Um país à direita

Numa pequena cidade a poucos quilómetros do Porto, aprendi que o trânsito na desnivelada e apressada Invicta dos nossos tempos era monstruoso, caótico ou, na melhor das hipóteses, muito difícil de domar. No entanto, nunca encontrei vestígios das míticas provações do tráfego portuense e, depois de ano e meio a viver por lá, quando me mudei para Lisboa, também não encontrei na capital as bíblicas provações que a Norte me relatavam (mas há quem insista).

São provavelmente resquícios de épocas pouco mas intensamente viajadas – Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!, etc. A mim, os “bichos” da Praça de Mouzinho de Albuquerque (rotunda do Boavista), no Porto, e da Rotunda do Marquês, em Lisboa, não chegaram a mostrar os dentes e são desde há muito visitas de casa. E acredito pouco que o venham a fazer.

O mesmo não se passa em Amesterdão. O trânsito aqui é impossível! Há ciclovias por todo o lado. Nem a pé estamos descansados, quanto mais de carro. Vamos a atravessar a estrada e: trim! trim! É um acidente à espera de acontecer. Há bicicletas por toda a parte. E pessoas. Sobretudo pessoas, que não deixam espaço para quem vai descansado no automóvel.

Um rapaz no seu bólide é um rei no trono, um Bruce Wayne no Batmobile, um Lucky Luck no seu Jolly Jumper. Sabe que, se quiser, será mais rápido do que a própria sombra. E faz o que lhe apetece: apita, guina, acelera, pára por caridade e estaciona onde lhe convém. Recorre apenas à diplomacia estritamente necessária a evitar guerras duradouras – respeitando, por mera boa-vizinhança, os tratados (código da estrada) – e pouco mais. As relações exteriores limitam-se a uma única regra protocolar: cada um circula à sua direita.

Ora, em Amesterdão, há duas direitas! Por uma, circulam os carros; por outra, as bicicletas. O que significa que existem duas esquerdas e que a esquerda da bicicleta pode não coincidir com a dos automóveis e estar entre as duas direitas. Uma confusão. Entre isto e o acelerado trânsito turco ou os indianos que rolam em auto-gestão por aquelas estradas fora, venha o diabo e escolha.

Há uns anos, uma amiga que fez Erasmus por estas paragens levou a Braga o que dizia ser uma particularidade holandesa: em Amesterdão, até as pessoas circulam pela direita nos passeios. A multidão que anda pelas ruas – dizia ela – divide-se em dois movimentos perfeita e espontaneamente organizados: quem sobe segue pela direita, quem desce vai pela esquerda (que é a sua direita). Na altura, concordei em apodar esta gente de peculiar. Mas não acreditei assim tanto.

Até o pacote de sumo que me ofereceram enquanto escrevia este post tem a palhinha à direita e não atrás

Até o pacote de sumo que me ofereceram enquanto escrevia este post tem a palhinha à direita e não atrás

Ontem, mal cheguei ao centro da cidade, fui ver as modas. E quando descia uma das principais avenidas da cidade, dei por mim à direita e com pouca vontade de ultrapassar pela esquerda, por onde vinha uma multidão em bloco na direcção oposta. Fez-se luz (e, na minha cabeça, a Catarina sorriu, a reivindicar vitória). Mas recusei. Não podia ser verdade. Afastei-me um pouco e fiquei a olhar. E todavia ali estava, mesmo à minha frente, a crua realidade.

Com mais uma direita e uma outra esquerda – ou seja, três de cada uma –, percebi que seria muito difícil de me ajustar ao trânsito local. É demasiado complexo, demasiado suave, nem para descarregar as frustrações de um dia de trabalho deve servir. Com tantas direitas e esquerdas, é quase impossível que a culpa não seja do condutor quando algo corre mal. Pobre diabo… contra quem gritará? E os insultos e as buzinadelas – guarda-os?

Quando o meu tempo chegar e for a minha vez de avisar a incauta juventude sobre os perigos da condução, direi de costas direitas: nestas ruas até um velho como eu se safa; gostava de ver nos cruzamentos triplos de Amesterdão…

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