Festa em Santa Bárbara, sem trovões

#NEG_ACORES_S_MARIA_040813_2091Nesta altura do ano não há fim-de-semana sem festa em Santa Maria. Como o segundo dia de corrico feminino foi cancelado por falta de condições de mar, aproveitamos o final de domingo para passear.  De mapa na mão, seguimos a estrada principal (demasiado estreita para passarem dois carros ao mesmo tempo…) que dá a volta à ilha, em direcção ao nordeste. Já tínhamos visto os cartazes a anunciar a Festa do Sagrado Coração de Jesus mas fomos dar com ela um bocado por acaso, ao virar uma curva, logo à entrada de Santa Bárbara. Com a barriga já a dar horas, nem pensámos segunda vez e fomos à procura do jantar.

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A festa decorre em torno de uma pequena rua que desemboca no largo em frente à igreja, onde está montado o palco que há-de receber os artistas mais para o final da noite. É na primeira barraca de comes e bebes que encontramos o melhor guia que poderíamos pedir: o senhor Bernardino. Olhos pequenos e simpáticos, simples na vestimenta como na fala, sorriso aberto e franco, aponta para a banca repleta de comida e vai dando sugestões: começamos pela batata cozida (com casca) com pimenta, continuamos com o caranguejo cozido, e ainda provamos as favas (cozidas e depois fritas em azeite pela senhora Maria José, que as faz como ninguém, segundo nos dizem), tudo à moda de Santa Maria. Regamos as entradas com um copo de sangria e seguimos pela rua fora. Sem darmos conta, o guia vem atrás.

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“Têm de provar o caldo de nabos”, tinha avisado o senhor Bernardino. Mas lá deve ter pensado que não o levámos a sério e não desistiu até nos deixar sentados com um prato de caldo à frente. Por estes dias, a casa da Irmandade do Espírito Santo, mesmo em frente à igreja de Santa Bárbara, transforma-se num restaurante improvisado e até tem fila de espera à porta. Com a ajuda do guia, chegamos à cozinha, onde homens e mulheres trabalham a mil à hora. Sai um prato de caldo de nabos: batata doce, carne de porco, pão e nabos de Santa Maria. Os nabos são aqui cultivados e, conforme nos explicaram, o sabor, que é diferente de todos os outros, vem da terra. Conclusão: não vale a pena levar sementes para cultivar noutro local. Os ingredientes são servidos mergulhados num caldo aquoso, que faz lembrar o cozido à portuguesa. Uma delícia que desaparece num piscar de olhos.

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Rematamos o jantar com sobremesa caseira: divididos entre o pudim de pão, o arroz doce, e a tarte de côco, ainda guardamos espaço para a malassada. Ninguém nos sabe explicar o nome. Sabemos só que não é assada e não sabe mal: é um doce feito com farinha frita, em forma de panqueca, com açúcar à volta. Lambuzamos os dedos e fechamos a loja.
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Não tivemos sorte nas rifas. Cada uma a dois cêntimos, é tentador, mas compramos dez e não sai nada. Desistimos e seguimos para o largo onde o rancho folclórico de Almagreira se prepara para actuar, vestido a rigor.
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E, depois de uma tarde nublada e fresca, a noite até parece mais quente ali, no meio daquele mar de gente, uns de pé, outros sentados nos degraus da igreja para assistir ao espectáculo. E depois disto, o ditado popular – “só se lembram de Santa Bárbara quando troveja” – deixa de fazer sentido para nós, que tão cedo não nos vamos esquecer dela.
Marisa Soa­res (texto) e Nel­son Gar­rido (fotos) visi­tam Santa Maria a con­vite do Clube Naval de Santa Maria
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3 comentários a Festa em Santa Bárbara, sem trovões

  1. O verdadeiro Espírito Santo
    Tínhamos sido avisados que, entre as 5 a as 7 da tarde, haveria procissão em Santa Bárbara, que a estrada iria estar coberta de flores e que não poderíamos passar de carro. Perto da meia-noite – no regresso de uma festa de 10 anos de casamento mesmo boa, para a qual fôramos gentilmente convidados, e que ainda durou mais 2 noites – quando chegávamos à tal aldeia que precisávamos de atravessar para chegar a casa, reparei que havia muitos carros parados à beira da estrada, mais ainda do que na noite anterior em que também tinha havido festa. Recebi o primeiro aviso ( a Maria e as crianças dormiam) em Inglês “You can’t go in there” mesmo à entrada da tal rua que teria estado fechada entre as 5 e as 7 por causa da procissão. Segui em frente, devagar. Sabia que só precisava de atravessar 20 ou 30 metros de rua mas a cada metro que avançava havia mais e mais pessoas na estrada em frente à Igreja. Novo aviso, de novo em Inglês “You’re crazy, you cannot pass here”. Continuámos, muito devagar. Desliguei os médios. À medida que nos aproximávamos, muito lentamente, do palco onde um grupo folclórico actuava, havia cada vez mais gente à frente do carro. Uma velhota aconselhou-me simpaticamente a fazer sinais de luzes. Continuámos devagarinho. Alguém avisou que a seguir ao palco estavam carros parados e que não se passava. Mas as pessoas lá se foram desviando. Inclusivé um grupo de pessoas mais velhas que estavam sentadas em cadeiras e que se levantaram pegando nelas. O dono do jipe que ‘barrava’ a estrada também apareceu nessa altura para o desviar e nos deixar passar. E até do palco veio um comentário à cena “é melhor pararmos que temos alguém ali fazendo rally”. E lá seguimos em direcção a casa no meio de muitos sorrisos e civilidade. Gotta Santa Maria!

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  2. Gostaria de obter o vosso contacto já que não o consigo fazer nem através do site do Público nem do grupo no Facebook “fugas”.

    Obrigada,
    Cumprimentos,

    Rita Teixeira

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