O purgatório

O mais intrigante dos destinos católicos pós-morte é o Purgatório. Toda a gente tem uma ideia muito clara do que deve ser o Céu e o Inferno. Para mim, por exemplo, o paraíso celestial era a “antiga rua da Senra” e o largo que ligavam as duas casas tutelares da família – as casas de origem dos meus pais. Era uma cópia fidedigna, com os mesmos edifícios e, eventualmente, as mesmas pessoas nas mesmas moradas. Encontrar-nos-íamos todos, cedo ou tarde, para passar a eternidade. Planeava ser assim apresentado ao avô que não conheci e que toda a gente ainda hoje elogia. Quando fui introduzido ao conceito de reabilitação urbana, quando o cinema Póvoacine deu lugar ao “Super OK” (!), um centro comercial, tive de repensar isto tudo.

O Purgatório ficou intacto. A imagem que tinha deste lugar resistiu muito bem à descoberta dos planos directores municipais. Não havia como ser afectado: era uma fila interminável de almas antropomórficas – claro – a pensar na vida (literalmente). Pensadores sentados, de mão no queixo, como o de Rodin, à espera, sem conhecer os vizinhos. Como se fosse a sala de espera do centro de saúde, mas sem luz. E em fila. E em silêncio. “Que mal fiz eu a Deus?” A pergunta, retórica na Terra, era ali fundamental. E não era possível não pensar em nada, como Pessoa (para o parafrasearmos com os pés, que dá mais jeito): o fim do mundo estava ali, ao virar da esquina, em 2012, e o Juízo Final podia apanhar as almas do Purgatório de surpresa; convinha não facilitar. Eu estava mais ou menos descansado quanto a isto: contava ver os Cavaleiros do Apocalipse de olhos vivos. Depois, era só uma questão de Céu e de Inferno – o Purgatório deixaria de existir.

59988ac656ae11e385ff1234c61f9f0f_8Uma criança efabula muito e mistura tudo. Anos passados (hoje de manhã), voltei a estas representações mitológicas. Tinha um novo contributo a dar ao miúdo crente que fui: uma nova imagem, muito mais concreta, do Purgatório. É um quarto de um hotel de cinco estrelas.

Quando me conduziram ao quarto 13 do Tivoli Palácio de Seteais, em Sintra, perguntaram-me se era supersticioso. “Não, de todo.” E não sou – mas havia de pagar pela língua. Entrei, experimentei um dos dois colchões que tinha à disposição, deitei a cabeça na almofada e, se disse algo para os meus botões, foi um popularucho “impecável”. No aparador, as boas-vindas com doçaria local, Porto e água mineral. Boa temperatura, a contrastar com o frio no exterior, boa vista e um rico conjunto de peças de mobiliário da melhor madeira. Prometia um imenso descanso.

Não foi o que aconteceu. Deitado na mais confortável das camas, adormeci como um anjinho, a contar os sabores do arroz de prato “à antiga” do chef António Santos e a revisitar a surpreendente textura do ravioli de mel que fazia parte da sobremesa, tudo servido ao som de Beatles e António Carlos Jobim, interpretados ao piano por Armando Gama. Sol de pouca dura. Dez minutos depois estava acordado. Dez minutos mais tarde, também. Outros dez, outro olho aberto. Talvez tenha sido de quinze em quinze, a cada meia hora ou a intervalos ainda maiores. Não importa: nesta história de uma noite curta, muito mal dormida, foi de dez em dez.

Culpa de quem? Do senhor doutor. Um homem é um homem e um homem não pede ajuda. Um homem resolve. Sucede que este homem não conseguiu resolver e acabou com o ar condicionado a disparar de dez em dez minutos, com as ventoinhas enfurecidas, para manter o quarto sempre à mesma temperatura. Telefonar para recepção? Não: ou resolvo eu, ou fica assim. Ficou assim. Quando o alarme tocou, às cinco da manhã (havia avião cedinho para Praga), este homem era um homem que tinha passado a noite num dos hotéis mais confortáveis do país com o mais irritante, barulhento e sempre presente despertador.

O primeiro pensamento da manhã, no duche, foi para o Purgatório. Era ali, era aquilo, não era nada escuro, nada vazio – era luminoso e até tinha madeira talhada. Não foi azar, como poderia sugerir o número do quarto, mas foi com certeza castigo. Para as gerações vindouras, deixo o meu testemunho: o caminho da salvação está no livro de informações úteis; ligai para a recepção; e aprendei, antes que seja tarde.

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