Em Maeklong, a ver passar o comboio

Adrees Latif / Reuters

Turista que é turista e está em Banguecoque não passa sem passar pelo menos uma manhã no mercado flutuante de Damnoen Saduak. Fica fora da cidade, uns 110 quilómetros a sudeste da capital tailandesa, e há transportes públicos que garantem a viagem – no nosso caso, temos um transfer próprio, que há-de demorar uma hora e meia, mais coisa menos coisa, a cumprir a distância.

A propósito, já dissemos que o trânsito de Banguecoque, Bkk para os amigos, é completamente caótico? Não há propriamente hora do dia ou da noite em que circular pelas avenidas largas não seja uma autêntica dor de cabeça. Pudera: diz-nos a guia que nos acompanhará durante toda a viagem (sabemos o nome dela, calma, mas ainda não sabemos como se escreve, prometemos voltar a este assunto) que os 12 milhões de habitantes da capital se deslocam na grande maioria de carro. A grande prioridade de quem vive em Banguecoque é, logo que atinge a independência económica, comprar um carro. Primeiro vem o carro, depois a casa.

Enny Nuraheni/Reuters

E como isto anda tudo ligado, os carros de quem vive em Banguecoque não precisam de ser luxuosos, mas precisam de ser cómodos. Como o trânsito é caótico, passam-se horas de mais ao volante, o que justifica o ar condicionado (para além do picante, outro modo de vida de quem tem de lidar com temperaturas altíssimas, que podem chegar aos 45 graus, como no Verão passado), a televisão, o leitor de DVD e, imagine-se, até o frigorífico.

Wanida, é esse o nome da guia que nos acompanha nesta incursão tailandesa, explica que algumas das refeições de quem vive em Banguecoque são feitas no carro. Muitas escolas, aliás, têm autocarros que, para além do transporte das crianças, lhes servem o pequeno-almoço; outras, no regresso a casa, têm um professor para ajudar os alunos  a fazer os deveres escolares. Para muitos deles, ir e voltar da escola significa três horas de viagem – há, portanto, que aproveitar o tempo.

Damnoen Saduak funciona todos os dias até ao meio-dia – durante a tarde, o calor torna-se sufocante, mesmo na estação das chuvas, em vigor agora –, pelo que é preciso deixar Bkk bem cedo. E aqui estamos nós, quatro portugueses e dois tailandeses a bordo de uma carrinha com lugares de sobra a rodar a uns alucinantes (!) 120 quilómetros/hora auto-estrada fora. É domingo, sete e meia da manhã e estamos a sair da cidade, o que explica a velocidade, extemporânea aos nossos olhos.

Antes de Damnoen Saduak, paragem em Maeklong, na província de Samut Songkram, para vermos passar o comboio – verdade, é esta a grande atracção do lugar e junto à cancela vermelha e branca já estão quilos de turistas de máquinas em riste. Compreende-se: aos olhos de um ocidental (também aqui há asiáticos curiosos, mas são a minoria) um mercado que funciona em cima da linha férrea não é coisa que se veja todos os dias.

火車的尾巴~
(kotoko1218/flickr/CC)

Maeklong é o supermercado local. Aqui, num edifício ainda avantajado cheio de bancas mais ou menos organizadas, vende-se de tudo: desde carne e peixe a produtos prontos a comer – ou mesmo bolachas e detergentes. Também há lotarias e meia dúzia de pontos de venda de cuecas e meias e outros básicos que tais.

Há um edifício, dizíamos, mas o mercado entretanto cresceu para a linha férrea. Dezenas de vendedores, mulheres sobretudo, amontoam-se em bancas onde se oferecem à vista de todos marisco fresco e seco, vegetais viçosos, frutos mais ou menos exóticos (um quilo de maçãs vermelhinhas a 10 bahts, qualquer coisa como 0,25€), alhos vendidos ao dente, massa de arroz já cozinhada. Até que soa o aviso e é hora de desmontar a barraca.

Três vezes por dia, duas de manhã e uma à tarde, um comboio amarelo cruza a linha férrea onde os vendedores comercializam os seus produtos. À boa maneira tailandesa – sem stress, portanto, e quase sempre com um sorriso nos lábios -, quando toca o apito deslocam-se as mercadorias, fecham-se os guarda-sóis e fica-se a ver o comboio a passar. É certo que a composição se desloca devagar, mas é impressionante ver como quem vende fica impávido e sereno a assistir à sua passagem. Aliás, há produtos, vegetais e frutas sobretudo, que continuam no mesmo sítio – calculado, claro está: o comboio passa-lhes por cima, rasante, mas nada (ou quase nada) é esmagado. Logo que a composição segue o seu caminho, volta tudo à estaca zero. Abrem-se os guarda-sóis, espalham-se de novo os produtos pela linha e a vida continua em Maeklong.

É um espectáculo digno de se ver mas diz quem sabe que o mercado de Maeklong pode ter os dias contados. Perspectiva-se para breve a abertura de um grande supermercado, que de certa forma pode hipotecar o futuro deste mercado tradicional. É melhor apressar-se, portanto, se quiser ver o comboio passar em Maeklong.

Nós por cá, continuamos para bingo em Damnoen Saduak, mas essa é conversa para mais daqui a pouco.

Sandra Silva Costa viaja a convite da Autoridade de Turismo da Tailândia

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