De férias, a caminho de Lampedusa

1380460_10151824226209504_1192480309_nDa minha espreguiçadeira, até ao que os meus olhos alcançam, o meu mundo é um resort de praia e piscina, de um céu limpo onde a lua brilha sem concorrência luminosa terrestre, de relva. Seguro um gin tónico na mão e todo o jardim é meu. Não há ninguém, nem o ruído de nada, nem brisa rasteja.

Acabei de partilhar no vaidoso Facebook postais de momentos destas férias, pormenores solares da minha vida. São as minhas férias, pagas por mim, escolhidas por mim. Acreditem que, ironicamente, as férias de alguém que trabalha com viagens a cada momento do dia são uma coisa difícil. A cabeça, por mais que se queira, não pára de escrever. Não pára de trabalhar. Parece que nunca são férias (mas são).

À minha volta, à volta deste hotel africano para turistas, está a pobreza, a níveis vários. Até ao mais baixo dos níveis. É uma das inclemências dos viajantes mais conscientes. Somos sempre os ricos. Mesmo que tentemos fazer opções que beneficiem as comunidades que visitamos, mais ou menos narcisicamente, somos sempre os ricos. Os que viajam por prazer. Não os que viajam para sobreviver. Vamos procurando o equilíbrio, uns mais que outros, decerto.

Mas eu estou nesta terra prodigiosa a olhar para Lampedusa. A televisão, subitamente, traz à minha ilha das férias, esses viajantes que viajam para salvarem a vida, a sua e a dos seus, e que no processo perdem tudo para sempre.

Ouço, do meu privilegiado quarto, o mar, lento, ondular leve-leve. A minha única preocupação de sobrevivência é afastar mosquitos (a malária, a febre, a malária).

Algures no Mediterrâneo, tão longe e tão perto deste recanto atlântico, talvez um outro barco, cheio dos verdadeiros viajantes da vida, esteja já de partida para tentar a sorte. Espero que haja um deus que os proteja. Eu, turista do nada e do tudo, olho para Lampedusa como se pudesse erguer faróis para os que se aventuram. E para nós que, frustrados, de consciência humanamente pesada, seguimos a nossa agenda, de férias ou não.

Aqui, ou onde quer que seja, o certo é que já é tempo de deixarmos de ser turistas do mundo, é tempo de termos outra acção e exigirmos, de quem lidera e de nós, soluções para estas viagens de barqueiros dos infernos. Porque, mesmo que deitados em deleitosas espreguiçadeiras em aparentes paraísos, estamos todos a navegar para Lampedusa.

2 comentários a De férias, a caminho de Lampedusa

  1. Gostei imenso do que escreveu…. até posso dizer fiquei bastante melancólica, com o seu testemunho! Como o compreendo e a tristeza sentiu ao olhar para Lampedusa! Um sem fim de seres humanos, também eles à procura e na esperança de uma vida melhor! Grata pela forma como descreveu a sua mágoa…. como um ser humano sensível que deve ser.

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  2. Lampedusa? ou a miragem da liberdade?

    Acho este texto tão simples e tão belo… é sempre assim que me sinto, quando vamos de férias… tão merecidas e tão privilegiadas… o pior é que tantos que morrem procuram a mesma liberdade que nós, mas de outra forma muito mais brutal e primitiva. Obrigada por escrever tão bem…

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