Eles andam entre as gotas da chuva

São Petersburgo, Hermitage - Foto de Adriano Miranda

Há uma certa aura de mistério em São Petersburgo. Uma névoa fantasmagórica que, mesmo não se vendo, parece cair como um véu sobre a cidade, alterando tempos, geografias, personagens, climas. Uma certa magia, talvez; definitivamente dramática (bom dia, sr. Dostoiévski), quase absurda (bom dia, sr. Gogol).

Olha-se nos olhos de São Petersburgo e ainda assim não se a apreende, há sempre um contorno que parece escapar-nos. Rasputine, morto aqui mais do que uma vez, devia saber disso. Os czares, os grandes e os pequenos, os nobres, os sovietes, os novo-democráticos. É talvez a sua origem pantanosa, as suas águas por todo o lado, o seu rio Neva, a sua espartilha em canais e ilhas, a ajudar a essa personificação imperial, sobranceira, que se veste de Roma e Vaticano, de Paris e Viena, de luz do Norte e Versalhes, raramente de Moscovo.

Novíssima de três séculos, São Petersburgo é assustadoramente sedutora. Palácio atrás de palácio, museu atrás de museu, detalhe após detalhe, a cidade brilha até quase ofuscar tanto quanto as cúpulas de algumas das suas igrejas ou das suas caixas de jóias. Mas a desmesura das suas catedrais, o complexo de gigantismo do museu Hermitage, o braço de Lenine levantado no ar frente à Estação Finlândia onde chegou para lançar revolução, a ostentação que se respira por todo o lado podem ser só detalhes.

Para sentir em todos os poros da pele que São Petersburgo é realmente um mistério basta, como nos aconteceu, correr para a protecção da copa de uma grande árvore num qualquer jardim assim que caia uma chuvada à São Petersburgo (no nosso caso, gotas gordas e geladas como balas vindas em nortada apesar de Junho).

Aconteceu-nos ali mesmo no centro da cidade, quando dos distraíamos a deambular à descoberta. A chuva cai, nós corremos para a protecção do teatro Alexandrinsky, o Pushkin, ele próprio sob a bênção lá no alto de Apolo e seus cavalos. A chuva pára, nós corremos para o jardim onde se ergue nas alturas a estátua a Catarina a Grande com seus dignitários, e nós também, aos pés. A chuva recomeça e nós descobrimos que as árvores aqui são chapeús-de-chuva.

E ali ficámos, mesmerizados, a ver as pessoas passarem indiferentes à água. A rapariga de gabardine sentada no banco de jardim com um chapéu de chuva aberto enquanto come um corneto. A mãe que empurra o carrinho de bebé vestido todo ele para a chuva. O rapaz-galã, alto loiro espadaúdo, um príncipe que passeia de mãos nos bolsos ao ritmo das gotas. Depois haveremos de ver esse desfile por toda a cidade, pelas margens do Neva, pelos subúrbios enlameados, pela praça de oiro do Hermitage. É impressão nossa ou parece  que não se molham?

Sim, o verbo chover, aqui, não deve ser impessoal. O povo deve ter aprendido a arte de andar entre as gotas da chuva.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu.

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