O idiota

São muitos os que dizem não saber o que fariam se lhes faltasse a mulher, o marido, o namorado, a namorada. Eu sei: faria merda. Perdoem-me o francês, mas tenho provas empíricas, documentação, relatos, testemunhas e mazelas duradouras. O que a Liliana consegue resolver com dois truques de retórica e um olhar sedutor ou fulminante, conforme o caso, eu consigo transformar num emaranhado irresolúvel de problemas ou, na pior das hipóteses, na possibilidade de ir parar a um centro de detenção holandês por suspeita de terrorismo.

Viajar sozinho deixa-me sempre apreensivo. Sei que vou falhar um horário (por exemplo, a hora do check-out no hotel, por quase três horas…), uma ligação, o voo, que me vai faltar um documento. Sei que vou preparar a mala com base no que acho que será a meteorologia no destino sem consultar qualquer previsão informada. Sei que me vou esquecer dos chinelos. Sei que não vou desenhar um roteiro para tornar eficiente o passeio turístico. Sei muita coisa. Mas o mais importante é que sei que, mais tarde ou mais cedo, vou fazer asneira da grossa.

A entreda do aeroporto de Schiphol, Amesterdão (Foto: Cjh1452000/Wikimedia Commons)

A entrada do aeroporto de Schiphol, Amesterdão (Foto: Cjh1452000/Wikimedia Commons)

A façanha que consegui realizar ontem, no aeroporto de Amesterdão, é capaz de bater todas as habilidades do passado. Tudo porque fui incapaz de dizer “não” a uma senhora muito simpática que, na fila do check-in, me pediu ajuda com a bagagem. Teria cinquentas, sessentas – não sei dizer ao certo. Só falava português e, com os olhos suplicantes de uma mãe em aflição, explicou-me que tinha malas muito pesadas, que tinha exagerado na compra de artigos de mercearia, que toda aquele volume se devia ainda a roupa e a outras compras avulsas.

Percebi que precisava de ajuda para pôr as malas no tapete-balança do check-in. Mas não era isso. Força, ela tinha; do que ela precisava era de alguém que despachasse umas das malas como sua, para que ela não tivesse de pagar a taxa por bagagem extra. Eu tinha apenas uma mala de mão e, quando fui entalado pela realidade do pedido, não fiz o que qualquer pessoa de bom senso teria feito: “Ah! Desculpe, mas isso não posso fazer.” Em vez disso, mantive a disponibilidade e avancei com ela para o balcão, como se fossemos velhos conhecidos.

A senhora viajava com mais duas mulheres, uma teria a mesma idade e a outra era mais nova. Também estavam cheias de bagagem. Despacharam as duas malas maiores e ficaram com as restantes, à laia de bagagem de mão. Estávamos os quatro em balcões vizinhos e a funcionária que me atendia estranhou o peculiar retrato que tinha à frente. E perguntou: “O senhor conhece estas três senhoras?” Sim. “Tem a certeza?” Tenho. (Imbecil…)

As malas passaram. A senhora agradeceu-me tanto quanto podia. Por esta altura, já tinha começado a vislumbrar a miríade de problemas que uma empreitada daquelas me poderia valer. Dirigi-me para o controlo da bagagem de mão e, depois de o atravessar, vi uns quatro ou cinco agentes da polícia de metralhadora em punho. Conversavam. Passando por eles, disse-lhes, sem abrir a boca: então, até já. E fui para a porta de embarque.

Ali esperei sentado mais de uma hora com os ouvidos no altifalante. “Senhor Hugo Torres, do voo tal e tal com destino a Lisboa, é favor dirigir-se ao balcão das informações.” Não aconteceu. A polícia também não apareceu e a porta de embarque abriu. Perguntei-me se o controlo das malas de porão era feito em toda a bagagem, com raios-x e cães a farejar drogas, mas acabei por concluir que o razoável seria que esse controlo fosse aleatório. Talvez me caçassem em Lisboa.

As três mulheres compareceram. O que não me obrigaria a ficar com uma mala à chegada, ou a explicar às hospedeiras que, caso procedessem à retirada da bagagem das passageiras em falta, teriam também de retirar a minha e deixá-la junto das outras. Sendo assim, tinha pelo menos três horas de liberdade asseguradas. A não ser que me viessem buscar ao avião. Não foi necessário: o caso precipitou-se ali mesmo, na porta de embarque.

Era demasiada bagagem de mão. Não as deixaram passar. Teriam de pagar taxas. Como não queriam fazê-lo, armou-se grande confusão. A funcionária da companhia ameaçava deixá-las em terra. As visadas exigiam tratamento idêntico ao que diziam ter sido dado a uma mulher com uma mala que tinha o mesmo tamanho daquelas malas juntas. O alvoroço intensificou-se, ninguém se compreendia: de um lado falava-se português; do outro, inglês. Na minha cabeça falava-se por raios e coriscos.

Eu sabia que ia sobrar para mim: uma das funcionárias que estava a verificar os bilhetes era a mesma que nos tinha atendido no check-in. Quando chegou a minha vez, disse ela: conhece mesmo estas senhoras? Sem saber se a verdade seria agora pior do que a mentira, respondi: sim, conheci-as hoje (o que era verdade: tinha-as conhecido há mais de uma hora…). Ela insistiu. E eu cedi. Pediu-me para me chegar para o lado e dirigiu-se à colega que tinha tratado da confusão com ameaças de deixar as passageiras em terra. Falaram em neerlandês: eu estava tramado.

Explicaram-me os perigos do que tinha feito, que se elas transportassem drogas, por exemplo, eu seria implicado. (Drogas! Eu tinha passado a fase das drogas há muito. Depois de passar em revista todos os eventuais riscos, já cogitava sobre acusações de terrorismo…) Fiquei à espera que telefonasse para alguém, alguém que viesse fazer de mim exemplo, alguém que me viesse ensinar a não me meter com as regras dos aeroportos. Não o fez. Em vez disso, sorriu e disse que compreendia que se tratava de um caso de boa vontade. O que não impediu os olhares reprovadores da centena de pessoas que estava à espera na fila. Não me lembro de alguma vez ter sido mandado para o canto da sala de aula, muito menos com orelhas de burro. Mas aposto que a sensação deve ser parecida com a que ali senti.

A dona da “minha” mala foi chamada de volta à porta de embarque e obrigada a pagar a taxa. Arrependido até à última gota de sangue, ainda tive de ficar a traduzir as indicações de uma e as reclamações da outra. Sim, porque voltaram a comunicar cada uma numa língua e as ameaças tinham regressado. (Tenho agora uma imagem muito concreta da expressão lost in translation.)

Já no avião, sentei-me como previsto ao lado das três mulheres, que ainda tiveram ânimo para escrever uma reclamação pela forma “ultrajante” como tinham sido tratadas. Sempre que me interpelavam, não sabia o que dizer: era óbvio que tínhamos feito asneira, mas não podia verbalizá-lo.

Os voos Amesterdão-Lisboa duram três horas. Mais uma hora e meia entre o check-in e o embarque, são quatro horas e meia de expectativa e tensão. Até a cerimónia da minha primeira comunhão foi mais rápida – e nessa altura pelava-me de medo de que os meus pais decidissem unilateralmente e sem aviso prévio deixar-me sozinho no mundo. Foi um castigo à altura da minha estupidez.

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