Um homem do Norte

Foto: Miguel Madeira

Lisboa é para meninos. Já Novembro finda e ainda se pode ir à-vontade à varanda, de camisola, aproveitar o sol para o café da manhã. O Outono não se impõe, o céu não fecha, o frio não corta. Chove de vez em quando – e é só.

Um homem do Norte precisa de um Novembro de combate, para chegar rijo a Dezembro e passear-se com exuberância pela violência de Janeiro, rir-se de Fevereiro e ultrapassar Março com desdém. Para ponderar a praia em Abril e concretizar de Maio a Setembro, deixando Outubro para a rabugice.

Na capital, 14ºC de máxima entra na categoria “temperaturas baixas”. Não há uma nuvem à vista, uma rajada de vento, um sopro, uma pinga, nada. Um crocodilo do Nilo estaria febril nestas condições. E no entanto são luvas e gorros e cachecóis que se vêem nas lojas de prêt-à-porter do Chiado, que tudo o que podem fazer é apelar à prevenção.

O Inverno nunca chegará. Mesmo para os fãs de Game of Thrones. De maneira que é preciso metermo-nos num avião para não nos desiludirmos com a meteorologia e preservar o material de que somos feitos (as mãos secas neste frio pífio denunciam uma aculturação inaceitável): vamos à República Checa e à Dinamarca; em três dias.

Quando chegarmos a Praga, na quarta-feira, à hora de almoço, devemos estar no pico do calor: 1ºC. Para nos facilitar a vida, a capital checa promete uma variação de apenas dois a três graus Celsius – baixando para um mínimo de -1ºC. Como as previsões antecipam uma subida da temperatura para 3ºC na quinta-feira, zarparemos de imediato para Copenhaga.

Teremos o azar de chegar à cidade das ilhas dinamarquesas com temperaturas entre os 3ºC e os 8ºC, mas para compensar os ventos escandinavos deverão zurzir a uns masculinos 35 km/h. Para endurecer o esqueleto e melhorar a postura. Com a noite, chegarão as nuvens e a chuva – para, de madrugada, podermos sentir na pele a pluviosidade escandinava e rejuvenescer.

Na sexta-feira, quando voltarmos a Lisboa e estiverem 12-13ºC, dispensaremos o casaco. Se tudo tiver corrido como esperado, ainda gritaremos nos túneis do metropolitano como se estivéssemos sozinhos num fiorde, em cima de uma canoa. Como um homem.

Vamos a isso.

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