Garimpeiras do ouro marroquino

Fotografia por Miguel Nogueira#mno marrocos maio 2014

Os olhos revelam cansaço, apesar dos sorrisos que nos dedicam. Já as mãos que rodam incessantemente a mó de pedra que transforma as sementes de argão numa pasta acastanhada exibem-se reluzentes, com a pele macia.

Chamo a atenção de uma para o facto, mas a resposta não é animada. Pelo contrário. A pele bem pode dizer que são mãos de 20 anos. Mas os ossos e as articulações denunciam uma idade bem superior à ostentada no olhar. Uma delas agarra uma mão com a outra e eleva-a ao peito, mostrando um esgar de dor. “É doloroso…”, digo, num tom compreensivo e num francês macarrónico. Ela assente, respondendo num francês arabizado.

A Cooperativa Roudana Targanet, em Tarudante, no Sul de Marrocos, nasceu sobretudo da necessidade de criar rendimentos a mulheres divorciadas. São estas mulheres, contam-nos, que recolhem o fruto da árvore — o processo que utiliza as cabras na recolha do fruto é anulado uma vez que, segundo a nossa interlocutora, interfere com o odor do produto final —, que o descascam e que, por fim, o moem. Tudo sem que as máquinas entrem no processo: “É tudo garantido de uma forma artesanal”. Até porque, refere a mesma pessoa, é esta a melhor maneira de retirar o máximo do pequeno grão.

O argão, rico em ómega 6 e vitamina E, é desde há muito uma substância com reconhecidas propriedades no mundo da cosmética, em particular pelos benefícios contra o envelhecimento. Mas são as suas propriedades terapêuticas que, actualmente, originam novas procuras. Como por exemplo contra a diabetes. Por isso, as prateleiras da cooperativa dividem-se entre a cosmética e a saúde, não descurando nos produtos de higiene (sabonetes, champô, etc.) que incluem entre as suas fórmulas o precioso óleo de argão. Há ainda o óleo de argão pronto a temperar uma salada ou a integrar uma receita mais ou menos elaborada.

Para as mulheres que, quando saímos, fazem uma pausa na moagem, o argão é sinónimo de subsistência. Uma subsistência de travo amargo, tal como o grão torrado que provámos, mas que não ameaça a doçura com que, dia após dia, vão recebendo os turistas que chegam para conhecer o seu projecto e para levar para suas casas uma amostra do seu trabalho.

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Carla B. Ribeiro (texto) e Miguel Nogueira (fotos) via­jam a con­vite do Turismo de Marrocos

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