Carlos Marx, guia turístico

Fotografia por Daniel Rocha

O Príncipe não é uma ilha qualquer, um desses paraísos há muito nada perdidos e prontos para tudo o que o turista quiser. É uma ilha para descobrir como se fôssemos quase os primeiros, onde as crianças não pedem doce-doce-doce como em algumas zonas da vizinha São Tomé, mas sim fotos ou simplesmente nada em troca pelo seu aceno e sorriso aberto. As mães, como Vani, que entrança o cabelo da amiga junto às ruínas da casa do feitor da Roça São Joaquim, só pedem a quem vem de fora cadernos e canetas para as crianças estudarem. Em vez de souvenirs, há histórias. E Cau, 29 anos de sorrisos, sabe-as quase todas.

Principiano, agora trabalha sobretudo em São Tomé, onde leva os turistas que têm a sorte de o encontrar a cascatas escondidas, a comunidades intocadas pela hotelaria liofilizada, a roças e a trilhos naturais. Mas é no seu Príncipe que o conhecemos. É ex-funcionário do Bom Bom, a nossa base de operações – é o resort-jóia da coroa da HBD, a empresa que começa a andar nas bocas do mundo pelo facto de o seu milionário dono, o sul-africano Mark Shuttleworth, estar a investir e a intervir na ilha sob o signo da preservação e sustentabilidade. Dizem-nos que é um dos melhores embaixadores do Príncipe e por isso Cao, aliás Carlos Marx, filho de um ex-capataz da roça Sundy, é que nos leva numa caminhada pela orla da floresta.

Sabe-a toda, cada planta com potencialidades medicinais ou utilitárias, e conta-nos pedaços da história da sua ilha equatorial e do seu país à medida que nos mostra aquela planta que substitui o sabão e que a avó usava nos tempos da crise, a outra que funciona como esfregão, ainda outra que é como lixa, o melhor ananás da vida, o coco fresco, as laranjas picantes. E, claro, a pimenta, o cacau, e mais uma planta boa para a diarreia, outra para as comichões, um chá para a febre, o trilho e as piadas. À medida que os pulmões e as pernas dão de si, descemos para mais uma praia maravilhosa, mais uma comunidade piscatória amistosa.

No final do dia seguinte, ainda com as marcas da caminhada no corpo, eis-nos à mesa do restaurante de dona Rosita, a afável cozinheira que decorou uma salinha com tudo o que o Príncipe dá, dos tecidos às palhas e flores exóticas (para nós, não para Cao) e que nos enche a mesa de carinhos e banana-pão, matabala, banana-prata, peixe vermelho, frango assado e, inesperadamente, bife com ovo a cavalo e banana frita em óleo de coco e arroz. O melhor bitoque do segundo mais pequeno país africano deve estar aqui em Santo António, ao lado da Rádio Regional do Príncipe, antigo quartel da GNR na época colonial.

“São Tomé não é só cacau e café. É natureza, é as roças, mas é sobretudo as pessoas”, postula. E nós acreditamos, talvez inebriados pela brisa, talvez na senda da convenção da igreja adventista que instalou um ecrã na praça principal da cidade e que encheu a noite de palavras. Ou apenas porque tal como os adolescentes que, na mesma praça, navegavam na Internet e actualizavam as suas vidas Facebook graças ao wifi da sede do governo regional, já estamos ligados à ilha.

“África é um todo”, diz, com sangue cabo-verdiano e explicando que gosta de pedir aos clientes que observem as diferentes fisionomias das pessoas de São Tomé, irremediavelmente miscigenadas pelo colonialismo português e vindas de Cabo Verde, Angola, Moçambique… “Isto são as pessoas.”

Volta aos cheiros, às plantas, a tudo o que aprendeu numa infância que não consegue deixar de descrever com um sorriso rasgado, trepar às arvores para ir buscar a fruta e desparasitar, pescar fora de horas e chegar a casa carregado na expectativa de que a mãe se distraísse com os despojos, fala de chás, mais plantas, mais natureza. E vem a sobremesa, o pudim dourado que Rosita, ajudada pelos filhos e netos, fez para nós. Os ingredientes nunca soaram tão bem. “Leite e canela.” Porque São Tomé não é só cacau e café.

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Joana Amaral Cardoso (texto) e Daniel Rocha (fotos) na Ilha do Príncipe, S. Tomé e Príncipe, a convite da HBD

8 comentários a Carlos Marx, guia turístico

  1. Cao, uma força da natureza, um conhecedor nato com um lema de vida muito próprio, foi um prazer conhecê-lo e vivenciar cada momento, com explicações muito cuidadas, deu-nos a conhecer cada recanto, cada encanto de uma beleza inconfundível. O meu voto por excelência sem Ele não teríamos percorrido o que S. Tomé tem de melhor. Valeu muito a pena, aconselho e recomendo. Obrigado Cao por tudo foi uma grande lição de Vida, está de pé o convite a Portugal…até lá.

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  4. O Carlos é o melhor guia que se pode ter por aqulas bandas, dedicado , responsável, simpático e conhecedor das ilhas e das suas particularidades. Visitem S. Tomé Princepe e falem com o ” Cáo”

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