Uma sereia no mercado

P1014652Em terra onde o mar faz parte da terra, não há que enganar: peixe, peixe, marisco, marisco. Logo, em passeio pel’ A Corunha da costa galega, é de não falhar este vivo museu marinho, o mercado da praça de Lugo. Assim que se entra é uma festa. Da riqueza do que se apresenta pelas bancas à diversidade da oferta e ao carisma de quem ali vende há muitos, muitos anos.

Não é só o sorriso de Bea que parece encher o mercado, há ali sabedoria mas também um chamamento de sereia. Bea trauteia uma canção que não conseguimos perceber bem mas que nos atrai logo à sua banca.

Olá, posso tirar-lhe umas fotos enquanto trabalha?
– Faça favor!

E lá trauteia novamente a sua canção. Bea de Beatriz tem 59 anos, leva três décadas de mercado e aí está quase todos os dias, a despertar-se às 3 e tal da matina para estar às 5 na lota. Como tantos outros trabalhadores de mercados por esse mundo fora. Mas, enquanto cuida dos seus salmonetes, tamboris ou vivazes meigas (linguados), Bea mantém uma boa disposição invejável. Não é a única: tirando mais ou menos cansaço, somos bem recebidos banca a banca neste grande mercado com mais de um século mas que foi renovado recentemente e que, além de repartir-se pelos peixes, carnes e vegetais, está também cheio de lojas e espaços mais modernitos. (Pena que ao modernizarem-no e ampliarem-no tenham optado por destruir partes do edifício antigo e as fachadas envidraçadas tenham tomado um ar mais centro comercial).

Nada que preocupe Bea, que nos garante que o mercado continua a ser força viva da cidade e se enche de gente da terra, especialmente aos fins-de-semana. “Os turistas também contam, claro, mas vem muita gente de cá e tenho clientes fiéis há anos”. E a boa disposição, faz parte do negócio? “Ora bem!”, ri-se, “temos que desfrutar“. E muita tradicional coscuvilhice, não? “Oh, não queiras saber, há umas que nos contam a vida toda sem a gente sequer lhe perguntar nada!”.

Do mercado guardamos memória dos cheiro a mar e de um desfile belíssimo de polvos, mexilhões, perceves, santolas, amêijoas e berbigões, todo o tipo de peixes. Mas, acima de tudo, da simpatia e alegria de Bea, que decora os seus peixes com vermelhinhas cerejas. E do seu canto de sereia.

E que canta Bea? “Oh, era uma cançoneta”, diz, curiosamente mais tímida. Insistimos e ela por fim, nã resiste e lança ao ar o seu clássico – uma velha canção, original da diva Rita Pavone, datada dos anos 60, altura em que Bea estaria a dar os primeiros passos no seu mercado. Com um sorriso travesso, reclama:

“Por qué, por qué…
los domingos por el fútbol me abandonas,
no te importa que me quede en casa sola.
no te importa, por qué, por qué,
no me llevas al partido alguna vez!”

E, quase nos fazendo crer que também os seus peixes a acompanham em coro, sai outra gargalhada. “Temos que desfrutar enquanto trabalhamos, se não é uma tristeza”. Uma pérola de sabedoria que pescamos com todo o gosto.

A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado

A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado

A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado

 

 

 

 

 

 

 

A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado

A Corunha, Mercado A Corunha, Mercado

 

Esta entrada foi publicada em Espanha com os tópicos , . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/emviagem/2015/01/25/uma-sereia-no-mercado/" title="Endereço para Uma sereia no mercado" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>