O elefante grande e gordo no meio da sala

Nuremberga pode ser uma das mais antigas cidades da Alemanha e apontar-se a si própria como uma das mais importantes da Idade Média. Mas o seu presente não escapa a um acontecimento histórico muito mais presente: a II Guerra Mundial. Basta dizer as palavras “julgamentos de Nuremberga” para a associação ser imediata.

Mas, a ligação da cidade a Adolf Hitler é muito mais forte e incómoda para os seus habitantes do que período dos julgamentos dos antigos líderes nazis. Hitler, conhecedor da importância histórica da cidade e da sua localização central no país, escolheu Nuremberga como o palco dos congressos nacionais do seu partido e era aqui que aconteciam as gigantescas paradas militares que elevaram o führer a uma condição quase mitológica.

Hoje, o espaço que Leni Riefenstahl imortalizou no filme O Triunfo da Vontade tem o peso de um grande e gordo elefante no meio da sala lá de casa.

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A tribuna em que Hitler se dirigia aos seus apoiantes está a cair aos pedaços. Há avisos que indicam aos visitantes que, ao subir, está a fazê-lo por sua conta e risco. Do enorme palco com colunas a agigantar-se de ambos os lados e culminando em torreões altíssimos, só resta a estrutura central — as colunas desapareceram e os torreões foram reduzidos a menos de metade da sua altura original.

A suástica que encabeçava a estrutura foi destruída numa explosão provocada pelas tropas norte-americanas, em 1945. E os pilares laterais da tribuna foram rebentados e retirados pela cidade, em 1967, por razão de segurança. Hoje, permanecem as bancadas, que os alemães usam para tomar banhos de sol ou para assistir a espectáculos que ocorram na passarela em baixo, como uma corrida automóveis programada para os próximos dias.

Em frente, o espaço que era ocupado por milhares de soldados e simpatizantes de Hitler, em manifestações de apoio que Riefenstahl transformou num ballet coreografado e apoteótico, há relva e campos de jogos. Não é fácil imaginar ali homens apinhados, de braço erguido em direcção a um líder de cabelo escuro e bigode curto, nem as enormes bandeiras nazis a voar ao vento.

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A tribuna, já disse, está a cair aos pedaços. Há garrafas de cerveja e pacotes de bolachas vazios espalhados pela escadaria rachada e suja. Como se ninguém soubesse muito bem o que fazer com aquele pedaço do passado — ainda que a cidade tenha sabido dar um uso extraordinário a outra construção de Hitler, aquilo que seria o Congresso, transformando-o no fabuloso Centro de Documentação, que explica exaustivamente a relação do führer com Nuremberga e a sua ascensão ao poder na Alemanha.

Nuremberga englobou de forma exemplar o projecto inacabado do Congresso de Hitler no seu presente. Mas parece não saber o que fazer com um local tão icónico como a sua tribuna no campo Zeppelin.

A sensação que fica é que ninguém tem coragem de destruir completamente o palco do poder de Hitler. Mas que, secretamente, a cidade está à espera que ele caia por si. Livrando-a do seu peso desmesurado.

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