São ananases, senhor

PP - 04 ABRIL 2016 - AÇORES - PONTA DELGADA ZONA HISTORICA PLANTAÇÃO DE ANANAS

Se chegamos a São Miguel ao início da tarde e as câmaras que dão imagem em tempo real nos dizem que a Lagoa das Sete Cidades e a Lagoa do Fogo estão cobertas de neblina, o que fazemos? Vamos ao plano b e exploramos Ponta Delgada.

Começamos a alguns quilómetros do centro, na Fajã de Baixo, para ver ananases. Nada de anormal se considerarmos que os ananases dos Açores são considerados dos melhores do mundo – e o fruto mais emblemático do arquipélago e, particularmente, de São Miguel, a sua maior ilha. É assim que nos vemos rodeados de estufas brancas, baixas, compridas, com telhados inclinados, tudo recoberto de vidros pintados com cal.

Estamos na Quinta Augusto Arruda, uma das duas plantações visitáveis da ilha (a mais antiga e maior de todas), e a tranquilidade é imperturbável. Apenas um funcionário limpa os telhados das estufas, abertas à curiosidade dos visitantes, mesmo quando as portas estão fechadas: basta abri-las, espreitar e entrar – isto para quem tiver capacidade de aguentar as temperaturas altas: é difícil imaginar o calor quando chega o tempo da apanha, a partir de Junho, diz-nos Sandra Soares, da Delegação do Turismo de São Miguel, nossa guia, que até sabe do que fala porque o seu avô tinha plantações e ela ajudou muitas vezes.

A história dos ananases dos Açores é quase acaso porque eles chegaram ao arquipélago como planta ornamental, vinda da América do Sul, em meados do século XIX. Ninguém imaginava que ela se tornasse símbolo da exportação nem tão-pouco que se comesse. “Descoberto” o fruto, a sua produção com carácter comercial começou logo na década de 1860 e rapidamente chegou aos EUA e ao resto da Europa. O que até veio a calhar, findo que estava o ciclo da laranja que no século XVIII veio trazer riqueza à ilha – muitas das casas solarengas que veremos pela ilha são mesmo frutos da laranja. A gomose acabou com ele e o ananás, juntamente com o chá e o tabaco, foram as alternativas encontradas.

Mas aqui o ananás não é uma dádiva da natureza, como na América Central e do Sul, de onde é originário. O trabalho é árduo e são necessários 18 meses para se conseguir “o” ananás dos Açores. Que depois é ainda utilizado para sucedâneos como o licor, as compotas, os chutneys e pimenta da terra. Não estamos nos trópicos, mas à beira dos ananases até parece que sim.

Andreia Marques Pereira (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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