Na Corunha, nosce te ipsum. E depois almoça

P1014764IMG_8511IMG_8484Domus. Casa. Não uma qualquer. É a Casa do Homem, “primeiro museu interactivo do mundo dedicado ao ser humano”. E não foi feita por um homem qualquer. Foi desenhada por um dos maiores arquitectos vivos, o japonês Arata Isozaki. Que, ainda por cima, tem o condâo de humanizar brutalmente as suas construções sob o primado dos materiais e formas locais. O prédio impõe-se frente ao mar, no longo longo (e bonito bonito) passeio marítimo d’ A Corunha, como uma vela enfunada pelo vento, erguida num “navio” de rocha. Literalmente. É que a rocha faz parte da estrutura do edifício e serve-lhe também de parede, naturalmente húmida e limosa aqui e ali. Como se o prédio fosse ele mesmo um ser vivo que por acaso a rocha deu à luz e que cresceu para se tornar o filho lindo da sua mãe. O granito é a sua essência quase total, rasgado a janelões na base e de fachada corrida a milhares e milhares de peças de ardósia. É esta a pele da Domus, a Casa do Homem.

Lá dentro, o espaço expositivo não surpreende tanto quanto o esqueleto arquitectónico, traçado a grandes aberturas, ligações, interligações e corredores verticais. Ainda assim, há diversão didáctica por todo o lado – e peças marcantes das mais diversas áreas. É que o Domus, que tem por mote “Nosce te ipsum” (latim para ‘Conhece-te a ti mesmo’, IMG_8489aforismo registado por Platão na filosofia grega), reparte-se por umas duas centenas de pontos relacionados com a Inteligência, a Genética e a Evolução. Querendo ser um museu interactivo (atenção ao slogan: “é proibido não tocar”), tão científico quanto pop (e acessível: 2 euros), dá-nos logo dois sinais de que é possível ser sério sem deixar de brincar. Há logo sexo e cinema: lembra-se Marilyn Monroe de saia a subir com mãos de vento. Há logo vida e morte, pensamento e arte: um esqueleto azul sobre pedestal de estátua em posição d’ O Pensador de Rodin.

Por todo o lado há informação e há “brincadeiras”: são dezenas de jogos, aparelhos, instrumentos de medição, etc., etc., tudo posto à disposição para usarmos. Podemos medir-nos de todas as formas e feitios (“52kg de água no meu corpinho? Estão a gozar comigo!”), analisar o David de Michelangelo, ver um vídeo muito realista de um parto ou pôr as mãos sobre a barriga de uma mãe-modelo para sentir como um bebé se mexe e dá pontapés (por acaso este robôzinho estava meio avariado e ao reproduzir pontapés acrescentava um barulho mecânico mais próximo do que faria um filho do King Kong. “Errare humanum est” já dizia o outro).

IMG_8500IMG_8497IMG_8498O passeio pela Domus, que estava cheio de famílias e crianças, permite até mais coisas. Entre as que nos divertiram mais (escolhas muito pessoais, claro), deixem-nos assinalar a foto de família que tirámos com primos como um neanderthal, um erectus ou um australopiteco. Ou o momento dos penáltis: chuta a bola para a baliza que a parede medirá a tua energia; a nós correu-nos muito mal mas a culpa foi das botas (um), da total falta de jeito (outra), do sono (outra); o certo é que a parede foi muito insultuosa em termos de medição das nossas energias. Ou também a subida por um corredor entre pisos que é feita ao som do bater de um coração e que termina precisamente num grande coração em madeira onde podemos ficar a latejar como se tivéssemos voltado à barriga da nossa mãe.

E por falar em barriga, mesmo quem queira deixar o museu de lado, não perde nada (tirando umas boas dezenas de euros) em apostar no Domus para comer. Sentados no terraço fechado a vidro, entre a vista do mar e o seu contínuo reflexo, a nós saiu-nos um menu de degustação de arromba, dos que vão beber nas raízes e produtos locais a sua essência e depois se atrevem a umas modernidades e fusões mais cosmopolitas.

IMG_8449IMG_8450 P1014768Isto significa, por exemplo, um Creme Leve de alho-francês e sua brandada de bacalhau que chega em chávenas de café, um sugoso carpaccio de touro com raspas de parmesão, uma Tosta de torresmos, queijo de Arzúa e cebola caramelizada, ou um salmão marinado e uns “Tigres Rabiosos”, tapa tradicional de mexilhões mais ou menos picantes, óbvia especialidade local, explosivo sabor Atlântico. Como se houvesse espaço (e houve), ainda veio um canelone “de mar” (quase) afogado num molho cremoso de ouriços do mar, colorido por um grande e macio camarão, abraçado por uma perna de polvo. Agora remate isto tudo com uma tarte de merengue e limão com gelado de iogurte negro acompanhado por um orujo galego de estalo (a razão para o estalo é que o orujo é um bagaço daqueles e este era mesmo daqueles).

E por que tem esta Casa do Homem este restaurante tão apetitoso? Porque o seu chefe também poderia ser uma peça viva do museu interactivo. Eduardo Pardo é filho de Ana Gago, uma respeitada cozinheira galega de mão cheia, e de Eduardo Pardo, donos da Casa Pardo (que até durante 14 anos luziu uma estrela Michelin), sítio afamado e estimado com meio século. P1014770Até mais: “Sou a terceira geração de cozinheiros” da família, sorri-nos Eduardo Pardo. E na ementa, apesar de ter muito mais para oferecer, até destaca duas especialidades incontornáveis: o tamboril cuja receita vem do outro restaurante e os croquetes também criados pela sua avó há muitas décadas (chamam-se mesmo Croquetas Casa Pardo 1951), uma delícia que se derrete na boca e que basta provar para perceber que podem ser altamente viciantes. “Fazemos uma cozinha de produtos locais, do mar, de temporada, mas com piscar de olho a outros lugares”, resumirá enquanto conversamos no corredor do restaurante. “Mas simples, sem disfarçar demasiado as coisas”, afiança. “Para mais somos muito marcados pelo edifício, que é potente. Tentamos navegar entre tudo isto.” No restaurante deste prédio-vela, quando fizer a humana passeata até à casa de banho, aproveite para apreciar uma das partes mais bonitas do projecto: a parede do corredor é pura rocha bruta.

Um conselho: se for primeiro ao restaurante e depois ao museu, salte alguns dos aparelhos de medições, especialmente a balança… Aposte antes em, cá fora, tirar uma foto ao lado de uma estátua de bronze criada por Botero. É que é um soldado – como é apanágio do artista – muitíssimo rechonchudo. E sendo a Corunha terra de muito bom humor, constou-nos que há diversas piadas que envolvem este gordo defensor. Para não ferir susceptibilidades, deixamos a cada viajante o prazer de descobri-las in loco. Só não resistimos a adiantar que pelo menos uma das piadinhas envolve a pilinha – por pequenas e óbvias razões – deste soldado da Casa do Homem.

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Luís J. Santos e Carla B. Ribeiro n’ A Corunha a convite dos hotéis Íbis e do Turismo da Corunha

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