Ferry de sábado à noite

Foto: Enric Vives-Rubio

É uma festa. O barco chega e já somos muitos, dezenas, colados à grade, colados uns aos outros, colados de calor e humidade. É sábado à noite em Salvador da Bahia e Itaparica vai ser nossa. Mas antes de lá chegarmos, um ferry boat que mete carros, crianças, cães, café, malas, sacos, cervejas, violões e muitas histórias interpõe-se. Atravessar a Baía de Todos os Santos rumo à ilha que nos vai acolher nos próximos dias é isto: uma multidão com o volume no máximo, uma música de vozes, risos, gingas e pregões, muitos pregões.

“Olha o amendoim torrado, passatempo da viagem”, “olha a tapioca com coco”, “cafézinho, preto, leite, Nescau”. O vaivém é constante. A rapariga que vende o passatempo em finos cartuchos de papel pardo troca de produto e a meio da viagem já propõe “cocada de saco, para levar o sabor da fruta”.

Rodam e rodam o piso superior do barco, parcialmente fechado e com duas televisões que todos ignoram para ver o espectáculo das pessoas, dos calções curtos e das camisolas descapotáveis, das cervejas que fluem ao som das conversas, uma tagarelice constante que contagia. Temos de falar com alguém, temos de os conhecer.

Salvador é uma das cidades mais negras do Brasil, muito graças à amarga herança que o colonialismo português e o tráfico negreiro deixou na pele dos escravos e dos seus descendentes, mas a bordo do ferry-boat que nos leva à ilha de João Ubaldo Ribeiro, tudo parece doce nestas peles descobertas e misturadas com índios e portugueses e definitiva e orgulhosamente brasileiras. Encantadas pela brisa que a velocidade de cruzeiro cria e que tudo alivia. “Baiano é feliz”, garante-nos Ricardo, de 41 anos, com a família espalhada pelo barco e os amigos de tronco nu, como ele, a tratar que não sobre gota sobre gota de chope no barco.

E passam mais bonecos fluorescentes, mais carrinhos com volante cheios de termos com café e pastilhas elásticas e chocolatinhos, homens vestidos de pacotes de batatas e salgados, crianças a escorregar dos chinelos numa corrida constante à volta do barco.

Lá fora, ouve-se música a sair de uma carrinha Volkswagen branca, um pão-de-forma cheio de gente ao fresco no piso inferior. Tiram-se fotos, bebe-se mais uma cerveja, aproveita-se a rampa dos carros como espreguiçadeira. E as luzes de Itaparica, a maior das 56 ilhas da baía, aproximam-se, Ricardo continua a garantir-nos que daqui a duas semanas esta travessia vai ser ainda mais uma festa, porque o Verão está próximo e a ilha é um dos desejos de Natal e Ano Novo de quem quer mar, sopas e descanso.

A brisa vai morrendo, o rumor vai descendo e a festa dispersa-se, malas e sacos e gente por aí fora para passar a noite em Itaparica.

Chegámos. E o silêncio nunca mais foi o mesmo.

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Joana Amaral Cardoso e Enric Vives-Rubio viajam a convite do Club Med

2 comentários a Ferry de sábado à noite

  1. Achei interessante este site , porem , não condiz com a cultura e povo Brasileiros.A imensidão do Brasil faz com que nos dividimos pela propria cultura diversificadas. Se querem conhecer as belezas e a educação do povo Brasileiros ,venham para o Sul e Sudeste , principalmente o Sul e São Paulo ,lugar de gente educadas , bonitas cordiais.Não tenham um conceito que o Brasil é só o Nordeste , afinal , a maioria destes vem para São Paulo e se fosse bom , não viriam , correto?

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    • Gente educada não maltrata a língua portuguesa desse jeito.
      Coitado dos portugueses, deve ser dolorido demais assistir ao assassinato impiedoso da língua mãe !

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