Uma cobra chamada Tapioca

“A velocidade que empolga é a mesma que mata”, avisa-nos a estrada rumo à Praia do Forte, um dos destinos mais procurados da região e um dos muitos cartões postais do Brasil. Chegámos à Bahia há menos de 48 horas e fizemo-nos à estrada à margem da qual tudo acontece: vende-se fruta, passa-se a via rápida a correr de chinelos a colar no asfalto, trabalha-se, estende-se a roupa e, sobretudo, sai-se da orla imediata de Salvador, da qual os seus quase três milhões de habitantes parecem transbordar.

Da mistura de novos shoppings, casebres amontoados, pobreza e muita pele resistente ao sol, saímos para a praia e para “a natureza”. Da pixação e vendas de rua de tudo e mais um par de botas (e se quiser comprar um par de botas, ou um pente, ou pasta de dentes, é certo que alguém numa das entupidas ruas da capital do estado onde nasceu o Brasil lho poderá vender), saímos do centro contido num património mundial da Unesco pintado e policiado de fresco para o que deverá ser mais calmo. Porque, afinal, a velocidade empolga, mas mata. Nem que seja a fome de verde e água e mar.

Não é mais calmo, porque o tempo é pouco e os planos são muitos. Não é porque quando a cobra Tapioca diz olá, há quem não consiga manter a calma.

Foto: Enric Vives-Rubio

Tapioca, com os seus dois quilos e pouco e muita calma perante os visitantes, parece indiferente a tudo. Ela é uma hóspede, não de um hotel bordado a coqueiros, mas da Reserva Sapiranga, a cerca de 50 quilómetros a norte de Salvador, um projecto de preservação da mata atlântica que vai da fauna à flora, do resgate de serpentes como Tapioca a viveiros recheados de cacau e dendê.

Tal como um peixe chamado Wanda só vive num mundo em que John Cleese e Kevin Kline são reis e senhores, talvez uma cobra chamada Tapioca só possa viver na Bahia. Com o pequeno pormenor de que ela, nas mãos do coordenador da reserva, Álvaro, e depois nas nossas e nos nossos pescoços e nos nossos braços, fria e suave, articulada e observadora, não é de cá.

Foto: Enric Vives-Rubio

Chamando os répteis pelo nome, Tapioca é uma piton asiática bem alimentada, que tal como nos abraça, ondulante, também nos podia chamar um figo, de uns anos em diante. Mata por constrição, como as boas e outros répteis, e está na Reserva Sapiranga “porque foi abandonada”, diz Álvaro sempre com um olho nela e outro no colega que afaga a serpente malhada. Mora numa das casas de madeira da sede da reserva porque não poderia ser devolvida à floresta – ou se tornava vítima de outras colegas igualmente sibilantes, ou elas tornavam-se vítimas dela (já para não falar dos pequenos mamíferos que lhe passassem pelo caminho).

Assim sendo, Tapioca é a serpente residente da reserva para fins pedagógicos. Mantém a calma. Está cada vez mais habituada a pessoas curiosas. Tal como a pressão do turismo afecta a biodiversidade, a pressão dos turistas também pode gerar alguma ansiedade, mas Tapioca “é treinada com reforço positivo”, explica Álvaro, para se habituar a lidar com a gente – nem todos gostam de Tapioca, porque o medo é ancestral e a sua espécie é obviamente perigosa, e nem todos a vêem. Mas a reserva recebe cerca de 15 mil visitantes por ano, que pagam dez reais (cerca de 3,5 euros) para caminhar por sete trilhas (há mais duas, mas estão em pousio), conhecer os rios Pojuca e Sapiranga, ver dendezeiros, pau-brasil, várias espécies de animais e, se espreitarem bem e lá do alto, ver a Costa dos Coqueiros a rematar as costuras onde o Brasil se encontra com o mar.

E é para lá que vamos a seguir.

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Joana Ama­ral Car­doso e Enric Vives-Rubio via­jam a con­vite do Club Med

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