A igreja-máquina do tempo de Marselha

A igreja à beira do Vieux Port de Marselha é dedicada a Saint Ferréol. O edifício neoclássico de meados do século XIX resulta fotogénico, naquele enquadramento de praça monumental à beira-mar, mesmo se não se afigura especialmente brilhante do ponto de vista arquitectónico. Mais interessante, ou pelo menos invulgares são os estabelecimentos incrustados, um de cada lado, nas paredes laterais da fachada.

De um dos lados há um estúdio de fotografia, desses que não têm equipamento fotográfico, mas fotografias de casais e bebés sorridentes na montra. Do outro há uma tabacaria, dessas que já não vendem tabaco, mas postais e outros souvenirs.

As datas de abertura não estão à vista, mas os reclames e o design de ambos estabelecimentos sugerem o período entre as duas grandes guerras, ou até um pouco antes. O estúdio de fotografia é fácil de perceber, já que Saint Ferréol é o tipo de igreja que nasceu para celebrar casamentos e baptizados. Já a tabacaria é mais enigmática. Serviria para os padres matarem o vício? Ou para os crentes se distrairem durante os serviços? Certo é que uma e outra coisa, a casa de fotografia e a tabacaria parecem hoje negócios deslocados da zona mais turística da segunda maior cidade de França, sobreviventes algo inverosímeis de um passado já distante.

Dão menos vontade de comprar o que quer que seja que têm à venda, que imaginar que nas suas traseiras se abrem portas para a Marselha portuária dos bons velhos tempos, das legiões de marinheiros, viajantes e estivadores, que circulavam entre os grandes paquetes e os cargueiros do Vieux Port.

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