Barcelona. A um concerto desconhecido

Deambular sem rota traçada nem tempo marcado. Há lá maior prazer numa viagem do que essa arte de nos deixarmos perder porque queremos, seguindo sinais, impulsos e intuições?

Deambulando por Barcelona, revivo o turbilhão das ramblas, sigo sacos de compras pelo Passeig de Gràcia, descubro mais um chocolate quente e um livro velho no Barri Gòtic, levanto os olhos embalado por um leve “uau” colectivo no momento em que a cidade estreia as suas iluminações públicas de Natal. Repetem-se em séries que parecem intermináveis, mas há uma sobriedade nos símbolos e na quantidade; algo me diz que a crise não é alheia à leveza do “uau”.

Passo e ultrapasso os milhares de passeantes, que Barcelona central e turística ao final da tarde é um carrossel difícil. E páro frente à Universidade de Barcelona, ex-libris sempre de admirar e visitar mas que, curiosamente, escapa aos turistas comuns. Na porta, um papel informa: a entrada para o concerto é pela Filologia – com a devida setinha para a porta filológica. Só não oferece é a informação básica. Que concerto, señores? Seguindo a seta, outro papel com a mesma informação. E continuando a seguir os sinais, mais uma série de cartazes com “Concerto ->”, que vão entrando pela universidade, subindo escadas, orientando-nos por um átrio superior. Tudo muito orientado, decerto, mas sem nunca informar, lá está, qual o concerto. Também não interessa. Decido nem indagar e deixar-me surpreender. Sigo as setas como se fossem guias de viagem.

A última conduz-me a uma sala de encher o olho, uma definitiva jóia da coroa do edifício histórico da universidade. É a Paranimf, a mais solene das salas do complexo, descubro depois. Nunca ali tinha entrado e parece-me um crime. É de uma opulência decorativa avassaladora, não há ponto na parede que não esteja decorado ou coberto, entre quadros imensos com sábios episódios, retratos de monarcas ou uma miríade de símbolos e pormenores em que se adivinha uma complexidade de interpretações.

A sala está cheia, com gente espalhada por bancos corridos, como de igreja. Atrás da série de bancos, cadeirões de vermelho veludo com toque de realeza. Dois estão vazios. Arriscamos perguntar e sim, não há formalidades, podemos ficar sentadinhos nos cadeirões. Sentimo-nos convidados de honra numa festa para a qual, afinal, nem fomo convidados… No altar deste templo universitário, um piano. O concerto, portanto.

Um discurso em catalão dá início ao evento. Continuamos sem perceber grande coisa sobre o solene concerto. Tentamos culpar mais o sistema de som que o nosso conhecimento da língua catalã, mas é capaz de ser injusto. Ainda percebo “jovens”, “21 anos”, “pianistas”.

Para o palco, entra uma rapariga nos seus 20, cabelo negro apanhado, vestido de gala sóbrio mas que deixa – rebelde e teatralmente – um braço a nu e outro coberto. Toma o piano. Aplauso. Os dedos correm-lhe pelas teclas. Dar-nos-ás dois temas em que, do alto da nossa ignorância musical, nos parecem perto de uma jovem magistral interpretação. Aplausos, aplausos, segue-se outro jovem, vestido com fato e o ar de quem acorda e adormece com os dedos nas teclas do seu piano. Depois de ouvi-lo e vê-lo arrebatar e tornar seus Beethoven ou Lizt, algo nos diz que o acaso é capaz de nos ter dado o direito de conhecer um futuro grande pianista.

Só depois descobrimos que acabámos de assistir ao recital dos vencedores de um concurso de jovens pianistas (Cicle de Primavera, se chama). Ela era a jovem Rosália Gomez, nascida na Galiza e tem 18 aninhos. Ele, Javier Rameix, nascido na Venezuela, tem 21. Ambos já em andanças pelo mundo e prémios destinados a desenvolver-lhes os talentos.

Para nós, ficou o prazer da descoberta e uma hora de harmonia, um intervalo apetecível no bulício turístico de Barcelona. Às vezes, deambular na paz da ignorância é uma benesse. Venham mais setas.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>