No Natal de Barcelona, os Caganers são reis

Chegámos à frente da Catedral de Barcelona, depois de passar um céu de iluminações natalícias que parecem apontar para cada uma das milhares de lojas apetrechadas para convencer locais e turistas, e torna-se certo que, por aqui, com o Natal não se brinca (ou quase, já vamos ver porquê). À frente do imponente monumento do Bairro Gótico perfilam-se quase três centenas de barraquinhas num mercado de Natal que marca pontos na Europa. É a Feira de Santa Llúcia, a celebrar 226 anos, que lá por ter sido dia de eleições na Catalunha não deixou de abrir na data que manda a tradição: inaugurou no domingo 25/11, dia em que a Catalunha foi a votos sob o dilema da independência (o resultado foi uma prenda de Natal algo dúbia e surpreendente).

Pela feira, o voto é no Natal: abstenham-se os alérgicos a hinos e décors natalícios e às mil e uma maravilhas que podem compor presépios. Pelas ruas da feira, o grande destaque são peças artesanais de toda a espécie ligadas às celebrações, figuras e cenários, madeiros e cortiços, imagens e esculturas em barro, musgos e vegetações várias, etc., etc. É tudo o que você sempre quis (e o que nunca pensou querer) para equipar o lar. O artesanato junta-se à modernidade e por aqui é fácil encontrar coisas como bombas de água para fontes ou cascadas, os mais variados jogos de luzes, moinhos com movimento, motores eléctricos para as mais diversas funções no presépio, caixas de música de natal, e tal e tal.

Mas, neste paraíso estelarmente iluminado onde a religião anda de mão dada com o pagão e o kitsch namora a tradição, há umas barraquinhas temáticas que gritam mais alto e parecem ser o maior êxito da feira, atraindo dezenas a cada instante. Vamos espiar, só para descobrir que são as únicas que, aparentemente (mas só aparentemente), nada têm a ver com o Natal. Bem-vindos ao mundo dos Caganers, provavelmente as mais surpreendentes figuras “natalícias” do mundo.

Presumindo que a palavrinha “caganer” não precisa de tradução para o leitor luso, limito-me ao resumo simples: são uns bonecos, tradicionalmente um camponês, em literal posição de caganer. Simples, não? Mas uma empresa de Girona teve há umas décadas a ideia de unir o caganer com a fama e criou “caganers” que satirizam figuras conhecidas de todos os sectores.

É por isso que as barraquinhas dos Caganers são o maior sucesso desta feira. Em que outro ponto do mundo se pode ver, lado a lado e em posição defecal, figuras como a rainha de Inglaterra ou Juan Carlos e Sofia de España, Putin ou Hollande, Rajoy ou Chávez, políticos catalães e espanhóis, Charlot e Picasso, polícias e ladrões, Dom Quixote e Batman, Springsteen ou Gandhi, todos os jogadores do Barça e outros srs. do futebol (se há Messi, obviamente não poderia faltar Ronaldo; e Mourinho também marca presença)… Ninguém escapa, nem o Papa nem o Pai Natal. Anualmente, actualizam o portefólio, com figuras a quem a fama dá estatuto.

Há ainda a variação do Pixaner, que em lugar de defecar, urina. E sublinhe-se que, tal como todo Pixaner tem direito ao seu jacto plástico de urina, não há caganer sem o seu, enfim, artístico cocó.

O mote desta colecção de centenas ou milhares de personalidades-caganers é capaz de ser a absoluta democracia: por mais poder ou mais fama, o certo é que quando chega o momento da verdade somos todos iguais.

Agora, a cereja no topo do bolo: que fazem neste mercado de Natal as barraquinhas dos Caganers? Se bem perguntamos, melhor somos respondidos. São mesmo figuras tradicionais de Natal e servem para alegrar muito presépio catalão (e não só), normalmente fora do cenário natalício mas ainda assim lá por perto.

A todos, um feliz Caganer.

(para saber mais da feira – aberta até 23 de Dezembro – siga para aqui, para espiar Caganers o site está aqui)

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