O Caldeirão é mágico mas nós também

Caldeirão sob nevoeiro. Corvo, Açores. Foto: Enric Vives-Rubio

Nós sabemos, é de uma beleza primordial esta caldeira no topo do vulcão que se abre aos olhos e aos postais ilustrados como uma metáfora de um qualquer éden, resplandecente em verdes, em terra e céu e água. Nós sabemos que é a coroa desta pedra preciosa arisca e viva que é a ilha do Corvo, 17km2 de terra vulcânica erguida do mar entre ventos, agruras e benesses. Nós sabemos que o Caldeirão – que a enciclopédia do Geoparque estipula em 2,3×1,9 km de diâmetro – é um regalo para a alma e até para o corpo, que entra pelos olhos adentro e que depois por ali fica para sempre a alimentar-nos os sonhos. E até sabemos que um passeio dentro do Caldeirão só pode ser igualmente eterno, entre as suas lagoas e “ilhotas”, vegetação, tufos e “cones de escórias, salpicos de lava”. E, vá, temos que admitir, é um cenário não só para sentir até às veias como também para fotografar até ao limite possível. É por isso, até, que sabemos isto tudo, com fotos lindas ao pôr do sol, mais que perfeitas entre flores e raios de sol, de cromatismos delirantes, figuras orgânicas divinas, reflexos insuportáveis.

Ora, sabendo isso tudo, sabemos também, não só por outros relatos como, agora, por real experiência própria, que no Caldeirão quem manda é o Caldeirão. Tanto pode esconder-se como se não existisse como pode surgir no seu esplendor. Já o sr. Manuel Rita, do Comodoro, onde estamos a dormir, nos dizia e repetia, sempre olhando para cima – que pela nossa janela estamos sempre a subir os olhos para o Caldeirão: “Nunca se sabe, tanto pode estar coberto como abrir de repente”. Essa é a incógnita consubstancial diária: se o Caldeirão abre ou não abre.

Caldeirao com nevoeiro na Ilha do Corvo , Acores . Corvo , 04 de Abril de 2016 . ©Enric Vives-Rubio

O presidente da câmara, José Manuel Silva, também já nos tinha dito que também era capaz de não valer a pena. Mas conversa puxa conversa e acabaria por dar-nos uma simpática boleia até ao topo do vulcão, numa estrada de uns 6km que serpenteia da vila até ao Monte Gordo onde se abre o Caldeirão e se ergue no rebordo sul deste, o ponto mais alto da ilha, uns singelos 718m. Foi como subir do sol para dentro de uma nuvem. De um dia de quase Verão, o Corvo subiu-nos até ao mais cinzento dos dias. Pelo caminho, foi-nos também subindo a beleza açoriana, serpenteando-nos entre os campos verdes demarcados por cercas de pedras, as casas agrícolas de rocha vulcânica, o mar, o mar, o mar. E, claro, as rainhas, as senhoras vacas em todas as suas variações açorianas.

Chegados ao Caldeirão, a tal desilusão: este apresenta-se envolto por um manto pesado que não nos permite ver mais que uma cortina de aço; e por ventos de uma fúria tal que quase agradeço estar gordinho q.b. para não ser levado por alguma rajada mais bíblica.

Ilha do Corvo , Acores . Corvo , 04 de Abril de 2016 . ©Enric Vives-Rubio

É assim que, nada vendo mas tudo sentindo, descobrimos que, sim, o clímax pode não ser o Caldeirão. É a viagem. “Para gostar dos Açores é preciso imaginação”, já nos dizia o presidente José Manuel, que há-de ainda indicar-nos, em substituição do Caldeirão mágico, um trilho pedestre, o da Cara do Índio, por onde nos aventuraremos uns quilómetros até à beira-mar. Havemos de refazer os caminhos, perdermo-nos por entre os trilhos, mergulhar na banda sonora de verde, vento e passarada.

E, havemos, acima de tudo, de voltar a repetir a viagem até ao Caldeirão. Enquanto pudermos, não vamos desistir. Não percam as cenas dos próximos capítulos: ou o Caldeirão abre ou abrimos nós.

Ilha do Corvo , Acores . Corvo , 04 de Abril de 2016 . ©Enric Vives-Rubio

Luís J. Santos (texto) e Enric Vives-Rubio (fotos) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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