Ao meu lado estavam estes olhos

ao meu
Nos corredores do comboio, durante as viagens, aparece muita gente; na Índia há sempre mais pessoas do que lugares. Aparece quem se conhece, quem não se conhece e quem se passa a conhecer por uma hora ou duas. Há quem ande há meses em viagem pelo mundo. Depois desta madrugada, só quero saber como vai ficar o romance que começou num retiro de meditação e silêncio.
– Então, mas como é que se apaixonaram se não podiam falar?
– Só não podíamos falar.
Não deixa de ser engraçado que quem anda à procura de se encontrar venha para a Índia. A maioria dos sítios que visitei até agora são tão caóticos e confusos que eu não conseguiria encontrar nada, nem a mim nem a ninguém. Hoje, só para encontrar o meu lugar no comboio percorri duas vezes a carruagem. Já de dia, sentaram-se na minha cama a Samprada e a mãe. Era feriado na terra delas, também iam passear a Agra. A Samprada era só curiosidade e timidez. Tem 17 anos, quer estudar informática, faz-me perguntas difíceis:7
– Gostas da cultura indiana?
Foi ela quem me avisou:
– É agora Agra.
À saída do comboio, disse-me:
– You’re a nice person.
Pronto. Agora sim, eles já podem dizer que estou apaixonada. Pelos olhos escuros da Samprada, pelo sorriso da mãe, que sorriu a manhã toda porque não fala inglês, e pelo Taj Mahal. É tão bonito. Shah Jahan, que foi aprisionado pelo filho num quarto do forte de Agra, morreu a olhar para ele. Eu também me sentei num banco a vê-lo. E ao meu lado estavam estes olhos a fazer o mesmo.

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