Ceci n’est pas un Pico – parte II

Ora dizíamos então que em cerca de seis horas e meia corremos o Pico de carro, a parar de dez em dez minutos para mais uma foto de uma cor impossível, para mais uma conversa com quem é afincadamente simpático para nos explicar como quebram as ondas no meio de tanta rocha, onde comer, onde encontrar caipirinhas, onde é a casa museu, a procissão ou os trilhos junto ao mar.

É possível andar um dia inteiro à volta da ilha do Pico e não o ver? Sim. O Pico faz falta? Mais ou menos. Nesta ilha com 14 mil habitantes em que parece haver mais turistas estrangeiros, sobretudo nórdicos, do que as baleias ao largo que eles vão visitar, a experiência é então technicolor. E se passámos pelo Moinho de São João (vermelho), espreitámos as furnas de Santo António (negro sobre azul), vimos o Museu da Indústria Baleeira frente ao mar de São Roque (branco), depois foi sempre a subir.

Sem a maior das subidas, a de dois mil e tal metros invisíveis neste sábado, come-se o interior da ilha com casacos de tirar e pôr e muito verde, mastigado pelas vacas brancas, beges, cinzentas ou negras de olhar desconfiado e movimentos cautelosos quando vêem mais uma criatura de máquina em riste e cheia de falinhas mansas.

A ideia era descobrir as Lagoas nesta ilha sem praias de areia – piscinas naturais, sim; cais com deslize directo para a água via rampa, sim; pontas para saltar, sim. Areais e essas burguesias de estender de papo para o ar? Isso não é para o Pico, onde há lagoas escondidas entre as montanhas cuja culpa é dos vulcões. E que ou são verdes, ou são verdes. Vegetação luxuriante, quilómetros sem um humano à vista, montes e vales, animais pacíficos, manteiga, inhame, vinho, queijo fresco com massa de pimentão. Isso tudo já se sabe. O que não se sabe é do barulho ensurdecedor, a centenas de metros de altitude e de distância, que as rãs fazem lá de baixo da Lagoa do Peixinho, da Lagoa do Paul, da Lagoa do Caiado, com a Laje (968 m) ou os Grotões (1008 m).

Nem de propósito, o Magritte que nos alumia – ou melhor, que nos inspira para títulos – tem uma espécie de extensão na pintura Os Dois Mistérios (1966). Ora não faltam mistérios na ilha do Pico, porque eles são manchas inteiras na paisagem, campos de lava nascidos nas maiores erupções na ilha – os habitantes chamavam-lhes “mistérios da natureza” à falta de explicação para aquelas extensões negras de pedra esburacada.

De mistério em mistério, de verde escuro em verde claro, de vermelho vivo para o azul do mar, ainda havemos de ver o Pico (a montanha).

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Joana Ama­ral Car­doso (texto) e Miguel Madeira (fotos) no Pico

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