Narva, o extremo híbrido

A Estónia é uma coisa; Narva é outra. Tanto assim é que quando pisamos a cidade-mistério, María recebe uma mensagem no telemóvel – “Welcome to Russia [Bem-vinda à Rússia]!” – ainda que não tenhamos atravessado a fronteira. No extremo oriental da União Europeia – e um dos locais mais perdidos da ex-soviética Estónia –, a vista sobre o rio limpo desafoga no outro lado, em Ivangorod. Na única semana de Verão vivida este ano nestas latitudes, segundo os locais, o passatempo é esse: ficar a olhar, com uma cerveja na mão, o outro lado, que na verdade pode muito bem não ser outro, mas o seu.

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A confusão não é só no texto. Masha, 28 anos, arquitecta paisagista e designer gráfica, não sabe bem o que dizer quando lhe perguntamos a nacionalidade. “Sinto-me russa, mas na verdade, quando vou à Rússia, vejo que eles não têm nada a ver comigo. Sou europeia.” Fala russo, estónio (os pais, de etnia russa, nasceram na Estónia quando o país ainda fazia parte da União Soviética. Na adolescência, Masha realizou os exames de língua e cultura de acesso à cidadania estoniana) e inglês. O nome varia de Masha para Maria, para facilitar entendimentos, personalidades, identidades.

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Narva é um pouco isto: o último lugar da linha, onde se ouve mais de 80% de russo; o hip-hop salta de janelas em andamento; a ponte é cruzada por centenas de vistos diariamente; contrabandeia-se; há pobreza, “desidentidade” e droga – os pais de Masha construíram aqui o primeiro centro de reabilitação para toxicodependentes do país. E é neste último lugar, também, que vive uma parte significativa dos 84 mil apátridas da Estónia, sem direito a voto, como o irmão de Masha, que se deixou ficar pelo passaporte cinzento e entretanto emigrou. Como constata Jaanus Villiko, presidente da administração do Colégio da Universidade de Tartu, “muitas pessoas vão embora daqui, principalmente os jovens, que não vêem futuro na região” pouco apoiada pelo Governo. Todos os fundos vão dar a Talin, a capital e verdadeira montra da ocidentalização (com inspiração norte-americana incluída) do país que sonha ser a nova nação escandinava.

Há quem, ainda, consiga ter as duas nacionalidades – russa e estónia –, “mas não é legal”, garante Masha (ou Maria). A divisão faz-se entre o que se sente ser e o conveniente: para quem quer ser europeu, pensar num futuro ligado aos negócios, com facilidades de implementação empresarial (o país tem apostado fortemente na ideologia start-up, sobretudo no ramo das tecnologias de informação), a Estónia é o lugar. Do outro lado, “tudo é mais difícil”. “Para se viver na Rússia, tem de se ter um carácter forte e estar preparado para problemas”, resume a arquitecta. O que vai acontecendo em Narva é que “basicamente toda a indústria olha para São Petersburgo [a cerca de 200 quilómetros], quer fazer negócios com eles”, nota Jaanus, “porque é onde está o dinheiro”, complementa Masha. “Mas não podemos ir para lá”, remata Jaanus.

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O passeio descomprometido em Narva mostra um pouco de tudo isto. Comparativamente a Talin, aqui, os edifícios de arquitectura contemporânea são raros – a universidade será uma das escassas viragens de Narva para o design europeu. As notas gráficas da cidade que perdeu o seu centro histórico durante a II Guerra Mundial são blocos soviéticos em sequência mecânica, linhas de comboio, o forte, o grande castelo a olhar o “inimigo” e o longo complexo de Krenholm (encerrado ao público) – um cemitério fabril que impressiona mas do qual ninguém sabe bem o que fazer. “Esperamos que, no futuro, seja possível visitar tudo isto”, comenta Jorma Sarv, nosso guia e organizador do comité Estonia 100 (em 2018, ano em que presidirá a União Europeia, a Estónia completa 100 anos sobre a proclamação da república).

A única peça viva da Narva antiga é a Catedral (ortodoxa) da Ressurreição de Cristo, na rua Bastrakovi. Era aqui o centro da vida social, onde se encontravam sobretudo operários das fábricas de têxtil (no complexo de Krenholm, funcionava um dos maiores moinhos de algodão do mundo). Nos anos de 1940, a catedral foi transformada em hospital, período em que sofreu uma grande transfiguração pelas balas e estilhaços da Batalha de Narva.

Enquanto seguimos junto ao rio, Masha sobe ao longo da muralha. Os pés que um dia percorreram França e Inglaterra para estudar e conhecer novos mundos, circulam agora tranquilos em Narva, com uma missão, sem vontade de partir. É que a Europa é uma coisa e a Estónia ainda é outra. “Aqui há espaço para trabalhar, para criar, há muito para fazer”, acredita.

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Rute Barbedo (texto e fotos) viajou no âmbito do programa “100 Friends”, promovido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Estónia

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