Hué ou Nam Hai, eis a questão

Foi uma decisão difícil de tomar. O mar que se vê da varanda do quarto é um íman demasiado poderoso e a piscina que parece prolongar-se oceano adentro só torna as coisas mais complicadas.

Para ajudar à festa, a noite dormida passou demasiado depressa – voltámos ao Zero Sea Limit, o bar do dinamarquês Tony, tomámos de assalto a cabine do DJ e acabámos a dançar o Malhão na companhia de um casal indiano e outro francês, que acharam piada às voltas estranhas deste grupo de portugueses.

Ainda por cima, a viagem de Quang Nam, morada deste paradisíaco The Nam Hai, até Hué dura três horas de autocarro. Fazem-se contas de cabeça: três e três seis, mais potenciais atrasos, aí umas sete – e isto quer dizer que não poderemos entregar-nos à boa vida a que convida o hotel.

Adiamos a decisão até ao último minuto mas acabamos por rumar a Hué, cidade que já foi capital do Sul do Vietname. Situada nas margens do rio Perfume, Hué, actualmente com cerca de 290 mil habitantes, destaca-se sobretudo pela imponente cidadela construída no início do século XIX pelo imperador Gia Long, da dinastia Nguyen, que governou o país até 1945.

 

A primeira coisa em que se repara mal nos aproximamos da cidadela, que se apresenta rodeada por enormes fossos, é na imponente Torre da Bandeira – com 37 metros de altura, escreve o Lonely Planet que é o maior mastro do país. A bandeira vietnamita, de fundo vermelho com uma estrela amarela, ondula suavemente no topo.

A entrada principal para a cidade muralhada é a Porta de Ngo Mon e no cimo dela encontra-se o Ngu Phung, o lugar onde o imperador aparecia em ocasiões importantes da vida do país. Foi aqui, aliás, que, em 1945, terminou a dinastia Nguyen, quando Bao Dai abdicou em favor de uma delegação enviada a Hué por Ho Chi Minh.

Hué e a sua cidadela são, pois, lugares carregados de simbolismo e de significado histórico – e também por isso foram fortemente bombardeadas durante a Guerra do Vietname. Da Cidade Proibida Púrpura, por exemplo, que terá sido inspirada na homóloga de Pequim, praticamente não sobra nada. Sobram, no entanto, algumas peças da dinastia Nguyen, guardadas no museu no interior das muralhas. Em exibição, mobiliário real, armaria e peças decorativas.

A par da cidadela, os túmulos dos imperadores são o grande atractivo para quem vem de visita a Hué. A grande maioria deles está situada ao longo das margens do rio e quem não tiver dias a fio precisa de decidir primeiro qual prefere ver. Tocou-nos o do imperador Tu Duc, que governou entre 1848 e 1883. Assim que entramos no recinto, cai aquela que é a nossa primeira chuva vietnamita. É fraca mas ajuda a temperar o calor tórrido que nos assola há vários dias e serve para tornar mais bucólico o ambiente que temos pela frente. A vegetação é frondosa, há um embarcadouro num lago repleto de nenúfares e o silêncio é quase total. Tu Duc, que teve o reinado mais longo da dinastia Nguyen e acumulou 104 esposas e um número incontável de concubinas, pensou este local para dele usufruir em vida e depois da morte.

Subimos um lanço de degraus escorregadios dos chuviscos e, antes mesmo do pátio onde estará sepultado o imperador – o guia Thang explica que ninguém sabe qual o lugar exacto do túmulo real e que os homens que enterraram Tu Duc foram mortos, justamente para não revelarem a sua última morada  –, encontramos um outro, o Pátio de Honra, onde filas de elefantes, cavalos e mandarins de pedra dão as boas-vindas a quem chega. Só depois chegamos ao suposto sepulcro do imperador e percebemos que este não é o lugar mais impressionante do mundo.

Impressiona muito mais a vista que se tem do pagode de Thien Mu sobre o rio Perfume. Quem disse que ficaríamos melhor na piscina?

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