Um casamento e um funeral

Percebe-se a ideia: o hotel tem charme, o mar está à distância de dois passos, as palmeiras ondulam ao vento, a praia está deserta – o cenário perfeito para se contar uma história de amor.

Chegamos ao Anantara Si Khao Resort a meio da manhã  e no lobby assistimos a um casamento a fingir. Noivo e noiva estão equipados a rigor, de bege. Ela tem um vestido como se impõe, com cauda e pérolas ao longo do corpo; nele não reparamos muito, porque toda a gente sabe que o noivo fica sempre para segundo plano nestas coisas.

Não percebemos o esquema à primeira, mas quando os encontramos no bar junto à praia, ela descalça e com um vestido que não ficou para a história, ele com uma camisa a piscar o olho ao Havai, começamos a achar estranho. É Morten Junior, o director do hotel, quem desfaz o mistério. O Anantara tem um acordo com alguns operadores que permite aos casais de noivos virem para cá preparar a história fotográfica que apresentarão aos convidados no dia do seu casamento.  Assim se justificam as poses langorosas que ensaiam numa mesa de pé alto, as juras de amor que sussurram ao ouvido, os sorrisos cúmplices que atiram para a câmara.

Anne, a nossa guia, ainda se lembram dela?, explica-nos entretanto que estas produções pré-nupciais são o prato do dia na Tailândia. Na maior parte dos casos, a noiva não tem um, mas dois vestidos de casamento – um para esta ocasião, outro para o dia D. Por regra, os vestidos são alugados, não comprados, e são poucas as tailandesas que se casam com trajes tradicionais. Aqui, cool é ter um vestido à la ocidental.

Si Khao fica a uns 40 quilómetros de Trang, a cidade capital da província com o mesmo nome. O turismo de massas ainda não acordou para esta faixa de praias e ilhas espalhadas pelo mar de Andaman, que são precisamente um dos grandes trunfos da região. Ainda assim, Trang propriamente dita, uma cidade com cerca de 60 mil habitantes, vale muito mais a pena do que se possa pensar à primeira vista: é o sítio ideal para quem quiser observar a vida tal como ela é fora dos grandes centros.

A  outra face da vida é a morte – e os tailandeses olham para ela de uma forma que nos apanhou desprevenidos.

O Wat Tantayaphirom é das poucas atracções turísticas de Trang – para simplificar a questão, o wat é o templo budista. A stupa branca que domina o pátio interior destaca-se pela altura, mas não é ela que mais nos chama a atenção.

Ao fundo, numa espécie de armazém, está a decorrer uma cerimónia fúnebre. Observamos de longe, naturalmente, mas de repente uma mulher jovem e sorridente convida-nos a aproximar. Hesitamos, ela insiste.

A um canto da sala, acumulam-se coroas de flores semelhantes às que usamos em Portugal, vêem-se duas velas, uma mesa com comida, fruta sobretudo. Num plano elevado, uma urna fechada. É o pai de Nantarat Funchien, a mulher de 38 anos que nos convidou a entrar, que está a ser velado. Tinha 79 anos. Nantarat conta-nos isto com um sorriso desarmante nos lábios. Não sabemos logo o que dizer, só nos lembramos depois que o budismo Theravada, o professado na Tailândia, tem a reencarnação como um dado adquirido.

Estamos prestes a sair quando Nantarat, que dirige um jardim-de-infância em Banguecoque, nos aponta uma das dezenas de mesas instaladas no recinto do wat. Ainda resistimos, mais uma vez, mas percebemos que seria indelicado não aceitar. Num ápice, começa a surgir comida de todos os lados, essencialmente frutas e sobremesas coloridas.

Só não tivemos direito à lembrança das cerimónias fúnebres (sete dias velado neste armazém, mais três dias de cremação) do senhor Pradit Funchien: uma medalhinha com uma imagem de Buda e uma caixa de… Tylenol.

Sandra Silva Costa viaja a convite da Autoridade de Turismo da Tailândia

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