Percursos sinuosos: de Ponta Delgada a Povoação; da construção civil às esculturas públicas

PP - 05 ABRIL 2016 - AÇORES - ZONA DA CALOURA

De Ponta Delgada a Povoação a nossa viagem não foi linear. Começamos pela costa avançando inexoravelmente à beira-mar, fugindo à via rápida. Primeira paragem na Caloura, conhecida pelo microclima, para descobrir que a praia tem a areia substituída por rochas, provavelmente caídas das escarpas que a rodeiam. “Não há-de faltar muito para que o mar traga novamente a areia”, dizem-nos os locais.

PP - 05 ABRIL 2016 - AÇORES - ZONA DA CALOURA

Mais à frente – que aqui não é linear, significa subidas e descidas, curvas e contracurvas bordadas por pequenos muros com o topo caiado ou casas à beira da estrada –, o porto de pesca, uma reentrância à sombra de uma falésia, muito calmo, a manhã não vai a meio e com um azul turquesa por ancoradouro natural. Vinde Jesus ao Mundo, Estrela de Fátima, Jesus Vem Comigo, Paixão de Cristo e o “ateu” Rosário-Maria são barcos em terra.

Há quem pesque à linha no fundo do pontão, ao lado da piscina vazia, com um balde vermelho ainda a encher sob a ameaça de a mulher não o deixar entrar em casa: peixes-rei há muitos, rocazes alguns, o peixe-sapo é prontamente reenviado à água, retirada a minhoca-isco, comprada a 3,75 euros a caixa. “É venenoso”, dizem-nos os observadores, pescadores de mar alto que hoje ainda não saíram. O pescador à linha reformou-se dessas lides, tem os filhos emigrados e pesca por desporto – e vício de uma vida dedicada à faina na freguesia mais cara de São Miguel.

PP - 05 ABRIL 2016 - AÇORES - VILA FRANCA DE CAMPO

Na Vila Franca de Campo e do seu ilhéu “do” Red Bull Cliff Diving (que no resto do Verão é procurado pelas piscinas naturais, na cratera de um pequeno vulcão sobretudo, e pelos curtos percursos pedestres), também subimos até à paz, da Ermida da Nossa Senhora da Paz, cujo estacionamento fica rapidamente preenchido por táxis e carros de turistas, alguns dos quais voltaremos a encontrar.

PP - 05 ABRIL 2016 - AÇORES - ESCADARIA NOSSA SENHORA DA PAZ

Deixamos a costa para entrar pelo verde-mais-verde de São Miguel, com passagem pelo Vale das Furnas (onde iremos “a sério”, hoje foi de passagem – com direito a regresso breve para almoço: sim, o cozido), para chegar a Povoação. O nome não tem mistério: aqui aportaram os primeiros povoadores da ilha. E aqui aportou João Moniz, percurso nada linear até se tornar escultor pago pelo programa Recuperar, para desempregados. Natural da vizinha Ponta Garça, deixou a escola durante o 6.º ano e não olhou para trás – “A vida não é sempre fácil”. Trabalhou dez anos na construção civil até que deixou de ter emprego. Passou a dedicar-se (quase) exclusivamente à escultura, em que é autodidacta desde os 13 anos (tem agora 29).

PP - 05 ABRIL 2016 - AÇORES - ESCULTOR JOAO MUNIZ NA ZONA POVOAÇÃO NO SUL DA ILHA

Encontramo-lo junto da sua mais recente obra, ainda sem nome – “será a câmara a dar” – ao lado do porto e num pontão que já tem um outro trabalho dele: uma alegoria aos primeiros descobridores, lê-se no painel informativo. É um homem a disparar um canhão, como aqueles que ainda se lembra de ter visto por ali, pertencentes ao já desaparecido forte de Povoação, muito assolada pela pirataria como toda a costa sul da ilha. “Faltam uns retoques”, afirma, depois de cinco meses de trabalho que começaram com um tosco desenho, “apenas para determinar a posição do homem”, numa folha dobrada que ele vai buscar ao carro para mostrar. “Tudo o resto foi saindo” à medida que ia trabalhando o ignimbrito, “pedra dura, não é fácil”. Que saiu do porto ali ao lado, quando fizeram obras há pouco tempo.

PP - 05 ABRIL 2016 - AÇORES - ESCULTOR JOAO MUNIZ NA ZONA POVOAÇÃO NO SUL DA ILHA

João Moniz também trabalha em madeira, com motosserra, e os bancos nas Furnas, no parque das caldeiras, onde se cozinha o célebre cozido, mas também caldeirada de bacalhau, arroz doce e até pudins, são da sua autoria. “Havia também esculturas, mas despareceram antes de lá chegarem.” Quando terminar esta obra, já está a pensar no que fazer com a enorme rocha que está no mesmo pontão de Povoação que termina numa área onde estão uma âncora e uma hélice de um cargueiro que aqui encalhou em 1977 (entre os dois há outro monólito há espera de ganhar forma). Um cachalote e uma bússola estão na mente do artista à espera de reconhecimento, que recebe algumas, poucas, encomendas privadas. “Como um canhão de pedra de 2,58 metros.” Está preparado para tudo. Para voltar à construção ou até para emigrar. O que é preciso é trabalhar, diz, no seu sotaque cerrado.

Andreia Marques Pereira (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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