Nossas senhoras das flores

Que fazem estas senhoras de joelhos no chão nesta noite fria e ventosa? Arrumam flores e peças mágicas na rua, pelo alcatrão, à porta da igreja. Seguem os desenhos que fez Rocío -“a que trabalha na farmácia”, diz-me uma das senhoras -, agora esboços riscados pelo chão. É apenas uma meia dúzia de desenhos, “que este ano não há flores de jeito”. Mataram-nos a Primavera e tem sido uma morte dura para todos.

Aqui, nesta pequena e acolhedora vila de Santa Eulalia de Oscos (população, contando todo o município: “uns 500”), terra carismática das Astúrias ocidentais, duas dúzias de senhoras (homens era um ou dois) trocam piadas, abraçam os casacos e batem as mãos para afastar o frio. À última espiadela ao neón da farmácia, batiam os 8º. “Isto num 1 de Junho!”. É madrugada de sábado e os tapetes de flores têm que estar perfeitos para domingo de manhã, a tempo de serem admirados por uns e pisados por outros (pelas celebrações e procissão do Corpo de Deus e pelos pequenos que fazem a primeira comunhão). A tradição de fazer florir ruas, casas, fachadas, claro, já a conhecemos bem e não faltam casos exemplares também por Portugal. Pelas redondezas (já lá vamos), até há outras terras-rainhas de tal actividade, íman turístico uma vez ao ano. Mas nós fomos acolhidos por esta Santalla (Santa Eulalia em asturiano) longe das massas turísticas, que conserva uma honra da hospitalidade que parece ser apanágio das Astúrias.

A vilazinha é um porta-estandarte da arte de receber com tempo. É a arte da paciência. Como se nota pela longa, longa noite que espera estas senhoras que vão debruando tapetes florais. Todos têm que ser feitos numa noite só, para contornar o vento, a chuva, para apanhar o povo de surpresa à ansiada luz do sol. E arte e engenho não faltam a estas povoações isoladas ao longo de séculos de história e milénios de geografia complexa (um contínuo de montanhas a picar os céus, vales vertiginosos, costa de abruptos e recortados precipícios): se as flores não chegam para tudo, os desenhos, religiosos, vão ganhando as suas cromáticas formas com macarrão, borras de café, mãos-cheias de pós coloridos. É um trabalho de equipa bem orquestrada. “Como se organizam?”. “Ora, uns vão ali fazendo um, outros vão ali fazendo outro, vai-se vendo”, diz-me uma senhora de curtos cabelos brancos e olhos espevitados. É a mais perfeita das organizações, está nos genes, não precisa de excéis.

Nós, que somos fracos, não ajudamos. Fugimos do frio e só voltaremos de manhã, de passagem, a ver o resultado final. Pela rua principal, sucedem-se até a um altar ao ar livre os desenhos, interligados por um caminho de folhas. Perfeitos, esboçados em cores, flores, massas e tudo. A um canto, com todo o verde vale pelas costas, descansam algumas das artistas. O cansaço está no rosto mas o sorriso de orgulho até ilumina o dia nublado. O trabalho que fizeram é capaz de não durar mais que 24 horas, levado, flor a flor, pó a pó, pelas brisas. Mas o sorriso é capaz de lhes durar o ano inteiro. Até ao próximo Corpus Christi.

 

 

 

 

Nesta tradição de ata­pe­tar de flo­res as ruas, o povo de Santalla não está só. Muito pelo contrário.  Aliás, a uns 40km, iremos passar pela mais afamada das terras nesta arte, Castropol, Astúrias resvés Galiza. Nesta grande e histórica vila, que se ergue na margem de uma ria (a de Ribadeo), a tradição dos tapetes florais já terá mais de um século e é levada muito a sério: durante a noite, conta-nos o alcaide local, José Ángel García, que também andou de joelhos a florir desenhos e que se mostra aborrecido por o vento estar esvaziar muitas das criações, foram mais de 300 pessoas e quase meio quilómetro de “alfombras” que ocupam largos e ruas e mais ruas. Todas ruelas, na verdade, por onde uma multidão contínua vai, passo a passo, admirando as construções desde os diminutos passeios. Motivos religiosos, orgulhos locais, motivos tradicionais. Tudo construído com muitas flores (atraindo o evento milhares de turistas, estas, aqui, não faltaram) mas também, como em Santalla, com outros materiais – vão-se vendo conchas, borras de café, sementes.

Mais que decoração, tradição ou religião, Santalla ou Castropol  – ou inúmeras outras terras semelhantes – o que mostram é que um povo unido (ou uma parte dele) pode não só fazer mover montanhas como fazer nascer flores das pedras e do alcatrão.

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Luís J. Santos viajou a convite da easyJet, Turismo Espanhol e Turismo das Astúrias

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