A insónia de Tóquio

IMG_5517Lost in translation? O filme não me sai da cabeça e tanto faz que esteja perdido pelo gigantismo do meu hotel como pela desmesura de Tóquio. A história em que Bill Murray se entedia entre cenários de hotel de luxo chama-se em português O Amor é um Lugar Estranho, o que até – acabei de perceber… – terá dado origem ao título em português do livro de Peter Carey (vide post anterior),  Wrong about Japan, entre nós chamado O Japão é um lugar estranho. Como li o livro no avião e revi o filme numa terrível noite de insónia em Tóquio (ironias cinematográficas da vida), juntam-se na minha cabeça o relato e a ficção à cidade real que calcorreio e que vivo. Esta coisa do Japão ser dado como um lugar estranho até me irritava, confesso, que isto dos exotismos, como sabemos, é sempre uma coisa muito relativa.

O Japão, ou pelo menos Tóquio (que é o que superficialmente conheço para já e que é também o Japão do livro), não tem nada de estranho. Entranha-se até muito rapidamente na sua modernidade física arrebatadora, de prédios e arquitecturas de tirar o fôlego, umas harmonias de betão coreografadas com rigor japonês. Não são clichés, é mesmo tal e qual. Nas ruas são sempre milhões a respirar por entre regras rígidas de vida pública, luzes e neóns, seja de dia, seja de noite (sendo que quando se vai o sol, claro, o néon explode em omnipotência e variações do arco da velha pelos centros da cidade). Isto tudo misturado com tradições e civismos arreigados (e regulados). À falta de prédios velhos pela cidade, arrasada que foi pelas bombas, o contraste entre a tradição e a modernidade mostra-se nos corpos e gestos dos seus cidadãos, por mais modernos que sejam os trajes ou as construções.

Com um dia e meio de Tóquio, a minha cabeça é um farol. Aprendo a fazer as semivénias que acompanham os cumprimentos sociais, a pegar nos cartões-de-visita segundo manda a lei rígida (com as duas mãos, obrigatório prestar atenção e ler os dois lados do cartão antes de guardar), a fazer sempre fila para entrar num transporte, metro incluído (atenção Portugal), a seguir sempre pela esquerda nas escadas rolantes, a tirar os sapatos sempre que o chão da casa o exige, treino-me nos pauzinhos, obedeço às leis do fumo.

Com uma vida tão regrada, então por que não consigo adormecer? Noite dentro, já fiz todos os exercícios, revi o Lost in Translation, já contei samurais, nada. Talvez porque este dia e meio foi tão feérico que a minha cabeça rebenta de informações, sons e imagens. Passeio pelo hotel como se no filme, vou de madrugada pelos corredores, espio a rua na noite de um frio urbano, converso na recepção, passo pelos bares, pelas salas de fumo. Na cama, volto às voltas e a cabeça não pára.

Pode ter sido por aquele espectáculo do Robot Restaurant, uma hora de histeria ao vivo num show que mistura referências para turistas com dezenas de artistas em movimento, barulho e luzes contínuas, de deusas que parecem saídas da banda desenhada a grandes bonecos robotizados à Godzilla. Explodiam lasers, bombinhas, tambores, gritos, músicas, batidas, tudo entre histórias como a da luta dos robots maus que invadem o planeta contra o exército bonzinho e pacífico da terra e do mar. Uma espécie de anime em carne e osso que é um íman para turistas. É tão mau que é bom. É um excesso que não nos sai da cabeça.

Mas também posso estar às voltas com as memórias de uma tarde na Cidade Eléctrica, Akihabara, onde pulsam centenas de lojas de cenas electrónicas e digitais e em que o anime é um deus. Bonecos e anúncios animados de tamanho de prédios, gente que se veste como se fossem personagem, fétiches mais ou menos inocentes para todos os gostos. Como as meninas do Maidreamin, um café só de coisas queridas, moe moe!, super kawaii! Elas vestem-se entre empregadas clássicas e personagens anime, falam da forma mais querida do mundo, os clientes põem orelhas de coelho, pedem cocktails com bonequinhos e sabores à infância. Elas vivem na Terra dos Sonhos e é tudo cute e cor-de-rosa. Um pesadelo para alguns, um sonho para muitos.

Mas isto não tira o sono a ninguém, muito menos os passeios pelos jardins do palácio imperial ou as voltas por templos budistas e xintoístas, as compras pelo bairro de Asakusa, o luxo e insígnias poderosas de Ginza ou mesmo os passeios pela imparável Shibuya, onde parecem estar sempre milhões de pessoas. Mas para quem dorme ao lado da estação de comboios mais movimentada do mundo – chama-se Shinjuku e é ver para crer –, isso não é nada.

Na minha cabeça juntam-se estes mundos todos, o universo Nova-Iorque made in Asia e o movimento de milhões de pessoas, as regras e o civismo, a simpatia e a formalidade, o anime e os filmes de Kurosawa (o almoço foi num restaurante que o homenageia), a destruição de Tóquio e o seu renascimento, os shoguns, imperadores e samurais (o jantar foi num reservado para dois num restaurante de ambiente também de filme e sob o mote samurai), o whisky japonês num speakeasy com nome indiano (Krishna, por sinal) ou o sake num bar de fotógrafos que é um corredor com seis bancos e muitas fotos (o Kodoji).

Isto é tudo muito e ainda andam aqui às voltas as conversas com os meus guias ou com a minha nova amiga, a Makiko, que é jornalista e fixer (muito em voga no Japão, consiste em resolver todas as questões das viagens dos visitantes que andam, lá está, algo lost in translation) e com quem volto a pé para o meu hotel, ela no seu vestido vermelho a empurrar a bicicleta pelas ruas da cidade – é a minha Scarlett Johanson. Nas ruas mais traseiras, saem fumos fumados às escondidas, criam-se labirintos de pequenos bares e snacks, todos cheios, todos muito pequeninos e íntimos.

Noite fora e a ter que acordar muito cedo, entre todas as histórias do meu dia, chego à conclusão que não durmo nem vou conseguir dormir. Amanhece e ponho pés ao caminho: vou passear até ao hotel onde foi filmada a história de estranho amor entre Murray e Johansson, o Park Hyatt. Entre o sono e o  GPS em estado catatónico, também não encontro o hotel, que fica a menos de 12 minutos. Perco-me, como Murray, pelas ruas, pelo viaduto, escadas, vou na direcção contrária. Mas isto deve ser o destino. Next time: um whisky no Hyatt Tokyo.

O dia está já clarinho e eu não preguei olho. A minha irritação passa mais por não ter razão para esta insónia, a não ser mesmo este demasiadas-coisas-em-muito-pouco-tempo.

Cruzo ruas semiperdido como Murray cruza corredores, pessoas e whiskies. Não há quase ninguém por aqui a esta hora, Tóquio está ainda a despertar nesta Shinjuku administrativa e hoteleira.  

Nenhuma cidade se apreende nuns dias de turismo toca-e-foge, e muito menos esta, portanto nem me vejo com direito a tirar grandes conclusões ou traçar grandes e profundos juízos. No filme, o qual, diga-se de passagem, se podia passar tanto em Tóquio como em qualquer outra metrópole similar, Bill e Scarlett nem sabem muito bem a que se deve a sua lata insónia em relação à vida que levam. O que sabem, a dado ponto, é que só o amor, mesmo que vivido por um fugaz momento, é uma espécie de salvação qualquer, especialmente numa cidade destruída e reconstruída, onde a história foi bombardeada mas vive nos nossos corpos, como nos deles está latente a urgência de redescobrir a vida. O amor, a amizade, o contacto humano surge como a direcção para ver a luz. 

Quase no final, um abraço e um beijo, um segredo murmurado por Bill ao ouvido de Scarlett, um segredo que não nos é revelado e que alimenta muitas teorias aos fãs do filme, uma estranha peça de culto moderna. Quando regresso ao hotel, meio perdido nestes pensamentos e nas ruas sem encontrar o cenário de Bill e Scarlett, é neste segredo dos dois que penso.

Entre o duche, as malas, o rearrumar a vida para começar outra viagem e sair à rua, são as imagens finais do filme, uns minutos urbanos de Tóquio conduzidos de um táxi, que se confundem na minha cabeça com as imagens reais da cidade que estou a ver, praticamente as mesmas da película. Mas a memória moves in misterious ways e eu, not big in Japan, junto ao lost in translation as imagens reais da História, das bombas americanas, da destruição, de uma Tóquio arrasada até às cinzas. 

Com o cansaço, com a birra de sono por conciliar e sem essa salvação de uma espécie de amor entre estranhos, quando saio para a rua não sou Bill nem Scarllet. Eu sou a insónia, eu sou Godzilla.

A Fugas viaja a convite do Turismo do Japão

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