Quem tem medo do porquinho-da-índia?

Recebem-nos seis habitantes de Misminay, três mulheres e três homens. Eles tocam uma espécie de flauta, elas dão-nos colares de cantuta (qantu em quechua, a língua que sobrou do tempo dos incas e ainda hoje amplamente falada no país), a flor nacional do Peru.  Luis Quispe, barrete enfiado até às orelhas, dá-nos as boas-vindas em quechua. Mercedes Vargas, a nossa guia, traduz: os habitantes de Misminay recebem-nos de coração aberto e esperam que a nossa visita traga mais turistas à comunidade. Flora, longas tranças pretas, pele escura e bem tisnada pelo sol, é uma das que fala castelhano. Agradece-nos termos vindo e entretanto falha-lhe a voz: “Estou emocionada”, sorri.

Mullak’as/Misminay é uma comunidade de uns 700 habitantes situada no coração do Vale Sagrado que até há poucos anos vivia exclusivamente da agricultura. Cultivam-se batatas, milho, feijão, favas, criam-se vacas, porcos, ovelhas e galinhas. A vida em Misminay corria apenas ao sabor das estações, até que, em 2007, a Condor Travel entrou em acção.

Ao abrigo do seu programa Wings, a agência de viagens peruana criou um projecto de “turismo vivencial”, como o classifica Mercedes, em Misminay. À disposição, os turistas têm várias opções de actividades, que podem até incluir a pernoita numa das casas da aldeia. Quem preferir ficar apenas umas horas, terá oportunidade de ficar a conhecer os rudimentos da agricultura que aqui se pratica ou a perceber melhor como tecem as mulheres os bonitos gorros, cachecóis e afins que vendem a quem chega.

Estes programa não são, naturalmente, para todos. Misminay é uma comunidade pobre. Nem todas as casas, feitas de lama e palha, têm casa de banho ou electricidade – apesar de se ver, aqui e ali, uma antena de televisão. Os caminhos são de terra batida, há lama a rodos na época das chuvas e os animais andam à solta. O quarto onde dormem os turistas tem três camas e outras tantas mesinhas de cabeceira, tectos de madeira e tapetes de alpaca no chão de terra.

Flora encaminha-nos agora para uma sala onde nos servirão a refeição do dia-a-dia de Misminay. Está escuro cá dentro mas a simplicidade do espaço desarma qualquer um. Servem-nos queijo de ovelha, milho e favas cozidas; sopa de trigo e batata e um salteado de carne com batata amarela – há mais de 4000 variedades do tubérculo no Peru. Apesar de simples, a comida é uma delícia.

Só não gostamos da sobremesa, umas papas de batata desidratada. E não suportamos a companhia inesperada na sala de refeições: um, dois, três, quatro, quantos porquinhos-da-índia se passeiam neste chão? Não sabemos nem queremos saber, obrigada.

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Sandra Silva Costa viaja a convite da Agência Abreu e da LAN

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