Sr. passageiro, da sua bagagem exclua tesouras, facas… e pepinos

É verdade. Não vem em parte alguma que se trata de algo que não se possa transportar na cabina de um avião. Por isso, nada mais natural do que enfiar o dito na mala. Afinal de contas, um pepino é só um pepino e não estamos em tempo de desperdiçar coisa alguma.

A esta altura está alguém desse lado a perguntar: «Mas por que raio a tonta da rapariga terá enfiado um pepino dentro da mala?».

Eu explico: o dito chegou-me num pack de ofertas de simpatia da Hendrick’s (marca de gin que substitui a rodela de limão por uma deste vegetal) durante uma apresentação da bebida a jornalistas na Escócia: uma pasta com documentação, duas miniaturas do gin em causa, duas minilatinhas de água tónica (que, por sinal, já tinham ficado no aeroporto de Glasgow por ultrapassarem em 0,3dl a medida regulamentada), uma rosa vermelha e — chegamos à parte que interessa — um longo, magro e pontiagudo pepino.

Na cidade escocesa, pelos vistos, a imagem do dito no ecrã não suscitou dúvidas a ninguém — e, tendo em conta a forma que observei mais tarde no contraste, só posso imaginar o que aquela gente pensou que fosse. Em Heathrow, porém, a música é outra. Porque em qualquer aeroporto europeu alguém ainda pode passar por não ser terrorista. Mas, no maior aeroporto londrino, terroristas somos todos: bebés de colo, jovens, homens, mulheres, velhinhos e velhinhas. E nada (nem ninguém) escapa à segurança que, sem qualquer tipo de gentileza, lá vai remexendo nas malas de toda a gente. O que numa partida nem seria mau. Já num voo de regresso implica partilhar com centenas de pessoas a nossa roupa suja. No sentido literal da coisa.

Chego à fila de futuros revistados (e possíveis criminosos) e a bolsa de uma rapariga é vista de fio a pavio. Tinha lá dentro um colar. E já se sabe do que as mulheres que usam colares são capazes.

Entretanto, a mulher que vê a sua mala revistada antes da minha revela classe da cabeça aos pés. Passou com uma mala de roupa e mala de mão. À parte vinha um saquinho (recado ao srs. da ANA: de distribuição gratuita!) com os vários produtos de higiene. É então que a mala da roupa começa a ser escrutinada. E, subitamente, começam a jorrar dela frascos e frasquinhos. Entre as saias e as blusas, litros de perfume e quilos de cremes. O funcionário da segurança vai colhendo os frascos da mala da senhora não conseguindo disfarçar a expressão de incredulidade perante tanto despautério (a lata, senhores!).

Chega a minha vez. Pergunta de ar sisudo e ameaçador: “Do you carry anything sharp?”. “Excuse me?”, peço para repetir. “Do you carry anything sharp? A knife maybe…” (“Transporta alguma coisa afiada? Uma faca talvez…”)

# pausa na história (e quem quiser pode já passar ao parágrafo que se segue) – em milionésimos de segundo a minha mente faz uma lista do que guardei na mala: uma saia, duas camisolas, roupa interior, paracetamol em comprimidos, uma pasta com documentação e um CD, um par de sapatos – fim de pausa#

“Not that I’m aware of.” (qualquer coisa como “que eu saiba, não”)

“I’ll have to ask you to look through your bag. Something turned out on screen.” (“Tenho de lhe pedir para revistar a sua mala. Apareceu uma coisa no ecrã.”)

“Yeah! Sure!” (“Vá lá despacha-te com isso que estamos nisto há séculos e ainda perco o voo”)

Começa por tirar as peças de roupa que estão no topo. “Olhe que isso é roupa suja”, aviso. Até que por fim percebo que o problema reside no fundo da mala: o pepino!

O segurança pega no vegetal e pergunta: “Why do you have one of these in your suitcase?” (“Porque tem uma coisa destas na mala?”). A única coisa que me ocorre, já depois de me ter escapado uma gargalhada, é dizer a verdade: “That’s a thing from work.” (“Isso é uma coisa de trabalho”)

Foi pior a emenda. Nesta altura já se ri o segurança, os estranhos que me rodeiam, a colega que me acompanha. E sobretudo eu própria que ainda consigo murmurar num portinglês um “That didn’t sound good, did it?” (“Não soou lá muito bem, pois não?”). “Not really” (“Nem por isso”), desabafa.

Ainda tentei explicar. Mas, talvez receoso do que ainda poderia escutar, o homem, que também continuava a rir, preferiu nem ouvir. Em dez segundos, arrumou-me a mala e mandou-me embora.

O pepino? “If you say it’s a work thing… Take it! Take it!”. Enfim, chegou a Lisboa são e salvo.

Cucumber

Fotografia da Hendrick’s

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