Este é um trabalho de luxo mas alguém tem que fazê-lo

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A vida de um viajante que escreve as suas viagens não é pêra doce. “Uau, que trabalho de sonho” ou “Tens o melhor trabalho do mundo” são duas variações que ouvimos a cada passo que revelamos que boa parte do nosso trabalho é fazer viagens e viver para contá-las. É verdade, têm toda a razão. Mas, como qualquer viajante mais aficionado, ele há dias e ele há viagens que nos saem do corpinho. Venham comigo voar de Lisboa para Tóquio que já lhes digo. Se o relato lhes parecer algo longo, tanto melhor, terá sido porque foi a única forma narrativa que encontrei para dar a perceber a longura do meu dia (um dois-em-um, digamos).

Esta viagem começa como tantas outras, com malas prontas e horas contadinhas para que tudo corra bem. Com um twist: começa no dia em que os taxistas de Lisboa ameaçaram sitiar a cidade e, portanto, já se está a ver (e agora já se sabe), chegar ao aeroporto Humberto Delgado vai ser um stress. Por isso mesmo, entre reclamações e outras expressões menos abonatórias, decido-me a carregar a minha supermala e mais todos os acrescentos profissionais e pessoais obrigatórios de metro, ao contrário de usar um táxi como sempre faço (faz parte do trabalho…).

Pelas nove e picos da manhã, o metro de Lisboa está já um pandemónio (há uma estranha crise de bilhetes para andar de metro que cria filas e turistas semiperdidos na vida, hoje com a Batalha dos Táxis pior ainda). Rumo ao aeroporto, pela estação de metro do mesmo e em redor deste, é um inferno de filas, segurança extra, turistas à toa, um inferno de malas. Antes de voar, oiço Sérgio Godinho a cantar “Às vezes o amor…”, saindo de uma carrinha de manif, “Todos contra os transportes ilegais de passageiros”, grita-se. Por todo o aeroporto, milhares de pessoas parecem-me mais enraivecidas com os transportes legais de passageiros.

Detalhe “em-casa-de-ferreiro”…: enganei-me nas horas do voo, é às 11h e não às 11h30. Se já vinha a correr, agora cai-me tudo quando a menina do check-in me diz que já está fechado. Aqui, meus amigos, choro, berro, ajoelho-me, apelo a Deus, ao PÚBLICO, à Fugas, ao Turismo do Japão, uso todas as armas. Nem era preciso tanto, foi dos nervos. A menina sorri, percebe que é um voo de ligação para uma viagem algo dura (primeiro vou a Londres) e dá a volta ao sistema, até porque ainda faltam 50 minutos para o voo partir. Entre supervisora, profissional do check-in e seu colega a ajudar com as malas, tudo corre bem. Tirando que agora tenho que ir até à última (a última!) porta do aeroporto em minutos e ainda tenho que passar toda a segurança e cruzar o shopping center global. “Sabe onde fica Sacavém? Corra para lá”, diz-me a menina. Eu corro, eu voo. Chego à porta do avião 20 minutos depois, mesmo a tempo das portas se fecharem. O medo dá-te asas mas eu estou sem ar nem forças para mais nada desta vida.

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O voo para Londres serve para ler um livro que me faltava sobre o Japão. O delicioso O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey, da deliciosa colecção Literatura de Viagens da Tinta da China. Como sempre faço, procurei não me encher de dados e factos e lugares-comuns do Japão. Mais valem dez boas histórias de viajantes que cem listas de must-do. Gosto de chegar mais a pressentir do que a saber e depois no sítio aprender in loco e pôr à prova todo o meu background e preconceitos, senti-los a serem derrubados pela realidade. “Tenha cuidado, metade do saber é por vezes muito pior do que a ignorância total”, cita Carey no seu livo. Sublinho com a alma.

O voo de Londres faz-se num livro e aterro em Heathrow (ia escrever “no inferno”, mas era private joke só para quem conhece). Tenho menos de uma hora para correr para outro terminal e sentar-me no meu lugarzinho para Tóquio na Japan Airlines. Já descansei do stress lisboeta e agora estou pronto para o stress londrino. Há uma fila interminável no posto de segurança de transfers. O sono fez-me esquecer que tenho direito a uma fast track e só a meio me lembro. Enquanto um segurança vira costas, eu deslizo sobre as fitas com o mundo que teima em transformar todos os viajantes em gado nos aeroportos. Corro pela fast track e despacho-me num instante só para… ser parado no posto seguinte de segurança. Há um ovni qualquer na minha mala e isso vai-me fazer perder mais de 20 minutos num stress de final countdown. Já suo dos pés à cabeça quando me dá uma travadinha e começo a barafustar que me vão fazer perder o voo por causa da minha cara de terrorista! Um supervisor vem acalmar-me e dá prioridade à minha mala. Começo a aprender que uns bons gritos às vezes ajudam a acelerar os processos. E que bomba levava eu? O resto de uma pasta de dentes esquecida no fundo da mala, coisa que o UK não deixa passar com a facilidade do resto do Espaço Schengen (eu sei, devia ter tirado aquilo, é a vida, mea culpa). Agora tenho os minutos contados para apanhar um comboio para o terminal 5, onde, inferno-inferno, sei que tenho que apanhar outro para a minha porta. Este aeroporto dá-me sempre cabo dos nervos, confesso.

Chego à porta mesmo a tempo, quando o povo já está a meio da linha para entrar no aparelho. Descanso por fim do meu estado de nervos (nota: acelerado pelo facto de não ter conseguido fumar desde que saí do metro de Lisboa, e agora já sei que são mais de 12 horas sem um cigarrinho, é o que dá ser um drogado).

O voo é uma delícia, a comida também passa muito bem, o meu lugarzinho é económico e o espaço residual. Para 12h, aguenta-se bem, embora os nervos stressados dêem de si fisicamente. Voando para Tóquio, já sabemos, temos aqui a bela particularidade da diferença horária: saio às três e picos de Londres, aterro ao meio-dia em Narita. É obrigatório conseguir dormir e razoavelmente bem, porque, assim que aterre no Japão, começa outra vida muito activa. Lá está: é um trabalho de luxo mas às vezes dói e, embora a viagem seja custosa, assim que chegar, tenho uma agenda algo intensa à qual não posso fugir nem estar desatento (é um trabalho, sim – embora, claro, possa fingir aqui e ali e fazer umas sestas de cinco minutos na casa de banho, coisas que se aprendem).

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Uma bela viagem cruzando as horas, consigo dormir aos pedacinhos, nos intervalos das refeições e sumos e águas e snacks e afins. Quando me levanto do assento para sair do avião, os músculos (embora tenha feito as mui aconselháveis práticas de andar de um lado para o outro no aparelho de x em x horas) estão tensos como se fossem quebrar-se a qualquer momento. Apanho a mala e despacho-me para sair para o ar livre, nervos em franja por liberdade e fumo. Sou, já se está a ver, parado nas filas que parecem intermináveis da imigração. A placa diz que vou estar ali 45 minutos em pé, seguindo o resto do gado. Até avançará um pouco mais depressa que isso mas assim que chego ao meu agente, os meus sorrisos desaparecem assim que ele quer ver todas as minhas malas e sacos por dentro, inspecciona, pergunta, vê e revê. A minha paciência não está a ficar mais asiática nem alentejana a cada segundo que passa. O meu último olhar para o agente (estou aqui estou a passar-me, algo por aí) foi elucidativo e lá me despacho. Saio, por fim, para os meio-dias, agora nublados, de quase-Tóquio: falta ainda uma hora e muito de autocarro até à cidade. Salva-me a simpatia da minha guia, que está, porém, aflita com as horas, com a agenda, com o tempo. Há que correr para o hotel. Sim, porque depois desta viagem o que eu quero é correr pela cidade que nem um maluco.

Do alto de toda a sua simpatia (que é genuína, num português que muito deve a uns bons anos em São Paulo), Naomi dá-me uns 20 minutos para subir ao quarto, um duche, mudar de roupa, treinar o sorriso e a paciência. É o tempo que tenho e é assim que mal tenho olhos para o luxo da minha suíte e, especialmente, para uma das famosas sanitas-robot japonesas (estamos apaixonados). Este é o Keio Plaza Hotel e é uma cidade que nos abalroa antes até da cidade, nas suas torres, quatro dezenas de andares, um mundo – e um mundo em que se te enganas no elevador para o teu piso, acredita em mim, vais precisar de mapa.

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Vinte minutos, relax express. Toca a correr por Tóquio. Como se estivesse capaz disso, hei-de abrir os olhos de espanto pelas ruas desta metrópole reconstruída do pó depois da Segunda Guerra Mundial, onde quase 14 milhões de pessoas parecem ocupar cada centímetro a todas as horas. O dia ainda há-de meter um workshop de sushi com sushimaster de respeito, uma incursão por um centro comercial especializado em bonecos de culto – chama-se KiddyLand e da Hello Kitty ao Charlie Brown venha o fã e escolha –, aterrar num restaurante só para locais para devorar algumas delícias japonesas, da tempura de lembranças lusas a mais sushi e saladas e até, antes de fechar os olhos, ver a cidade faiscar à noite em neóns de filme e até enfiar uns óculos de realidade virtual no edifício high tech da Nissan e conduzir com a mente (enfim, com movimentos do corpo), um supercarro pelas curvas de Monza. Mas isso são contas de próximos rosários. O que lhes digo é que quando caí na cama, acreditem, já nem sabia a quantas andava, estava para lá do Japão.

Mas, ei, ninguém se está aqui a queixar, só a viver para contar. Como dizia, é um trabalho de luxo, mas alguém tem de fazê-lo.

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A Fugas viaja a convite do Turismo do Japão

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