Como sobreviver a um canibal, o Mundial de Futebol e o sonho americano

Foto: Enric VIves-Rubio

Clichés de viagem e viajantes: trocar histórias de guerra, prazeres culinários, paixões e irritações. E dizer que não interessa o destino, mas sim a viagem, parafraseando Ralph Waldo Emerson. Aqui, no meio da Bahia, rumo ao arquipélago de Tinharé, não se pode dizê-lo com tanta veemência. É que o destino é mesmo, mesmo bom. Mas a viagem também.

João Carlos Guimarães, o nosso guia, é uma enciclopédia de pele curtida pelo sol e de brasileirismo. E tanto nos explica como o turismo e o marisco substituíram o processamento de açúcar e a indústria baleeira na ilha de Itaparica como ensina, sem ironias, como escapar com vida a um canibal. A viagem está cheia de conselhos úteis, nesta carrinha que vai do Club Med de Itaparica ao Estreito da Ponta da Barra para apanhar uma lancha rápida até ao Morro de São Paulo, onde até os mapas turísticos gratuitos se apresentam modestamente como “mapas do paraíso”.

E pronto, o sucesso do capturado por um antrópofago é, obviamente “chorar”, diz João Carlos, 64 anos e muitas viagens no bucho. “Se você lutar, atacar”, diz, mexendo-se no banco da frente enquanto passamos por colinas de coqueiros e vacas, “quando chegar na aldeia ele vai-lhe comer”. E lança-se numa elaboração de menus, quem come que parte, cabeças para um lado, pernas para o outro, mas se “chorar e implorar ele não te come”. Palavra de baiano, que sabe que o medo, a tristeza e outras agruras tornam a carne amarga.

A palavra do baiano também serve para falar de futebol (e de Deus, e de Brasil, mas isso são histórias para uma próxima Fugas). O Mundial – a Copa, versão Brasil – está aí. Fez com que o Lonely Planet tenha eleito o Brasil como “o” país a visitar em 2014 (como se houvesse dúvidas), faz com que há anos estejamos todos a dizer que o mundo vai estar de olhos postos no Brasil, fará com que o país pare vários, demasiados dias por semana no próximo Verão. E aí é que está o problema.

Foto: Enric Vives-Rubio

João Carlos, borsalino na cabeça e óculos espelhados a compor o visual, repete a frase que vimos dias antes nas paredes de Salvador. Os grafitti não enganam: “não queremos copas e sim hospitais”. O nosso guia, professor e autor de livros, viajado fugido da ditadura brasileira, completa: “não precisamos de estádios, mas sim de escolas, infraestruturas, saneamento básico”. “É uma copa política, não é o momento, o Brasil tava começando a melhorar”. E agora “endividou-se, daqui a dez anos” é que a Copa devia ser brasileira. Agora, porque não há estradas em condições, os brasileiros não vão trabalhar em dias de jogo para salvar o trânsito. Mas quem salva o Brasil?

Vacas, rios, pontes e alguns buracos depois, eis-nos na lancha a caminho do Morro, onde não há só turistas, mas que los hay, los hay. Neste playground de praias inacreditáveis, a vila tem como fachada lojas e bares pintados de fresco, mas está mobilada com pescadores, carregadores, gente que vive mesmo ali. As crianças saem da escola, de uniformes azuis e brancos, e riem-se morro acima, onde há cada vez menos gringos e a vila segue o seu bulício de fim de tarde – que é cedo, com o sol tão perto do Equador. Fotografadas, meneiam-se e queixam-se, saltitantes, de terem sido “flagradas” a espreitar para os quintais, a dançarilhar até casa. Uma delas, com os cabelos em cachos e sorriso pronto, posa e pede: “Me leva para a América!”. Viver no paraíso ainda é sonhar em americano.

E voltamos, a vida é a viagem e alguém com pouco amor por ela decide passar-nos a lancha Neguinha para as mãos. Entre barcos coloridos, com o sol a pôr-se e as águas tépidas e macias do estreito a pedi-las, a coisa fez-se. Se aparecesse por aí um canibal, era difícil puxar de uma lágrima.

#EVR Morro 01 131125

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A Fugas viajou a convite do Club Med

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