Ceci n’est pas un Pico

Seis horas e meia, umas boas de dezenas de quilómetros e muitas linhas de costa e muitas mais ainda de colinas, montes e vales, vimos todo o Pico. Todo? Não. Uma montanha que é o ponto mais alto de Portugal ainda resiste aos visitantes. E a vida não é nada fácil para os jornalistas que rodeiam o monte. É preciso analisar as várias tonalidades de profundo azul, escrutinar quantos verdes contém uma ilha, enrolar os pés num e mais outro campo de pedras negras, conhecer surfistas locais e raças de cães e tentar nunca, mas nunca, assustar as vacas.

Num intervalo de uma reportagem a publicar mais à frente na revista 2, faça-se então o reconhecimento do terreno. Afinal, pelo menos para um de nós, este é o primeiro pé nos Açores e se no dia da chegada vimos o Pico do ar, do mar e de terra a brincar às escondidas entre as nuvens e um glorioso sol de fim de tarde, no sábado ele recolheu-se, talvez em preparativos para o Domingo de Pentecostes em que muitas freguesias da ilha se desdobram em festas, missas e procissões (não necessariamente por esta ordem) para prestar honras ao Divino Espírito Santo.

Pois então lá fomos ao Pico sem Pico, claramente ceci n’est pas un Pico, mas aguenta-se. O dia começa com um cachorro chamado Bono (o muito jovem dono responde-nos com um olhar interrogativo quando lhe perguntamos se é por causa do vocalista dos U2), faz uma paragem de meio da manhã para andar de baloiço e de escorrega com oito corças e uns quantos perus a observar, prepara-se para um exercício antes de almoço com uma cadela chamada Brisa (raça Barbado da Terceira, diz-nos o surfista seu dono) e termina com demasiadas vacas de permeio para chamarmos os bois pelos nomes.

O Pico é uma festa. Se os Açores são isto, não podemos mais. São demasiadas casas negras de portas e janelas coloridas – e fica tudo em família, porque não vamos longe dos vermelhos, rosas ou laranjas -, demasiados contrastes entre o negro herdado da lava e o branco da cal. Demasiada arrumação para vinhas e figueiras entre muros – e até a Unesco veio cá classificar – geometricamente alinhados como num videojogo. Moinhos vermelhos de pás brancas meticulosamente conservados e pintados para darem vista para o lajido, para o caminho Rola Pipas onde os caranguejos vermelhos (e podiam ser de outra cor?) se escondem contra as ondas na zona da Criação Velha. E muita, muita calma numa ilha onde até as limas são doces.

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Joana Amaral Cardoso (texto) e Miguel Madeira (fotos) no Pico

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