Aplauso

Ao longo desta semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­cam car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes — Bra­sil, Rús­sia, Índia e China). 

Dear John.

Sim, é uma dessas cartas. A despedida e tal. Logo no dia em que tudo aconteceu, estou no anticlímax do aeroporto, que de dentro pouco tem de carioca, mas que do ar vai jogar bonito, porque é uma tira e depois o mar. Mas até aqui, aconteceu de tudo. Houve super-heróis no hotel e no mar. Tipo “na noite passada um DJ salvou-me a vida”, mas desta vez em versão “nesta manhã um nadador salva-vidas salvou… uma vida”. E a princesa Leia e a Batgirl numa festa de anos até às tantas no hotel e até o Johnny Depp tinha um filho, como disse a Alexandra, um piratinha loiro e carioca com pai das Caraíbas que chegou fashionably late, às 00h, para dançar.

Ao domingo, a marginal e o calçadão com as ondas desenhadas em calçada portuguesa ficam por sua conta. O trânsito está fechado. Há uma corrida organizada, parece, e t-shirts de adultos que invectivam: “adopte”. Crianças cujo peito diz “adopção”. Já adoptei o Rio de Janeiro, mas não o conheço ainda. A previsão de chuva, pancada mesmo, não se confirmou a semana toda, ameaças vãs de um céu que, diz-nos um taxista-surfista-amante do Arpoador, é basicamente imprevisível, com ou sem túnicas de braços abertos a velar pela cidade. Há muitos cariocas que nem se dão ao trabalho de vir a Copacabana, ou a Ipanema, ou a uma das mil praias nos arredores nesta altura outonal (é para rir, estão quase 30 graus). Basicamente, já viram melhor.

O mar está revolto, marés vivas à brasileira, uma corrente de respeito e, de repente, meia praia volta-se para um ponto, uma cabeça para lá das ondas que quebram. Os salva-vidas recuperam o ponto, a mãe do ponto – de uns 10, 12 anos e que está numa espécie de animação suspensa enquanto deixa a água, atordoado – desfaz-se em agradecimentos. E aquele pedaço domingueiro de Copacabana rebenta em palmas.

gravitas do momento desfaz-se com a celebridade repentina dos enormes nadadores-salvadores, biquínis que se penduram neles para tirar fotografias e trocar piropos e deixar uma esteira de sorrisos malandros. A Batgirl não faria melhor e os momentos fugazes do Rio (e de outras cidades, sejamos francos), mesmo quando já estão um bocadinho estragados, são doces à mesma.

E é isto. Dear John, dear Tiago, uma última manhã, heróica e curta, em que o cantarolar constante e próximo dos pregões, insistentes, perfurantes, de quem vende de tudo na praia (salgadinho árabe, cangas, biquínis, frutos secos, quadros, tatuagens, bronzeador, bijuteria, gelados, música, serenatas, vestidos, brinquedos e queijo grelhado) parou para uma salva de palmas na areia de Copacabana. Há piores formas de deixar uma cidade.

Vénia.

P.S.: Aterrar em Lisboa e… mais palmas. Não daquelas de “estamos safos, obrigada por fazer o seu trabalho sr. piloto e não nos esparramarmos na pista”, mas daquelas a pedido. Era o último voo, depois de 40 anos de carreira, de um dos tripulantes. Também não ficou nada mal no postal de viagem.

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