Manual de sobrevivência num postal ilustrado, edição ilha do Príncipe

Fotografia por Daniel Rocha

A paisagem é demolidora, verde e densa, a areia enganadora, morna e alaranjada, e o mar aquilo que se quer – idílico, azul, límpido e nunca frio, mas também não demasiado quente. E depois há as pessoas, sorridentes, abertas e acolhedoras, dentro e fora das fronteiras de um resort sem pulseiras nem animação forçada. Por isso mesmo, há que estabelecer regras. E a primeira regra do clube Bom Bom é que não se fala de regras no Bom Bom. Ups.

1- Quando se encontrar a vaguear por uma praia quente e cheia de vegetação, podemos confundir-nos com o rumor da rebentação e com as variedades de pássaros e perder o sentido de orientação. É uma situação dura, mas há que saber como sair dela. Portanto, em caso de dúvida sobre onde ficaram os chinelos, é seguir as pegadas na areia fofa. É que muito provavelmente serão as únicas.

2- Esta é velhinha, e desde um certo filme que se tornou num chavão ainda maior. Mas a versão Príncipe, cortesia do senhor João, nosso guia para as visitas prospectivas fora dos limites do ecológico e tranquilo Bom Bom Island Resort tem o seu quê: “Tudo o que a gente puder fazer hoje não deve deixar para amanhã. Às vezes, amanhã não é o nosso dia”. Ponto.

3- Respeito. Pela natureza, pela população local, pelos animais, pelo mar, pelo Príncipe. É não só uma regra básica de convivência e deveria sê-lo para todos os que preferem ser vistos como viajantes e não meros “turistas”. Quando se caminha por uma longa ponte de madeira timidamente iluminada rumo ao ilhéu que dá o nome ao conjunto de bungalows frente ao mar, é bom que pensemos nisso. O destino é uma construção integrada na paisagem, madeiras, sofás e velas. No imaginário pós-reality shows, bem podíamos ir em direcção a um qualquer concílio que tem o poder de nos votar da ilha para fora. Era uma pena.

4- Ir à procura de macacos é igual a ser encontrado por mosquitos. Muitos. Quando não vamos à procura deles, ei-los aos pulos de ramo em ramo, das ocas para as palmeiras e daí por diante.

5- Se o punk não morreu, Chaplin também não. Pelo menos no Príncipe, onde voa pelo Bom Bom com o seu fato cinzento de abas vermelhas. (Vá, aqui não há fantasmas, é só a papagaia mascote que voa pelo Bom Bom).

6- Não está tudo a correr conforme o plano milimétrico? No Príncipe, seja principiano. Tudo se resolve, “leve leve”. É a frase bem conhecida do segundo mais pequeno país africano, estampada em t-shirts e acenada em cumprimentos no meio da mata depois de provar um ananás tão doce que converte até os ateus das bromeliáceas. Sim, é a frase do clima quente e das gentes que sabem fruir. É tudo relativo. Mas é uma regra provada ao mais alto nível – faz no final do mês 95 anos exactos que um eclipse solar nesta ilha ajudou a comprovar sem sombra de dúvidas a Teoria da Relatividade de Einstein. Ah pois é.

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Joana Amaral Cardoso (texto) e Daniel Rocha (fotos) na Ilha do Príncipe, S. Tomé e Príncipe, a convite da HBD

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