A primeira coisa que perguntei a Bunty Sharma

A primeira coisa que perguntei a Bunty Sharma, a quem chamo Sr. Bunty Sharma, foi como se diz histórias. A nossa rua em Nova Deli está cheia delas, é só confusão, buzinas, tendas. São todas assim. Todas estreitas e em todas cabe tudo. Entrei num cubículo que não tinha um metro quadrado, onde vive um homem santo, com uma barba e 75 anos. Não percebi nada do pouco que me disse, ficámos ali calados. Podia ter tirado uma fotografia, ele não se importava, mas ele não se importa com nada e isso fez-me importar a mim. Não consigo fotografar nada. Há tanto barulho, tantas cores e cheiros, ando sempre distraída, é uma sorte não ter sido atropelada. No hotel também se faz tudo: fuma-se, reza-se, há um pequeno templo. Estou no corredor à espera que limpem o quarto, vejo toda a gente a fumar, fumo também.
India MJL NDeli 1– Onde deito a cinza?
– No chão.
Depois trouxeram-me um cinzeiro ao quarto. Não estou em casa, mas estou bem assim. O quarto tem uma ventoinha no tecto, gira, gira, gira, faz barulho. A janela dá para a rua. Nos cafés e restaurantes, espreitei os jornais todos, perguntei se tinham guardado alguns dos dias anteriores. Enquanto os folheava, contei ao Sr. Bunty Sharma, que é dono do restaurante, a história do nosso novo primeiro-ministro e da sua origem goesa. Disse-me a brincar:
– É jornalista.
Depois perguntou-me a sério:
– O que faz?
– Sou jornalista.
Foi o Sr. Bunty Sharma quem me ensinou:
– Histórias diz-se kahani.

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