O olhar de Hércules, 242 degraus depois, 242 degraus antes

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P1014703E então, o grego Héracles, filho de Zeus e de Alcmene, chegou à Corunha em beleza e força, humanidade e divindade. No corpo, trazia inscritos 12 trabalhos. Debaixo do braço, trazia o resultado de um deles, a cabeça do gigantíssimo Gerião, tirano que tiranizava a valer o povo da região, obrigando-o a pagar em impostos a metade das suas posses e até a entregar-lhe os filhos se ele para aí estivesse virado. O povo pediu ajuda a Héracles – a quem para facilitar chamaremos a partir de agora Hércules tal como nos manda a latina mãe – e este foi logo a correr, salvando o povo de Brigâncio e o mundo em geral. Lutaram três dias e três noites e a história teve final feliz. Hércules cortou a cabeça ao estuporado polvo e decidiu enterrá-la ali naquela ponta da Ibéria. Para marcar a vitória, construiu uma torre e fundou uma cidade, a que deu o nome de Crunia, a habitante primordial e sua amada. Quando o(s) trabalho(s) o obrigou(ram) a partir, deixou o seu sobrinho Hispán como senhor destas terras, que terminou a torre com um fogo que nunca se apagava. Uma torre-ciclope a correr de luz os mares e a iluminar o caminho dos marinheiros pela costa, mais perigosa ainda que o costume por causa de um batidíssimo Atlântico e dos baixios.

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Ao pé desta verdade histórica (contada ainda com mais detalhe pelo rei Afonso X no séc.XIX na Estoria de Espanna), tudo o resto que possamos acrescentar sobre a Torre de Hércules, o único farol erguido pelos romanos que continua em actividade, monumento nacional, Património da Humanidade, luz da Galiza, BI e ícone d’ A Corunha, é pouco. Mas saliente-se o detalhe “luso”: terá sido projectada no séc. I por um arquitecto de Conímbriga chamado Gaio Sevio Lupo,
– Só como nota de rodapé, diga-se que este monumento com mais de 2 mil anos de história, construído ao que tudo indica em território sagrado celta, foi alvo de várias recuperações ao longo dos séculos, além de uso obviamente político, como o de servir de elo mitológico de ligação de Hércules à monarquia espanhola.

Omnipresente ao olhar de toda a cidade d’ A P1014760Corunha e de visita turística e cultural obrigatória, mais se diga que a torre obriga a escalar 242 degraus, única maneira como se deixa conquistar, oferecendo um panorama de encher o olho e iluminar o espírito.

Vale a pena tanto o passeio em redor (há trilhos pelo espaço verde do parque que protege a torre e que inclui percurso escultórico com diversas peças) como a subida circular pelo seu interior, acompanhando as lições arqueológicas e históricas dispostas de alto a baixo. São 55m da altura da História, uns 35m deles correspondentes à construção romana, uns 21m devedores da recuperação e modernização realizada no séc. XVIII.

 

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P1014756Lá de cima, o melhor é não pensar, muito menos na História, seja passada presente ou futura. Não é preciso, que ela, de estarmos aqui, já nos percorre todo o corpo. É melhor deixar só passear o olhar. Abrem-se-nos os olhos de mar e céu enquanto seguimos a costa da Corunha delineada a baías e enseadas, a portos e praias, e vemos lá em baixo as formigas humanas a encaminharem-se pelos trilhos rumo a uma colorida (e moderna) Rosa dos Ventos. Sopra uma brisa leve e borrifam-nos umas gotas de chuvinha de vez em quando mas o frio não assusta, o céu de chumbo cinza ainda assim deixa-se entrecortar por linhas de azuis e brancos. E as gaivotas, senhoras da Corunha, vão-nos dando música e asas.

Agora, só precisamos de uma revigorada e hercúlea força para retomar o quotidiano (e repetir os 242 degraus…). Pelo caminho, encontramos uma das assistentes da torre que nos intervalos do trabalho vai lendo na sua sala um livro que tem um título escolhido a dedo, Neverwhere (Nuncaonde), uma história de Neil Gaiman que é uma série fantasista de tv passada entre dois mundos, o normal de uma Londres de Cima e o mágico de uma Londres Subterrânea. A jovem assistente lê o seu livro no piso térreo da sua torre de Hércules. Isto, já se sabe, tudo depende da perspectiva.

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Carla B. Ribeiro e Luís J Santos na Corunha a convite dos hotéis Ibis e do Turismo da Corunha.

 

 

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