– I’ll punch you in the face

1I’ll punch you in the face.
Vi a minha vida a andar para trás, mas o Inácio Rozeira não.
A história é simples: nós queríamos entrar em Mahalaxmi Dhobi Ghat, um bairro-lavandaria onde, disse-nos depois o Bali, vivem duas mil pessoas e trabalham seis mil. É lá que se lava grande parte da roupa de Bombaim, vem roupa de todo o lado, até do hospital, contaram-nos já lá dentro. Como regressa peça por peça aos proprietários é um mistério tão grande como a data exacta da construção das grutas da Ilha Elefanta, que visitámos hoje de manhã. E como regressa intacta também, há t-shirts feitas cá que têm na etiqueta: avoid Dhobi Ghat.
I’ll punch you in the face.
Ele repetia ameaças ao Inácio, levantava o punho e eu continuava a ver a minha vida andar para trás. A história é simples: há turistas e depois há grupos que controlam e ganham dinheiro com entradas no bairro. Mas nós não queríamos entrar com este mafioso que nos ameaçava, queríamos entrar com outro, o Bali, a quem o Inácio lá conseguiu ligar e, pronto, acabou tudo bem. Mas eu vi a minha vida andar para trás. Já vos disse que o Inácio fala inglês à indiano? Sabe tudo sobre a Índia, ainda que a todas as perguntas responda:
– A Índia? A Índia é o melhor país nisso.
Bom, lá visitámos o bairro-lavandaria e agora estamos a ver o pôr-do-sol na praia de Chowpatty, o mar Arábico à nossa frente. Já vos disse que estamos sempre a ver o pôr-do-sol na Índia? Ia dizer que este é o último que vejo cá, amanhã a esta hora estou quase a chegar à minha rua, mas eu sei lá se é mesmo o último.
2Ontem fomos festejar os meus anos, dançar bollywood music. Precisava de ter bebido o dobro do gin para ter feito boa figura e, sobretudo, para enfrentar a vergonha de ouvir o Happy Birthday à meia-noite no meio de uma discoteca em Bombaim. Foi o Inácio que pediu ao DJ, claro.
Ia dizer que este é o último texto que escrevo na Índia, mas ainda temos uma noite pela frente, eu sei lá se é mesmo o último.
O sol já se pôs. Amanhã a esta hora estou quase a chegar à minha rua, a minha rua também tem um bocadinho de Índia.
Quando cheguei cá, a primeira coisa que perguntei foi como se diz histórias. Agora, devia perguntar como se diz fim, mas essa seria a única pergunta à qual o Inácio não poderia responder:
– A Índia? A Índia é o melhor país nisso.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>