Portugal, Peru

Ainda gostava de perceber por que é que, mesmo a milhares de quilómetros de casa, temos tendência a procurar Portugal a cada passo. Bom, não procurámos Cristiano Ronaldo – ele é que veio ter connosco ao lobby do hotel. “Portugal tiene a un buen Cristiano: CR7 anotó los tres goles para clasificar al Mundial y eliminar a Suecia”, titulou o jornal La Republica de 20 Novembro, com uma destacadíssima chamada de primeira página e honras de abertura da secção desportiva.

Futebóis à parte, vem-nos Portugal à cabeça quando estamos à espera de vista para o Vale Sagrado. Mais concretamente, lembramo-nos da espera que parecia não ter fim na ilha das Flores, nos Açores, para conseguirmos abrir a boca de espanto ante a beleza das suas lagoas. E também pensamos na Terceira no caminho até ao miradouro Rachi, quando vemos a manta de retalhos dos campos verdes em redor.

Chegados ao miradouro, a névoa característica da época das chuvas, como explica a guia Mercedes Vargas, é mais nevoeiro cerrado. Olhamos, frustrados, para aquele que foi o Vale Sagrado dos incas, para o ziguezague do rio Urubamba, e não vemos mais nada que não sejam nuvens.

É cedo ainda, nem sequer 9h, e as três peruanas que habitualmente montam em Rachi as suas tendas de artesanato ainda não “abriram as portas” por completo.

Saltitam  por aqui duas crianças, um menino e uma menina, curiosos e ao mesmo tempo indiferentes com a presença dos forasteiros.

Compramos uma boneca de trapos a Paulina e perguntamos-lhe se podemos fotografá-la e às crianças. Diz que sim e sorri muito. Explicamos-lhe que somos jornalistas e que há possibilidade de publicarmos as fotos. Hesita um pouco e depois diz: “Claro, é a única forma de ficarmos famosos.”

É às crianças que perguntamos os nomes. Respondem mas não entendemos. Insistimos, voltamos a não perceber. Deixá-los, então, sossegados e felizes na simplicidade de se verem na máquina fotográfica e na doçura de umas gomas que resgatamos da mala.

Agora a caminho das salinas de Maras. A estrada serpenteia montanha abaixo, num trajecto dado a alguns sobressaltos. Já avistamos as poças que na época seca se cobrem de branco quando alguém pergunta, preocupado: “Esta estrada tem dois sentidos ou um?” A resposta vem de frente, em forma de um táxi branco. Alguém tem que fazer marcha-atrás e é o nosso autocarro. Fechem os olhos.

E abram-nos de novo, agora que o pior já passou e temos pela frente as cerca de 3600 poças que se cobrem de água salgada que desce da montanha.

Na época seca, explica Mercedes, graças à evaporação da água e à sua transformação em sal, está tudo coberto de branco, criando um cenário “muy bonito”.

De Maras ao sítio arqueológico de Moray é mais meia hora de caminho aos solavancos. Aqui, nos terraços circulares que os incas usavam para fazer experimentação agrícola – os vários microclimas que se criavam nos terraços permitiam diferentes culturas –, respira-se uma tranquilidade sem par nestes primeiros dias no Peru. E, mais uma vez, a mania de comparar o incomparável: vistos daqui, os terraços de Moray lembram pedaços de Douro.

Deixemo-nos destas coisas – isto é o Peru. E Peru mais Peru que Misminay deve ser difícil. Mas essa é uma conversa que fica para depois.

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Sandra Silva Costa viaja a convite da Agência Abreu e da LAN

Um comentário a Portugal, Peru

  1. Também senti calafrios nas estradas peruanas que só deveriam ter um sentido mas, como tudo correu bem, saímos de uma aventura deveras perigosa, mais fortes e confiantes. A perfeita descrição da viagem e as espectaculares fotografias levaram-me de volta a este fantástico lugar e até a sentir o frio que gela os ossos mas que é compensado pela paisagem. Obrigada!

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