, cada um para o seu lado. Agora só conversamos sobre se vai chover ou não’.” E concluiu: “A situação é muito complexa e não há uma única solução – às vezes até ouvir o outro lado não é suficiente – mas penso que é nossa responsabilidade procurar de forma proactiva reverter esse cenário.”

Discórdia é, portanto, um livro “para quem está cansado de gritaria”. Afinal, ganha quem grita mais alto ou perdem todos? Chiu!

Discórdia
lustração: Nani Brunini
Edição: Pato Lógico
40 págs., 13,50€

Texto divulgado na edição do Público de 6 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta bela página foi Sandra Silva. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo ainda online por causa do confinamento). Obrigada por se manterem aí e por nos visitarem.

Quem disse que não sabes desenhar?

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Um livro que convida a riscar, pintar, recortar. Sem complexos. O virtuosismo não é para aqui chamado.

Uma frase recorrente, “não sei desenhar”, é escutada por Nic e Inês durante as formações de expressão plástica que dão a crianças e adultos. “É comum a todos, mesmo a quem sabe efectivamente desenhar. Para nós, é importante realçar que todos sabem ‘desenhar’, ‘expressar’”, dizem ao PÚBLICO via email, os também autores de Em Casa, publicado em Março de 2020.

Os ex-professores Nic (Nicholas Carvalho) e Inês (Inês Almeida), formados na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, contam ainda: “No início dos confinamentos, percebemos a importância e relevância da publicação deste livro, dada a necessidade de as crianças se entreterem, criarem e fazerem algo longe do ecrã. Pensando logo em todos os nossos alunos, grandes e pequenos.”

Assim, nasceu a ideia de criar um livro de “exercícios que estimulam e desenvolvem, passo a passo, a habilidade para o desenho”. A protagonista começa por dizer que não sabe desenhar, mas depois embarca numa espécie de viagem. “Em cada página, são sugeridos exercícios e técnicas que a vão desbloqueando e fazendo ganhar confiança. No final, a personagem já se sente capaz por já ter desenhado tanto.”

Os desafios vão desde “desenhar de olhos fechados ou utilizar materiais menos comuns” até usar “a ponta do lápis como se fosse um pincel” ou ainda “desenhar com lápis de cera branco sobre uma folha branca”. Não se vai ver nada, até que se faça uma mancha com aguarela sobre o desenho invisível. “Parece magia!”

Uma semana para angariar 2500 euros

Para Nic e Inês, “ensinar as pessoas a desenhar e provar-lhes que toda a gente consegue fazer qualquer coisa é quase uma missão”. Por isso, no início de Junho de 2020, lançaram uma campanha de crowdfunding na plataforma portuguesa PPL, com o objectivo de financiar a publicação de mil exemplares de Não Sei Desenhar. “A meta foi fixada nos 2500 euros, que nos permitia publicar um livro de capa dura. A campanha tinha duração de dois meses e ficámos estupefactos quando atingimos o objectivo em apenas uma semana”, contam satisfeitos. E acrescentam: “Houve, inclusive, apoios de vários outros países. Como ultrapassámos largamente o objectivo, fizemos um livro com dimensão maior e melhores acabamentos do que inicialmente previsto.”

Difícil foi, depois do crowdfunding, personalizar mais de 300 exemplares com dedicatória, enviados pelo correio. “Ufa!”, concluem, divertidos. Associado ao livro, criaram também o workshoponline Não Sei Desenhar (em vídeo gravado) que percorre os principais exercícios. Também o realizam presencialmente, quando for possível, nas escolas que o solicitarem.

Sobre as técnicas e materiais usados nas ilustrações, descrevem: “Recorremos a várias técnicas sugeridas pelos exercícios, como desenho a grafite, lápis de cor, esferográfica, aguarela, pastel de óleo, mas também à fotografia, ao recorte de revistas antigas. Há até bilhetes de cinema, fotos antigas do nosso arquivo pessoal e fotografias dos materiais e ferramentas entre si: réguas, borrachas, lápis, lápis de cera, canetas… entre outros.”

Para a composição e paginação, recorreram à manipulação digital. “O texto é todo manuscrito. Quisemos dar uma sensação de liberdade e de descontracção. Há pouca rigidez – isto é o que combatemos e queremos desfazer”, concluem.

Antes, há ainda que dizer: “Com tudo isto, reforçamos a ideia de que todos conseguem desenhar e que as artes e a criatividade não supõem um talento inato e não são para uma elite. Está ao alcance de todos. É esta a nossa missão em todo o nosso trabalho.”

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A registar ainda um elogio às livrarias independentes, onde têm o livro à venda“São estas livrarias que compreendem este tipo de projecto, o verdadeiro amor aos livros e a singularidade desse universo.”

Agora, toca a ir buscar os lápis e os pincéis abandonados na gaveta. Quem disse que não sabes desenhar?

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Texto, ilustração e edição: Nic e Inês 
32 págs., 12€

Texto divulgado na edição do Público de 27 de Fevereiro de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página (e sabe desenhar…) foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo online por causa do confinamento, que nunca mais acaba :( ).

 

O pescador, o golfinho e as crianças de Aniki-Bobó

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Um passeio num porto de pesca algarvio fez nascer uma personagem e uma história. Quem a desenhou reenvia-nos para as crianças do filme Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira.

A história é narrada por António, que nasceu “numa aldeia de pescadores, junto à foz de um rio muito grande”. Diz-nos o rapaz que vivia “numa casa que tinha chão de areia e sabor a maresia. Uma terra com gaivotas a decorar os telhados e os barcos, ruas com palmeiras, mulheres de canastras à cabeça e saias compridas, rodadas”.

António era fascinado pelas aventuras de Pirilampo: “Um velho pescador que, já sem forças para se fazer às marés, passava os dias e muitas vezes parte das noites, sentado num canto do cais, perdido nos céus do oceano, como quem espera ainda um grande sonho. Pirilampo era agora um pescador de estrelas e de gentes.”

A alcunha “Pirilampo” ganhou-a em resultado do cachimbo sempre aceso, a iluminar a noite e o sorriso sábio. Será este ex-pescador de alto-mar que irá ajudar as crianças da aldeia a salvar um golfinho-bebé que se perdeu da mãe e foi dar à praia.

O autor do texto, Carlos Canhoto, que não vive perto do mar, contou ao PÚBLICO que esta história nasceu no Algarve, em Quarteira: “Num passeio nocturno junto ao molhe do porto de pesca, encontrei um velho pescador com os olhos postos no negro do mar, fumando o seu cachimbo. Estava só, ao vento e ao frio, e o negro-ébano da sua pele levou-me a imaginar que estaria sonhando com outras paragens, que teria os pensamentos noutros cais.”

Quando decidiu que o conto iria destinar-se ao público escolar, acrescentou-lhe o salvamento de um golfinho protagonizado por crianças. Outra decisão foi a de que as ilustrações seriam de Paulo Galindro. Como a editora que estava interessada na publicação “não seria capaz de rentabilizar economicamente a edição”, o autor publicou o livro através de uma marca editorial própria que, entretanto, tinha criado: Garatuja – Semeando Afectos.

Dos clássicos às tatuagens

O ilustrador também contou ao PÚBLICO o seu processo criativo: “Desde o primeiro momento, tive muita vontade de que o livro fosse beber inspiração às ilustrações dos velhos clássicos da literatura como Robinson Crusoe e Moby Dick. Ilustrações que ocupavam uma página, muitas vezes executadas em técnica de xilogravura.”

Revelou que ainda lhe “passou pela cabeça” fazer as ilustrações “de um modo purista, recorrendo ao linóleo e à sua posterior impressão, que depois seria digitalizada e trabalhada em ambiente digital”. Mas o tempo, como diz, “é sempre uma variável diabólica nestas coisas dos livros”. Optou então pela “ilustração digital de raiz, numa reinterpretação gráfica dos velhos clássicos”.

Esse olhar para os clássicos também ditaram a escolha da fonte do livro (Century Schoolbook) e a utilização de letras capitulares no início de cada página ou capítulo, uma solução a que diz recorrer muitas vezes. Esta “perseguição” aos velhos clássicos resultou também numa incursão ao universo das tatuagens.

Para estes lobos-do-mar – como o velho Pirilampo –, as tatuagens eram vistas como protecção, um diário de viagem e até memorabilia de paixões fortuitas”, descreve Paulo Galindro, que é também arquitecto. E acrescenta: “Eu queria que o livro fosse como uma tatuagem. E por isso investiguei também a estética da tatuagem old school e também a denominada Sailor Jerry, que acaba por marcar muito as ilustrações do livro.”

Assim, ficou a saber, pela iconografia e simbologia das tatuagens dos marinheiros, que estas eram “muito mais do que um adorno decorativo”. Exemplos de representação: “Uma andorinha marcava cinco mil milhas náuticas; uma estrela náutica era uma bússola mística para encontrarem sempre o caminho para casa; uma tartaruga assinalava o ritual de iniciação de quem atravessava pela primeira vez a linha do equador; uma âncora registava a travessia do Atlântico, uma sereia marcava um amor num porto.”

Sobre as personagens infantis do livro, conta: “Trouxeram-me à memória as personagens do filme Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira.” E garante: “Qualquer semelhança com elas não é mera coincidência (quem fala a verdade não merece castigo).”

Diz ainda ter aproveitado para “prestar uma homenagem sentida ao mestre David Bowie”, mas não revela onde. “Vão ter de comprar o livro para descobrir.”

Abelhas, fantoches e marionetas

Carlos Canhoto só viu o trabalho do ilustrador depois de terminado. Ficou satisfeito. “Achei que tinha valido a pena ter escrito o texto só para ver as fantásticas ilustrações do Paulo.”

O autor do texto é apicultor e vive num monte no Alentejo: “Tenho também uma horta e um pequeno pomar com árvores que eu mesmo plantei e trato.” No entanto, ocupa-se de outras actividades: “Gosto muito de inventar histórias e de dar vida a fantoches e marionetas.” Leva-os até a escolas, bibliotecas e lares, onde há muito tempo dinamiza sessões de leitura e conta histórias.

Foi numa animação que fez em Ílhavo, no Museu do Bacalhau, que transformou o Pirilampo num dos heróis da Terra Nova. Inicialmente, no Algarve, a figura do pescador tinha-o levado para outros destinos: “Levou-me ao sofrimento dos velhos trabalhadores cabo-verdianos em São Tomé, às saudades com que vão morrendo das suas ilhas, onde não conseguiram voltar.”

Vencedor do prémio Maria Rosa Colaço 2006 com O Monte Secou, escrito com Zé Gandaia (editado pela Pé de Página em 2007), tem mais de uma dezena de títulos publicados, fazendo parte do Plano Nacional de Leitura.

Sobre este livro, diz, numa reflexão sincera: “Nunca vivi junto a uma praia, não sou marinheiro. Aprendi as artes da pesca com o meu pai e acho que o Pirilampo é mais uma das histórias que acabei por viver sem ter vivido – uma história que hoje já vive naquela área das memórias em que não temos a certeza se terão sido inventadas ou vividas.”

Quanto ao velho pescador, continuou por algum tempo no cais à espera da sereia que o salvou de um cardume de bacalhaus nas águas gélidas da Terra Nova.

António, o narrador, cresceu, partiu e regressou. O Pirilampo já não estava no cais, mas o seu cachimbo continua até hoje a iluminar-lhe a memória.

Pirilampo, o Velho Pescador de Estrelas
Texto: Carlos Canhoto
Ilustração: Paulo Galindro
Edição: Edições Garatuja
32 págs., 12€ (10,80€ online)

Texto divulgado na edição do Público de 20 de Fevereiro de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, sai sempre uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Sandra Silva. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo online por causa do confinamento).

Ler não engorda

Foto Rui Gaudêncio

Mesmo que ler engordasse, haveria por aí muitos trinca-espinhas alérgicos a livros, livrarias e bibliotecas.

Ficámos a conhecer a frase do título há mais de duas décadas, quando conseguimos, pela primeira vez, “tempo de antena” no jornal para a literatura infanto-juvenil. Foi o escritor António Mota que a disse, ao recordar ao PÚBLICO uma máxima de um encontro literário em Cáceres. “Ler não engorda” estava inscrito num cachecol. O autor, um dos que mais vendem neste segmento, repete a frase ainda hoje sempre que visita escolas. Um sucesso junto dos miúdos.

Desde esse primeiro trabalho, batemo-nos por criar novos leitores e por dar a conhecer o que de melhor se faz e publica para os mais novos. Cirandando de suplemento em suplemento, secção em secção e em diferentes espaços no PÚBLICO, sempre incentivámos as famílias a frequentar livrarias e a deixar as crianças escolher os livros que mais lhes agradassem. Mesmo que não fossem os preferidos dos adultos.

Acreditamos que há um livro certo para cada um de nós. Aquele que nos faz querer ler outro e mais outro e outro ainda. Mas há que explorar. As livrarias e as bibliotecas são os melhores espaços para essa prática e esse prazer. O Plano Nacional de Leitura sabe disso, mas ainda não lhe escutámos a voz.

Nunca nos incomodou a venda de livros nas grandes e médias superfícies, ao lado dos legumes e de outros bens de primeira necessidade, nem nas agências dos Correios ou outros lugares. Gostamos que os livros se vendam em todo o lado e que as famílias tropecem neles, mesmo nos momentos em que não estão a procurá-los.

No entanto, é nas livrarias independentes que há mais diversidade, melhor qualidade, maior liberdade. Os grandes grupos editoriais convivem com as pequenas editoras, há livros de autor, álbuns ilustrados maravilhosos, edições estrangeiras, livros antigos e, mais importante ainda, há livreiros. Pessoas que nos aconselham, que nos conhecem e conhecem também os livros que ali têm para nós. Se não os tiverem, tudo farão para os encontrar. Também são leitores.

Continuar a ler

A importância de cada um de nós no mundo

01CapaPág.Crianças13Fev.Importante

Só por existirmos já somos importantes. É isso que Christian Robinson quer mostrar às crianças.

Todos contamos, todos somos importantes, todos valemos. “Uma coisa mínima que mal se vê”; “quem apanha a onda ou quem nada contra a maré”; “o último a ir e o primeiro a chegar”. Todos. Não importa o tamanho, a proveniência, a escolaridade, o desempenho, os bens.

Pode ser um dinossauro ou uma formiga, um adulto ou uma criança, um meteorito ou uma célula. “Quando pareces estar a mais”; “quando achas que não és capaz”; “quando ninguém te pode ajudar”: “És importante.”

Christian Robinson questionou-se sobre o que queria transmitir aos leitores. Chegou à conclusão de que gostava de dizer a todos eles que “cada um é importante só por existir”. Sempre que fala neste livro, repete: “Em casa, na escola, no mundo, todos podemos fazer a diferença.”

Animador e realizador da Pixar e Rua Sésamo

O autor vive em São Francisco, Estado Unidos da América, e dedica-se à ilustração e ao cinema de animação. Trabalhou nos estúdios da Pixar e colaborou na realização da Rua Sésamo. Acredita que as crianças devem escutar e sentir desde cedo que são importantes. Por isso convida os leitores a dizerem isso mesmo a quem está à sua volta, aos adultos também.

Robinson diz que as árvores são dos seres vivos que mais o deslumbram. Ao comentar para o Read-Along PBS Kids uma das ilustrações do livro em que aparece uma grande árvore (de tronco muito largo), duas crianças, um cão e dois homens (um de bengala, outro não), questiona os leitores: “Quando estou a falar dos mais novos e dos mais velhos, estou a referir-me a quem?”

Há que estar atento aos pormenores das ilustrações deste livro (dos outros também), só assim se perceberá a ligação entre as personagens representadas. O cão que parece estar sozinho à beira da estrada, mas que surge mais adiante com alguém a segurar-lhe a trela; a criança que brinca à janela com um foguetão e se assemelha à da foto que uma mulher astronauta segura na mão quando olha para Terra, numa outra página mais à frente.

Questões universais, emoções individuais

“Podes às vezes sentir-te só e achar que não és capaz. Mas és importante. (…) Mesmo se caíres e tiveres de começar tudo outra vez…”, vai escrevendo e mostrando o autor.

Recebeu, em 2016, a Menção Honrosa da Medalha Caldecott, com o livro A Última Paragemeditado em Portugal pela Minotauro/Grupo Almedina. Na Orfeu Mini, tem publicados outros dois títulos: Gaston (com texto de Kelly DiPucchio) e Outro (com texto e ilustração de Christian Robinson), que foi considerado o Melhor Livro Infantil Ilustrado em 2019 pelo New York Times e pela New York Public Library.

Tem ilustrado muitos livros para crianças e recebido vários prémios. Quando lhe perguntam quais as fontes de inspiração, tem dificuldade em parar de falar, mas começa por estas: “Livros ilustrados e artes gráficas dos anos 1950/60, natureza, simplicidade, cidades, ciência, história, música…

Conta que desde cedo adorava desenhar, pintar, esculpir, enfim, todas as actividades que lhe ocupassem as mãos. Hoje, diz ser obsessivo em coleccionar imagens que o inspiram. E é habitual frequentar museus e livrarias, quando precisa de “recarregar… e de encontrar uma centelha de inspiração”, pode ler-se numa entrevista do autor no site Brightly.

As mudanças de escala e de perspectiva em És Importante ajudam a consolidar o que é dito, traduzindo também por imagens questões universais e emoções individuais. Todas válidas e importantes. Como cada um de nós.

És Importante
Texto e ilustração: Christian Robinson
Tradução: João Berhan
Revisão: Nuno Quintas
Edição: Orfeu Negro
40 págs., 14€ (12,60€ online)

Texto divulgado na edição do Público de 13 de Fevereiro de 2021, no site-satélite Ímpar.

PáginaCrianças13Fev2021Importante

Na edição impressa, sai sempre uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo online por causa do confinamento). Todos importantes! (para nós e para quem está aí desse lado).